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Game brasileiro Tamashii precisou ser "suavizado" para chegar aos consoles

"Tamashii" é um jogo de plataforma com elementos de ocultismo, símbolos religiosos e atmosfera pesada - Divulgação
"Tamashii" é um jogo de plataforma com elementos de ocultismo, símbolos religiosos e atmosfera pesada Imagem: Divulgação

Makson Lima

Colaboração para o START

20/12/2019 04h00

Em 2019 tivemos lançamentos de bons jogos brasileiros, indo de "Blazing Chrome" a "Sky Racket" e "Minoria", só para citar alguns. Correndo por fora, enquanto isso, vinha um jogo abarrotado de simbolismos, tripas e ocultismo: o nome dele é "Tamashii", que foi lançado em março para PC, e chegou agora em dezembro aos consoles.

O START foi conversar com o criador dessa obra perturbadora. Victor "Vikintor" Follador falou sobre seu trabalho, processo de criação e adaptações que o jogo sofreu para ser aprovado nos consoles.

START: Nunca vou esquecer quando bati o olho em "Tamashii" pela primeira vez. Foi impactante. Como foi o seu começo no desenvolvimento de jogos?

Vikintor: O primeiro contato com programação de jogos foi por volta dos 16 anos, na época com o Game Maker 4, quando consegui um CD com o programa numa revista da CD Expert. Passei uma boa parte do tempo programando fangame, uns testes e softwares simples. Só fui levar a possibilidade a sério recentemente, durante a produção do Tamashii, quando fui começando a desenvolver um estilo de trabalho mais autoral. Que ainda venho aprimorando.

Já recebi comentários de que o jogo parecia uma propaganda para uma seita. Era para ser uma crítica negativa, mas foi exatamente o que eu estava buscando alcançar

START: No Firmeza Fest, você comentou que aquele era seu primeiro evento expondo o jogo. Como foi sentir a reação das pessoas ali, ao vivo?

Vikintor: O feedback que obtive por lá foi precioso. A internet parece tornar as pessoas próximas por alguns cliques e ao mesmo tempo distantes, seja por curtidas ou relevância no feed. Vejo como a parte social num espaço físico não é substituível. Foi algo sincero, comprometido. Incluindo que foi um prazer conhecer todos pessoalmente.

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Imagem: Divulgação

START: "Tamashii", em primeira impressão, é bastante bizarro. E fica ainda mais quanto mais nos aprofundamos nele. Como é lidar com tantos elementos místicos, alquímicos e de horror no jogo? Como funciona seu processo criativo? E de onde saiu Tamashii?

Vikintor: Costumo ver meus jogos como artesanato mesmo. Uma espécie de artesanato digital. Geralmente tenho apenas o começo e um final. E depois vou costurando os pontos que ligam um ao outro. Tamashii nasceu, primeiro, com a ideia da jogabilidade, pois eu já havia desenvolvido uns protótipos que serviriam para aprimorar a ideia final. E quanto à história fui adaptando fragmentos do que eu já possuía em cadernos, escritos para um livro que nunca terminei.

A internet parece tornar as pessoas próximas por alguns cliques e ao mesmo tempo distantes, seja por curtidas ou relevância no feed

START: A coluna vertebral de Tamashii é a de um jogo de puzzle e plataforma, certo? Como é encaixar isso em terror, criar um ambiente para a coisa toda?

Vikintor: Sim. Creio que o terror foi muito mais uma consequência das minhas referências e de como elas se manifestavam do que algo que eu tenha planejado. Quando parti para a construção da história e atmosfera do jogo, tentei manter em curso a ideia que vinha desenvolvendo do que chamo de "Punk-metafísico", que se resumia em manipular os símbolos, às vezes de maneira subversiva, com um objetivo "transcendental", mesmo que filosoficamente transgressivo. Algo que fosse um pouco mais além no "ocultismo" do que outros jogos vinham fazendo, dar uma abordagem menos genérica, brincar um pouco com as concepções de sagrado e profano, utilizar arquétipos luciferianos. Já recebi comentários de que o jogo parecia uma propaganda para uma seita. Era para ser uma crítica negativa, mas foi exatamente o que eu estava buscando alcançar.

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START: Como você vê o cenário de desenvolvimento de jogos no Brasil hoje?

Vikintor: Eu costumo acompanhar apenas algumas notícias quando surgem na timeline. Ando bem desconectado do estado da indústria e do mercado. Pois sei que em geral as pessoas têm um perfil empreendedor e se mantêm informadas sobre o campo em que atuam. Eu só queria fazer o jogo, qualquer coisa além disso era muito para mim. Tanto que obtive conhecimento da existência do BGA (Brazil Game Awards) quando o Tamashii foi indicado, e não sabia o que era a CCXP até pouco tempo. Acho que sou quase um eremita.

Obtive conhecimento da existência do BGA (Brazil Game Awards) quando o Tamashii foi indicado, e não sabia o que era a CCXP até pouco tempo. Acho que sou quase um eremita

START: De H.R. Giger a diversos elementos religiosos e pagãos, como você lida com influências em seu trabalho? Como é criar algo original envolto em homenagens?

Vikintor: Giger é um exemplo de que gosto muito, especialmente pela abordagem erótica e biomecânica presente nas obras dele. Creio que seja a mistura dos elementos que mais me impressionam que me fizeram construir a identidade do Tamashii.

Uma das incríveis artes do artista surrealista H.R. Giger - Reprodução
Uma das incríveis artes do artista surrealista H.R. Giger
Imagem: Reprodução

START: Quais serão as maiores diferenças entre Tamashii 2 e o original? O que você pretende implementar de verdadeiramente novo no próximo jogo? Já tem alguma janela de lançamento?

Vikintor: Estou inicialmente me focando na parte artística e utilizando algumas ideias que ficaram de fora do primeiro jogo, além de corrigir alguns pontos que não me agradaram tanto no primeiro jogo. Comecei o Tamashii 2 logo após adquirir uma engine mais atualizada, então ainda estou explorando as novas possibilidades que ela pode apresentar. Também quero que ele seja ainda mais focado na temática principal. Não tenho uma previsão de lançamento, pois tenho o péssimo costume de após terminar o jogo, dedicar um tempo para easter eggs.

START: Qual foi o último terror (seja lá em qual mídia) que verdadeiramente impactou você?

Vikintor: A última coisa que lembro ter deixando um grande impacto; foi 'Thumper', uma mistura de jogo rítmico com horror cósmico, geralmente tenho essa preferência em achar o terror no que não é exatamente terror.

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START: E como tem sido para você a chegada de Tamashii aos consoles, Switch, PS4 e Xbox One? Foi um processo tranquilo? Nada do conteúdo foi censurado, certo?

Vikintor: Confesso que chegar aos consoles não era algo que eu imaginava que aconteceria. Tivemos de 'portar' o jogo para uma versão mais nova da engine, coisa que levou alguns meses para adaptar. A galera da Digerati e da Stage Clear deram bastante suporte, e inclusive tentaram manter o jogo o mais fiel ao original (como enviei). Contudo, recebemos uma resposta não tão afetuosa de uma das grandes marcas de consoles por causa do conteúdo, o que era bem esquisito para mim, tendo em vista que tinham Outlast no catálogo. Então tivemos de alterar alguns sprites, especialmente com referências cristãs explícitas.

Recebemos uma resposta não tão afetuosa de uma das grandes marcas de consoles por causa do conteúdo, o que era bem esquisito para mim, tendo em vista que tinham Outlast no catálogo

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