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Conheça "Dungeons & Dragons", o RPG jogado na série "Stranger Things"

A cena inicial de "Stranger Things" mostra uma partida de "Dungeons & Dragons" - Reprodução/Netflix
A cena inicial de "Stranger Things" mostra uma partida de "Dungeons & Dragons" Imagem: Reprodução/Netflix

Pablo Raphael

Do UOL, em São Paulo

29/07/2016 17h27

Cheia de referências aos filmes e ao estilo de vida dos anos 1980, a série "Stranger Things" tem entre seus protagonistas quatro típicos nerds mirins daquela época: Mike, Will, Lucas e Dustin, que aparecem já na cena inicial do show jogando uma partida de "Dungeons & Dragons", jogo que tem um papel importante nos episódios seguintes da aventura.

Lançado em 1974, "Dungeons & Dragons" (ou "D&D") já estava na segunda edição em 1983, mas a versão jogada pelos meninos de "Stranger Things" era, provavelmente a chamada "Caixa Vermelha", o primeiro conjunto bem organizado das regras básicas do jogo - que inclusive foi vendida no Brasil, pela Grow, nos anos 1990. Criação de Gary Gygax e Dave Anerson, o jogo é inspirado na fantasia medieval de "O Senhor dos Anéis" e em jogos de estratégia, grande paixão da dupla.

Reza a lenda que a ideia para "D&D" nasceu ao final de uma partida de um jogo desses, onde o exército de miniaturas controlado por Anerson e seus amigos foi derrotado tentando invadir o castelo de Gygax. Mas, pelas contas dos jogadores, um pequeno grupo de soldados teria sobrevivido. "E se eles tivessem encontrado uma entrada para as masmorras do castelo?", teria perguntado Anerson. Gygax não soube responder o que fazer (as regras do jogo não previam uma situação dessas), mas pediu para continuar a partida na outra semana, após criar um sistema de regras para esse caso.

Essas regras foram aprimoradas com um sistema de criação de personagens, monstros e mecânicas de combate que seriam a base para "Dungeons & Dragons" e vários outros jogos do gênero - assim teria nascido o primeiro "Roleplaying Game" (RPG) ou jogo de interpretação de papéis. Diferente de um jogo de estratégia convencional, em "D&D" cada jogador interpreta um personagem, como um elfo, anão ou mago, por exemplo, enquanto um deles, chamado de "Mestre do Jogo", cuida de todos os vilões, armadilhas e criaturas que o grupo encontra.

As aventuras de "D&D" são cheias de monstros como o Demogorgon. A criatura, que aparece em "Stranger Things" e está presente em todas as versões do RPG, era descrita originalmente como um Príncipe dos Demônios. Ao longo dos anos, os diabos e demônios infernais do jogo original foram renomeados para "monstros" para evitar problemas com igrejas e pais preocupados com possíveis influências negativas. - Reprodução
As aventuras de "D&D" são cheias de monstros como o Demogorgon. A criatura, que aparece em "Stranger Things" e está presente em todas as versões do RPG, era descrita originalmente como um Príncipe dos Demônios. Ao longo dos anos, os diabos e demônios infernais do jogo original foram renomeados para "monstros" para evitar problemas com igrejas e pais preocupados com possíveis influências negativas.
Imagem: Reprodução

Jogo cooperativo

Ao contrário de um jogo tradicional, em "D&D" e em outros RPGs, não há um vencedor: O grupo não está jogando contra o Mestre, mas junto dele, para viver a aventura e se divertir. Há mecânicas de combate, resolvidas com dados e com as diversas estatísticas de cada personagem, para que a campanha possa progredir e não fique empacada como aquelas brincadeiras de criança onde tudo termina em discussões do tipo "Eu acertei você! Não acertou não!", mas o objetivo de todos é cooperar para que a aventura termine da melhor (e mais emocionante) maneira possível.

"Dungeons & Dragons" usa um conjunto de dados de várias faces, sendo o mais famoso o d20, um poliedro com 20 lados. É com ele que são feitas as jogadas de ataque, magias e outros testes (como quando Will tenta lançar uma bola de fogo no Demogorgon). Os outros dados (d4, d6, d8, d10 e d12) são usados, em geral, para calcular o dano das armas ou em outros momentos específicos. Além disso, os jogadores usam suas fichas de personagem para anotar os atributos dos heróis, seus equipamentos e magias. Outros acessórios, como miniaturas e tabuleiros são bem úteis e dão um nível extra de estratégia para a ação, mas não são obrigatórios. Afinal, toda a aventura acontece na imaginação dos participantes.

Claro, nem todo Mestre de Jogo tem tempo de bolar cada detalhe da aventura (que pode se estender por bem mais do que as 10 horas da campanha de Mike) e seguir por várias sessões - o final de uma história pode levar para a próxima e assim por diante, com os personagens evoluindo e ficando mais velhos, assim como acontece com os jogadores! Para ajudar grupos que não têm tanto tempo livre ou dar aquele empurrãozinho na imaginação, "D&D" conta com vários livros extras, os chamados suplementos - aqueles livros que aparecem ao redor da mesa de jogo na série do Netflix.

Com mais de 40 anos de idade, o jogo evoluiu, mas algumas coisas continuam as mesmas: Para começar a jogar "D&D", sua turma só precisa do livro básico, fichas de personagem, um conjunto de dados, lápis e papel. Refrigerante e salgadinhos são bem vindos, é claro! - Reprodução
Com mais de 40 anos de idade, o jogo evoluiu, mas algumas coisas continuam as mesmas: Para começar a jogar "D&D", sua turma só precisa do livro básico, fichas de personagem, um conjunto de dados, lápis e papel. Refrigerante e salgadinhos são bem vindos, é claro!
Imagem: Reprodução

Ao longo dos anos, o jogo recebeu suplementos de cenários (descrevendo mundos inteiros para se aventurar), outros que aprofundam as classes de personagem (livro do Guerreiro, Mago, Ladino e assim por diante) e novos conjuntos de regras. O mais interessante dessas regras e cenários é que elas não são consideradas "obrigatórias" para se jogar. Na verdade, você pode pegar o que achar de melhor em um livro e deixar de fora o que não gosta. Claro, tudo deve ser combinado com o resto do grupo, para evitar confusão.

De tempos em tempos, "D&D" ganha novas edições, que mudam algumas das regras básicas do jogo, sugerem novos sistemas e atualizam a linguagem do RPG para novas gerações de jogadores. Atualmente, "Dungeons & Dragons" está na quinta edição, mas você encontra facilmente módulos da terceira e da quarta edição em lojas especializadas. Há também muitos outros RPGs "de mesa", alguns baseados em outros gêneros, como ficção científica e horror, outros explorando a fantasia medieval de forma diferente.

Muito popular entre os nerds desde os anos 1980, "D&D" conta com um grande número de jogadores famosos, como o ator Vin Diesel (e todo o elenco de "Velozes & Furiosos"). Outros artistas que não escondem  a paixão pelo RPG  são Moby,  Mike Myers, Patton Oswalt, Karl Urban, Nathan Fillion, Gerard Way, Wil Wheaton e Matt Groening, criador de "Os Simpsons". - Reprodução
Muito popular entre os nerds desde os anos 1980, "D&D" conta com um grande número de jogadores famosos, como o ator Vin Diesel (e todo o elenco de "Velozes & Furiosos"). Outros artistas que não escondem a paixão pelo RPG são Moby, Mike Myers, Patton Oswalt, Karl Urban, Nathan Fillion, Gerard Way, Wil Wheaton e Matt Groening, criador de "Os Simpsons".
Imagem: Reprodução

Masmorras e Dragões

A versão clássica do jogo foi lançada no Brasil pela Grow e os módulos da segunda edição, chamada "Advanced Dungeons & Dragons" chegaram a ser vendidos em bancas de revista pela editora Abril, em meados dos anos 1990, quando os jogos de RPG tiveram seu primeiro pico de popularidade no país.

Atualmente, os livros de "Dungeons & Dragons" são distribuídos no Brasil pela editora Devir, que publicou por aqui vários livros do jogo, da terceira até a quarta edição. A editora também é responsável pela tradução do principal "concorrente" de "D&D", o jogo "Pathfinder", para o nosso idioma. Até o momento, não há previsão para o lançamento da quinta edição de "Dungeons & Dragons" em português - mas você encontra os módulos básicos em inglês nas principais lojas especializadas.

Há, é claro, alternativas: Além das edições anteriores de "D&D" e de "Pathfinder", você encontra vários outros RPGs com a temática de fantasia medieval devidamente traduzidos para o português (ou mesmo feitos no Brasil): "13ª Era", "Old Dragon", "Crônicas", "Dungeon World", "Reinos de Ferro" e "Tormenta" são alguns deles, cada qual com pequenas variações dentro do tema - "Crônicas" é mais 'realista', enquanto "Tormenta" tem forte inspiração em animes e mangás de ação, por exemplo.

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