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Docs de Balão Mágico e Xuxa revelam gincana cruel imposta a crianças

Xuxa apresenta programa nos anos 80 - Divulgação
Xuxa apresenta programa nos anos 80 Imagem: Divulgação

Cristina Padiglione

Colaboração para Splash, de São Paulo

18/07/2023 04h00

Dizem que quem foi criança entre os anos 1980 e 90 já cresceu pronto para enfrentar todo tipo de adversidade na vida. Faltava sobretudo filtro para regular o que se consumia, da mesa à tela, e como se consumia, sem restrições etárias a publicidade ou conteúdo.

Star+ e Globoplay lançaram na mesma semana produções dispostas a resgatar a trajetória de duas grandes grifes que movimentaram multidões e cifras milionárias graças à vulnerabilidade infantil de quem cresceu na ocasião. Antes de mais nada, os documentários sobre Balão Mágico e Xuxa Meneghel revelam muito sobre a absoluta ausência de noção daquelas décadas.

Concorrentes, as duas plataformas evidentemente não combinaram de colocar as referidas produções no ar no mesmo momento. Daí a graça em sintonizar as duas quase como spin-off uma da outra, mesmo porque a chegada de Xuxa à Globo pavimentou o fim do Balão Mágico, em 1986.

Visitar as cenas de idolatria em torno de Simony, Tob, Mike, Jairzinho, Xuxa e Paquitas é olhar para um mundo que hoje nos parece tão surreal quanto à época se mostravam as previsões futuristas, com a diferença de que esse passado existiu de fato e não faz tanto tempo assim.

Se o fanatismo que lotava estádios em torno de ídolos infantis explorados como se fossem bonecos descartáveis já choca a geração que testemunhou tudo aquilo, é impossível calcular o impacto que essas histórias tenham na percepção de quem nasceu já neste milênio.

Com várias telas e opções de entretenimento ao seu alcance, a turma que chegou nos anos 2000 padece de referências de protagonismo como aquele provocado por Xuxa, Simony e companhia, sem falar em outros ídolos. Em compensação, as gerações mais recentes já não descarregam toda a sua ansiedade, imaturidade e carência identitária sobre um único ser, arrefecendo aqueles arroubos que vemos nos dois documentários.

Não é menos chocante ver como a indústria fonográfica se alimentava da histeria de grandes plateias, com gritarias, gente desmaiando e perseguindo os comboios que conduziam seu ídolos. Ok, alguém comparou o fanatismo com o público dos Beatles, mas, nesses paralelos brasileiros, falávamos de crianças, o que torna o cenário bem mais cruel.

No caso do Balão Mágico, os pequenos estavam também sob os holofotes, sob avaliação puramente mercadológica, como denuncia o depoimento de Marcos Maynart, produtor musical que foi dirigente da gravadora responsável pelo lançamento das crianças. "Não me lembro de fracassos, só de sucessos", gargalha ele ao ser questionado sobre o LP solo de Tob, descartado do grupo por ter crescido e visto sua voz mudar de timbre.

A primeira empresária, Mônica Neves, tão querida na memória dos ex-integrantes da banda e responsável por ter proporcionado algum conforto e segurança para menores de idade que trabalhavam, também não mereceu lugar na memória do executivo que só enxergava cifras. Em suas palavras, ela não foi "relevante", o que vai na contramão dos relatos carinhosos de Mike e Miriam Lemos, a Palhacinha do grupo.

No caso do universo de Xuxa, as Paquitas, já adolescentes, mas ainda menores, também se enquadravam nos riscos de um showbizz sem filtro. Ao anunciar um concurso para novas integrantes de assistentes de palco da estrela das manhãs da Globo, a emissora e a apresentadora falavam, sem qualquer constrangimento, que era preciso ser "bonita", "fisicamente magra" e, de preferência, "loira".

Em depoimento atual, Xuxa reconhece que isso "era como um erro". Sim, era um erro, ainda que ninguém tivesse se dado conta disso à época. Na contramão, a questão da diversidade é citada no doc sobre o Balão Mágico em razão da inédita representatividade trazida por Jairzinho a um elenco infantil na TV, como corrobora Lázaro Ramos.

É referência que se chama. E a TV não fazia qualquer sinal de se tocar disso à época.

O doc do Balão já teve seus três episódios disponibilizados pela Star+, enquanto o Globoplay faz suspense com a produção sobre Xuxa, que só teve um capítulo apresentado na plataforma.

Pode ser que a produção sobre a loira, dirigida por Pedro Bial, ainda venha a nos surpreender, mas, pelo que temos no momento, é possível afirmar sem titubear que "A Superfantástica História do Balão Mágico" é bem superior à produção do Globoplay, não só porque a história do grupo é mais interessante do ponto de vista de conflitos e erros cometidos com crianças pequenas, mas porque ele se permite apresentar contradições entre os personagens ouvidos, ressentimentos, recordações e mágoas que o tempo não esqueceu.

Mas tem mais. Dirigida por Tatiana Issa, uma das documentaristas da série sobre o assassinato de Daniella Perez, da HBO, a produção do Balão esbanja competência de montagem, grafismo e trilha sonora, com alguns acordes que propositalmente nos despertam uma referência de "Stranger Things", série da Netflix que escancara os modos e neuroses dos anos 1980.
Tudo bem que seja notória a superioridade musical do Balão sobre o repertório de Xuxa, e isso também não há montagem que reverta a favor da série do Globoplay, mas a narrativa do doc do Balão conduz o espectador a uma maratona, apetite que o outro documentário não desperta.

Os docs do Balão e da Xuxa evidenciam que ser criança nos anos 1980 incluía comportamentos como:
_ Andar de carro conversível com crianças sem cinto de segurança ou apoiada só pelo estribo, do lado de fora do automóvel, como mostra o videoclipe gravado pela turma do Balão com Fábio Jr.
- Conferir como os pequenos viam passar na altura de seus olhos os maiôs e biquínis cavados das Chacretes.
- Ver a principal apresentadora infantil da TV anunciar brinquedos de determinada marca, com um logotipo gritante ao fundo, e testemunhar um estoque de produtos licenciados com a marca do X, na melhor tradução do "peça para a sua mãe comprar".
- Permitir que crianças e adolescentes trabalhassem até de madrugada para darem conta das gravações dos programas que protagonizavam.
- Nem pensar em auxílio psicológico para menores, mesmo quando um adulto perdia a paciência com os pequenos e atirava objetos ao chão.

E tinha muito mais na conta de um mundo sem filtro, uma gincana cruel e hoje impensável para quem trabalha com audiovisual que envolve menores ou se dirige a crianças.