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Como os eSports podem aprender com o caso Mazepin, da Fórmula 1

Leo Bianchi

Leo Bianchi é jornalista, já foi repórter e apresentador do Globo Esporte. É apaixonado por competição e já cobriu Copa do Mundo, Fórmula 1, UFC e mundiais de CS:GO, R6, FIFA, Just Dance e Free Fire. Também é youtuber e pro-player frustrado. No GGWP você encontra análise dos cenários competitivos no Brasil e no mundo, além dos bastidores do universo envolvendo times, jogadores e novidades em geral.

Colunista do UOL

03/01/2021 12h00

O esporte eletrônico absorve diversos exemplos das modalidades tradicionais. É natural que um cenário competitivo que surgiu há bem menos tempo, ainda que já mostre um desenvolvimento próprio, se espelhe em fatos e modelos que deram certo em áreas consagradas há décadas. Da mesma forma, os games contam com a capacidade de aprender e não repetir os mesmos erros. Da Fórmula 1, vem um exemplo claro nas últimas semanas do que não fazer.

No início de dezembro do ano passado, o piloto Nikita Mazepin, da Haas, publicou um vídeo em seu perfil no Instagram (nos stories) no qual assediava uma mulher, apalpando os seios dela. Diante da repercussão, que virou assunto mundial rapidamente, o profissional de 21 anos apagou o conteúdo e fez uma postagem se desculpando pelo ocorrido. Posteriormente, também deletou as próprias desculpas. Ele foi mantido como titular pela Haas para 2021.

No Brasil e em todo o mundo, fãs de Fórmula 1 se pronunciaram por meio da #WeSayNoToMazepin, que virou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Um abaixo-assinado pedindo a demissão do russo também foi desenvolvido. A FIA (Federação Internacional de Automobilismo) não impôs qualquer sanção a Mazepin - apenas classificou a postura como "inadequada".

Qualquer pessoa que acompanhe disputas esportivas sabe que, nos bastidores, há um jogo político repleto de interesses e artimanhas - cada qual com suas próprias particularidades. A Fórmula 1, elite competitiva do automobilismo, não é exceção. Independentemente disso, não é aceitável - e, aqui, fica uma lição para os eSports em geral - que qualquer tipo de assédio, preconceito ou estímulo de ódio não aconteça.

Vai muito além da discussão sobre a "cultura de cancelamento" ou sobre quais são as medidas cabíveis para cada tipo de situação. É sobre a mensagem que se passa a partir do momento que alguém comete um assédio, sem qualquer constrangimento de torná-lo público, e tudo continua como se nada tivesse acontecido. O esporte eletrônico precisa mirar no exemplo e virar a referência de como lidar com contextos assim.

Um dos maiores desafios das produtoras é, sim, combater posturas machistas, misóginas e preconceituosas em todos os games. É uma grande oportunidade em mãos: mostrar que além de serem, sim, esportes como quaisquer outros, os eSports ainda podem ter como diferencial tratar todos como iguais. Algo ainda distante da realidade, mas que, com o esforço coletivo, pode acontecer.

Isso deve partir de todos os envolvidos no cenário. Publishers que não permitam deslizes e combatam diariamente o assédio. Jogadores profissionais que deem o exemplo e influenciem de maneira positiva o seu público. Uma imprensa que vigie, não se cale e, da mesma forma, não dê palco a quem não merece tê-lo. De alguma maneira, todos têm em mãos algum tipo de oportunidade para ajudar e começar a mudança agora.

Estamos nos primeiros dias de 2021, e todo novo ciclo é uma grande chance de fazer diferente. O fato dos games serem disputados online, conectando grandes distâncias por meio da internet, não dão a ninguém o direito de "esquecer" as regras e se portar de maneira inaceitável. Ainda que em espectros distantes, a Fórmula 1 os eSports se aproximam em tudo que diz respeito da esfera competitiva, e o caso Mazepin deixa, acima de tudo, uma mensagem: dignidade deve estar, sempre, acima de qualquer interesse.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.