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OPINIÃO

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Abalo ou aprendizado? O que os VAC bans mostram ao cenário brasileiro de CS

Leo Bianchi

Leo Bianchi é jornalista, já foi repórter e apresentador do Globo Esporte. É apaixonado por competição e já cobriu Copa do Mundo, Fórmula 1, UFC e mundiais de CS:GO, R6, FIFA, Just Dance e Free Fire. Também é youtuber e pro-player frustrado. No GGWP você encontra análise dos cenários competitivos no Brasil e no mundo, além dos bastidores do universo envolvendo times, jogadores e novidades em geral.

Colunista do UOL

02/05/2021 10h00

Nas últimas semanas, o cenário competitivo brasileiro de Counter-Strike: Global Offensive foi dominado por um único assunto: o afastamento de equipes cujo jogadores supostamente teriam sido suspensos por cheat - ou seja, flagrados no Valve Anti-Cheat (VAC) ban. Essas infrações teriam ocorrido muitos anos atrás, antes mesmo de iniciarem sua carreira profissional. Mas, para evitar maiores problemas e investigar o ocorrido por conta própria, os times decidiram abandonar a o CBCS, o Campeonato Brasileiro do game.

Os anúncios foram ocorrendo, um atrás do outro: Mateus "cidZzZ", da Bears. Kaue "kauez", da DETONA Gaming. Kayke "Kye", da Vivo Keyd. André "drop", da Isurus Gaming. A explicação dada pelos times faz pleno sentido: manter a integridade competitiva do torneio. Mas a polêmica levanta uma questão delicada: a Valve está sabendo balancear o comportamento passado e a realidade atual desses profissionais?

Obviamente, nada justifica o uso de cheat. Em nenhum jogo. A trapaça é uma prática lamentável, seja em experiências casuais ou profissionais. Porém, é necessário levar em conta que esses erros ocorreram na infância ou na adolescência. Numa fase da vida em que o discernimento não é o mesmo que se espera de um pro player - para quem o game representa sua carreira, seu sustento e sua reputação.

"É um assunto complexo, que vai de caso a caso. Um atleta que tomou o VAC ban quando era mais novo, com 12, 13 anos de idade... Como cobrar responsabilidade profissional de uma criança? Provavelmente, ele não tinha pretensão nenhuma de ser atleta", argumenta o narrador de CS, Juliano "Marcatto". "Isso prejudica o cenário, mas, em contrapartida, deixa um aviso muito sério às próximas gerações."

"Como o CBCS é um circuito com fases qualificatórias para cada etapa, qualquer jogador, seja ele profissional ou amador, pode ter a oportunidade de se classificar", explica a comentarista Pamela "pan". "Com isso, vem o brilho nos olhos de, quem sabe, jogar um tão sonhado Major. Mas também vem a ganância de tentar a qualquer custo, sem pensar no grupo, na equipe como um todo. É aí que mora o perigo."

Ainda segundo Pamela, "todo jogador que já tomou VAC ban sabe que tem isso no seu histórico. Só que, até o momento, isso nunca havia sido colocado em prova, porque os campeonatos não são RMR."

A postura das equipes é necessária - ao menos, até que os casos sejam investigados. Ao mesmo tempo, os jogadores precisam entender que, embora sejam processos individuais, seu comportamento afeta toda a organização.

"Envolve muitas outras histórias, outros sonhos, outras vidas", relembra Pamela. "Eu já fui jogadora e senti na pele o que é você abdicar de tudo pelo game, pelo seu time. É muito egoísmo não ter empatia e não ser verdadeiro com seus companheiros de equipe. A regra tem que ser igual para todos. O vsm é a prova viva disso."

Vinícius "v$m", ex-integrante do DETONA e do MIBR, foi banido em 2013 e voltou a ser liberado pela Valve para jogar Majors somente em abril deste ano.

A tendência é que cada vez mais os jogos apertem a fiscalização em cima dos cheats. Veja o caso de VALORANT: lançado no ano passado, ele já conta com o Vanguard, um sistema extremamente rígido para evitar trapaças. Outras tecnologias desse tipo serão cada vez mais comuns, a ponto de tornar impensável um jogador ou time se valer de mecanismos ilegais para vencer. Quem vai vencer, na verdade, será o próprio ecossistema dos eSports, que se tornará mais saudável.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL