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OPINIÃO

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Eu tilto jogando. Isso é normal? E por que damos rage?

Claudio Godoi, psicólogo da Team Liquid, em ação - Cesar Galeão/Garena
Claudio Godoi, psicólogo da Team Liquid, em ação Imagem: Cesar Galeão/Garena
Leo Bianchi

Leo Bianchi é jornalista, já foi repórter e apresentador do Globo Esporte. É apaixonado por competição e já cobriu Copa do Mundo, Fórmula 1, UFC e mundiais de CS:GO, R6, FIFA, Just Dance e Free Fire. Também é youtuber e pro-player frustrado. No GGWP você encontra análise dos cenários competitivos no Brasil e no mundo, além dos bastidores do universo envolvendo times, jogadores e novidades em geral.

Colunista do UOL

01/04/2021 09h00

Eu amo jogar, mas às vezes sinto ódio. Raiva. Frequentemente tenho dificuldade até pra dormir. Fico horas remoendo uma partida - isto é, quando consigo terminá-la. Quando as coisas saem do controle, aplico o famoso "Rage Quit" - de tão bravo, simplesmente abandono meus companheiros e a partida no meio. Jamais xingo ou desrespeito alguém no servidor. A raiva é minha. Então, melhor me desconectar. Normalmente esse terrível sentimento acontece na derrota. Perder dói. Machuca!

Mas calma lá, eu não sou profissional. Perder ou ganhar uma ranqueada não faz diferença, certo? Na teoria sim, na prática não. Conversando com amigos que também são competitivos reparei que é um comportamento até "normal" em várias pessoas. O ex-pro player de Rainbow Six Siege, Vitor "Intact" Janz, também relatou o mesmo sentimento na ranked: "Eu me frustro. Skill muitas vezes não garante nada, isso que eu fico mais bolado. Eu ainda saio me sentindo um b... Eu amo jogar, mas fico mal-humorado".

Esse cenário é mais comum do que a gente imagina. Faz mal. Gera ansiedade. Pra acalmar, eu por exemplo, tomo um balde de sorvete ou um litro de refrigerante. Nada saudável. Segundo o psicólogo da Team Liquid, Claudio Godoi, esse comportamento é normal. "Imagine o seguinte: assim como os jogos que têm barra de vida e de estamina, nós também temos algumas barras que guiam nossas emoções e autocontrole, e uma das barras mais importantes que temos é a barra de paciência", explica.

"O problema é que nosso cérebro não consegue operar de maneira racional e estratégica se nós estamos mergulhados em emoções. Então isso piora nossa tomada de decisão, tendemos a ficar mais impulsivos, o que leva a mais erros e situações desfavoráveis e dessa forma se instala o ciclo infernal do tilt", completa o psicólogo.

Muitas vezes o ódio de um é a diversão do outro. Clipes de streamers "tiltados" viralizam. Um famoso é do argentino Hastad jogando League of Legends. Davy Jones no GTA. Rato Borrachudo costuma quebrar teclado (quem nunca?). Eu mesmo já destruí inúmeros controles e teclados jogando.

Igor3k, hoje host do Flow Podcast, contou que fazia mal pra ele jogar GTA e Mário Maker. Além do "rage", descontava a raiva discutindo com a mulher e as filhas. Esse é o limite pra se repensar e até procurar ajuda de um psicólogo. "Podemos acabar desenvolvendo problemas físicos como gastrite, ataques de ansiedade, dores de cabeça, etc. Problemas como desrregulação alimentar e obesidade, já que ao nos irritarmos muito, nosso corpo vai tentar se 'consolar' então acabamos abusando de açúcar, comidas gordurosas e nessa tentativa de se 'acalmar' acabamos extravasando e comendo muito além do necessário", conta Claudio.

A boa notícia é que é possível mudar esse cenário. "A primeira forma é se preparar para a situação adversa, ter uma auto-conversa com seu cérebro antes de começar a jogar. 'Olha... nós vamos entrar aqui na ranked, você está ciente que pode ter gente no nosso time que vai entregar'. Esse processo já cria um fortalecimento mental maior para lidar melhor com essas adversidades. O grande problema é que a irritação que surgiu de 30 minutos de jogo pode se prolongar mesmo após o jogo. Estudos avaliam que a raiva e a irritação podem se manter de 1 a 10 horas após o ocorrido e estragar assim o seu dia", ensina o psicólogo.

Moral da história: a chave é não se cobrar tanto e baixar as expectativas. É preciso aceitar que não somos os melhores jogadores do mundo, mas podemos ser as melhores pessoas dentro e, principalmente, fora do jogo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL