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Alessandra Montini

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Gato por lebre: TV afirma vir com inteligência artificial, mas é só chatbot

Fran Jacquier/ Unsplash
Imagem: Fran Jacquier/ Unsplash
Alessandra Montini

Apaixonada por dados e pela arte de lecionar, a professora doutora Alessandra Montini tem muito orgulho de ter criado na FIA cinco laboratórios para as aulas de Big Data e Inteligência Artificial. Mestre em estatística aplicada pelo IME-USP e doutora pela FEA-USP, já ganhou mais de 60 prêmios de excelência acadêmica e possui mais de 20 anos de trajetória nas áreas de Data Mining, Big Data, IA e Analytics. Hoje é diretora do LABDATA-FIA, orienta alunos de mestrado e doutorado na FEA-USP, coordena grupos de pesquisa no CNPq e é parecerista da FAPESP.

20/06/2021 04h00

Recentemente, comprei uma TV que prometia vir com inteligência artificial, ou seja, ela teria uma capacidade de responder a uma grande quantidade de comandos de voz simulando um humano. Ela deveria imitar as funções cognitivas humanas, como compreender, "raciocinar" e resolver problemas. Imaginava que seria apenas enviar um comando de voz que a TV localizaria um aplicativo, conseguiria aumentar o volume, trocaria de canal, pesquisaria informações, recomendaria conteúdos e tantas outras funções.

Esta era a minha expectativa, no entanto a realidade foi muito diferente. A TV não possuía uma interface conversacional baseada em uma IA sofisticada, mas era sim um chatbot bastante simples e muito pautado em regras.

Os chatbots ficaram mais conhecidos recentemente em 2016, quando empresas como Facebook, Apple e Microsoft resolveram investir nessa tecnologia. Eles podem ser tão complexos quanto uma combinação de diversos modelos de machine e deep learning, ou tão simples quando um pequeno conjunto de regras.

A grande questão é que os chatbots ganharam uma exposição rápida demais e têm sido projetados de forma que sua qualidade não permite que eles sejam bons para substituir algumas experiências.

Embora a IA possa ser incorporada nesta tecnologia, ainda há muito para evoluirmos para que ela se torne inteligente a ponto de entender algumas variações da nossa comunicação.

A minha experiência com a TV me mostrou o quanto eu troquei gato por lebre.

A inteligência artificial, na qual apostei, é totalmente fundamentada em algoritmos que podem enfrentar a percepção, a aprendizagem, a compreensão do raciocínio ou linguagem/raciocínio lógico e a resolução de problemas.

No entanto, me deparei com algo bastante rudimentar que só é capaz de lidar com um conjunto pré-definido (e limitado) de comandos.

O caso da TV foi apenas um exemplo, mas em muitos serviços e produtos estamos sendo enganados. Vendem uma tecnologia quando, na verdade, é totalmente outra. Por isso, precisamos estar atentos e entender como cada uma funciona.

Alguns dados levantados pelo estudo 2020 Government AI Readiness Index, realizado pela Universidade de Oxford, mostra o Brasil apenas na 63ª posição do índice de preparo para inteligência artificial. Na América Latina, ocupamos apenas o 6º lugar.

Claro que há um certo abismo se compararmos o investimento dos EUA e a Europa para com o restante do mundo. Entretanto, no caso do Brasil, uma posição tão baixa, atrás até mesmo de economias bem menos poderosas, liga o sinal de alerta para o desenvolvimento tecnológico nacional.

Nos próximos anos, ouviremos muitos serviços sendo transformados em IA, mas precisamos estar atentos, porque "nem tudo o que reluz é ouro".

O ideal é apostarmos com mais clareza quanto a essa tecnologia. Esta é uma possível alternativa para sairmos dessa estagnação que o Brasil enfrenta quando o assunto é inteligência artificial.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL