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Felipe Zmoginski

Obcecada por segurança alimentar, China usa tecnologia até para criar carne

Investimento em tecnologia é visto como "essencial" para elevar a produção doméstica de alimentos - foodiesfeed/ Freepik
Investimento em tecnologia é visto como "essencial" para elevar a produção doméstica de alimentos Imagem: foodiesfeed/ Freepik
Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

09/12/2020 04h00

Poucos episódios são tão dolorosos para os chineses quanto "a grande fome", nome dado ao período entre os anos de 1958 e 61 quando uma sucessão de erros de planejamento e más decisões políticas levou o país à severa escassez de alimentos.

O trauma causado pelo episódio, que se estima matou por inanição entre 15 e 55 milhões de pessoas, impactou profundamente as políticas públicas do país, que passou a priorizar a "segurança alimentar" de sua população.

Com a vertiginosa ascensão econômica da China nas décadas de 1990, 2000, e 2010, cresceu enormemente também a demanda por comida, já que pessoas com melhor renda tendem a... comer mais. O fenômeno beneficiou fortemente o Brasil, grande exportador de carne, soja, café e frutas.

O recente impacto da pandemia de covid-19, que desestruturou cadeias logísticas no mundo todo, no entanto, fez a China temer, mais uma vez, não ter o fluxo regular de alimentos importados para seu país, de forma que 2020 voltou a ser o ano de cuidar da "segurança alimentar".

Para uma população rica, numerosa (e faminta), não há como assegurar produção agrícola suficiente sem fortes investimentos em inovação e tecnologia. Um estudo, publicado esta semana, pelo fundo de venture capital AgFunder, mostrou que, ao longo de 2020, a China saltou para a 2ª colocação entre os países que mais investem em foodtechs e agrotechs, atrás apenas dos Estados Unidos. Até 2019, este setor não era uma prioridade no país.

O estudo analisa que, apenas nos últimos seis meses, 24 startups chinesas receberam a injeção de US$ 1,2 bilhão. A maior parte delas busca "digitalizar" o campo, elevando a produtividade de cada alqueire agriculturável na China.

Um exemplo disso é a McFly, startup dedicada a implementar soluções de big data e inteligência artificial no campo chinês. A análise de dados climáticos, da qualidade do solo, do número de horas de Sol sobre a terra a cada dia, permitiria elevar a produtividade das colheitas de arroz, milho e outras culturas em até 25%.

Muitas outras, como MissFresh e TongCheng, dedicam-se a segmentos mais convencionais, como melhorar a logística entre campo e cidade, reduzindo desperdícios e perdas com o transporte.

Empresas como XAG, por exemplo, usam drones para mapear árvores onde a colheita "esqueceu" um fruto no pé, identificar arbustos doentes ou mesmo aqueles atacados por insetos.

Um dos setores mais brilhantes, no entanto, é o que promete criar carne (de verdade) a partir da replicação de células animais em laboratório, dispensando a criação (e abate) de porcos, galinhas e bois. Esforços para sintetizar carne (de mentira) a partir de soluções proteicas à base de vegetais também têm recebido grande atenção dos fundos de capital de risco na China, conforme demonstra o relatório da AgFunder.

O investimento em tecnologia é visto como "essencial" para elevar a produção doméstica de alimentos, mas não é o único esforço chinês para proteger sua população.

Outro esforço é a diversificação de fornecedores, diminuindo a dependência chinesa de parceiros como Estados Unidos, Brasil e Austrália e apostando mais nos vizinhos do Sudeste da Ásia e, em particular, em fazendas na África.

O tema é tão quente na China que, embora todas as mentes e corações estejam tomados pelo "fator covid", Pequim encontrou espaço para tornar o ano de 2020 também o "ano da luta contra o desperdício de alimentos".

Campanhas de comunicação na mídia, nas escolas e em redes sociais exortam os chineses a comerem menos, cuidar do peso e, sobretudo, evitar os tradicionais banquetes em almoços de família, quando por tradição cultural, se oferece grande fartura de alimentos que, inevitavelmente, acabam parcialmente desperdiçados.