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Felipe Zmoginski

Briga do Ocidente com a China pode atrapalhar futura rede de blockchain

Casas na província de Fujan, região que usa blockchain para validar transações imobiliárias - Divulgação/ Blockchain Service Network
Casas na província de Fujan, região que usa blockchain para validar transações imobiliárias Imagem: Divulgação/ Blockchain Service Network
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Felipe Zmoginski

Felipe Zmoginski foi editor de tecnologia na revista INFO Exame, da Editora Abril, e passou pelos portais Terra e America Online. Fundou a Associação Brasileira de Online to Offline, foi secretário-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e head de marketing e comunicações do Baidu no Brasil, companhia líder em buscas na web na China e soluções de inteligência artificial em todo o mundo. Há seis anos escreve sobre China e organiza missões de negócios para a Ásia.

02/12/2020 04h00

O blockchain pode muito, mas não pode tudo. A tecnologia que alia criptografia avançada e computação tem potencial para transformar setores como os de saúde, administração pública, validação de contratos, logística e, claro, o mercado financeiro.

Embora não seja exatamente algo novo, a implementação de blockchain para permitir, por exemplo, que documentos sejam validados de forma mais rápida, segura e menos burocrática só será possível quando diferentes instituições reconhecerem os mesmos protocolos e padrões para efetuar estas transações.

País com avançado uso do blockchain, a China já usa o método digital para, por exemplo, validar escrituras de imóveis, aprovar contratos públicos e realizar compensações financeiras. Este ano, o Banco do Povo, equivalente nacional ao Banco Central, estreou o uso de uma moeda soberana digital baseada em blockchain, o e-renminbi. Os ganhos em termos de produtividade e segurança são brutais.

Criada este ano, a rede "Blockchain Service Network" é uma aliança que prevê a definição comum, por múltiplas empresas, governos e entidades, de padrões para o uso e troca de documentos baseados na tecnologia. A rede tem evidente liderança chinesa embora, claro, agregue representantes de várias partes do mundo. E justamente aí está o obstáculo.

O fato de muitos países, notadamente os Estados Unidos, mas também o Brasil, imporem restrições a iniciativas chinesas ameaçam implodir a formação de uma rede que, na prática, aceleraria a adoção destes protocolos em todo o mundo.

Atrasar a implementação de blockchain, na prática, é tornar o comércio internacional, os serviços financeiros e a burocracia dos cartórios mais caros e ineficientes.

O drama é maior se notarmos que, à exceção da China, há poucos países com grande projeção internacional dispostos a exercer este papel e puxar o uso de um recurso que melhorará o ambiente de negócios.

A guerra tecnológica que busca, em última análise, retardar a ascensão chinesa apresenta não só no caso do blockchain um prejuízo ao usuário final. O mesmo problema se repete com as tecnologias 5G, que ficarão mais caras e avançarão com menos velocidade por conta do esforço em bloquear a China.

No país asiático, no entanto, o sentimento é de que é preciso perseverar e tais oposições já estão "precificadas". Não há caso na história de uma potência hegemônica, como tem sido os Estados Unidos desde o pós-guerra, perder sua liderança sem reagir contra o desafiante.

No caso do blockchain, como em tantos outros, nada indica que a China desistirá de seus objetivos, fiel à fama de planejar-se a longo prazo. É famosa e icônica a frase de Zhou Enlai, primeiro-ministro chinês nos anos 70, ao ser questionado, pelo secretário de Estado americano Henry Kissinger, sobre os efeitos que a revolução francesa teve sobre o mundo: "ainda é cedo para dizermos", respondeu.