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Quem é o suspeito de matar Madeleine e por que ele ainda não foi condenado?

Madeleine McCann tinha 3 anos quando desapareceu, em 2007 - BBC
Madeleine McCann tinha 3 anos quando desapareceu, em 2007 Imagem: BBC

Renata Nogueira

De Splash, em São Paulo

20/05/2022 04h00

O desaparecimento da britânica Madeleine McCann, em Portugal, completou 15 anos em 3 de maio. Sem provas, a investigação ainda se arrasta. O caso só avançou em junho de 2020, quando a promotoria de Brunswick, na Alemanha, apontou Christian Brueckner, na época com 43 anos, como o principal suspeito, sugerindo que a menina estaria morta. A falta de informações oficiais sobre o que ligaria Brueckner à garota deu estofo para documentaristas irem atrás do passado do criminoso.

O caso Madeleine McCann foi tema de livros, séries e documentários, o mais famoso deles produzido pela Netflix. As produções destacam a ausência de provas — não há corpo nem vestígios. Sem elas, fica difícil incriminar o alemão, que está preso por outros crimes, inclusive o estupro de uma americana em Praia da Luz, mesmo balneário onde a menina sumiu, onde ele viveu entre 1995 e 2007.

Em abril deste ano, a polícia portuguesa pediu o indiciamento do alemão, para que o crime não prescrevesse. Mas ainda faltam respostas sobre o que Christian Brueckner teria feito com a criança e se ele realmente é o culpado.

Quem é Brueckner? Como ficou fora do radar da polícia por tantos anos? O que o liga a Madeleine?

christian - Reprodução - Reprodução
Christian Brueckner, suspeito de envolvimento no desaparecimento de Madeleine McCann
Imagem: Reprodução

"Caso Madeleine McCann: O Principal Suspeito" é a primeira série documental focada em seguir os passos do alemão. Disponível no Discovery+ desde o final do ano passado, e dividida em três capítulos, a produção viaja pela Europa atrás de pessoas que conviveram com o suspeito e entrevista outras que estão ou já estiveram envolvidas na investigação.

Uma delas é o investigador português Gonçalo Amaral, que liderou o caso em 2007 e acabou afastado após apontar os pais da garota como suspeitos. Ele — que chegou a se desentender com as autoridades britânicas — agora desconfia da polícia alemã:

Eles falam muito, mas não mostram nenhum resultado. A questão é: o que eles estão fazendo já que não conseguem apresentar nada? Gonçalo Amaral, investigador português afastado do caso

Ainda que desacreditado pelas autoridades do próprio país e substituído, Amaral questiona os alemães, que desde 2020 estão em posse de uma van que pertenceu a Brueckner e poderia ser a peça que faltava para solucionar o quebra-cabeça. Os supostos avanços do caso não chegam a conhecimento público:

"Eu não posso revelar muito. O que posso dizer é que não temos provas forenses da morte de Madeleine McCann. Por outro lado, nós temos provas diferentes. Podem ser testemunhas, fotos. Mas no momento eu não posso dizer que tipo de provas temos, pois, do nosso ponto de vista, esse não é o momento certo para isso", diz Hans Christian Wolters, promotor à frente do caso na Alemanha.

Vida nômade

Um traço bastante característico da vida que o alemão levava em Portugal era sua proximidade com a comunidade que viaja o mundo em trailers e vans. Em abril de 2006, ao ser pego pela polícia portuguesa por roubo de diesel, ele declarou que vivia em um desses veículos e não tinha residência fixa, evitando que as autoridades vistoriassem sua casa alugada, onde havia uma câmera com vídeos de estupro, além de objetos furtados de turistas que frequentavam a Praia da Luz.

Quem conta a história é Manfred Seyferth, um aposentado que hoje vive em um trailer em Ancona, na Itália, e o conheceu em Portugal. "Ele costumava invadir os apartamentos de hotéis, escalava as fachadas. Na casa dele tinham diversos tipos de aparelhos eletrônicos, câmeras de foto, câmeras de vídeo, qualquer coisa que pudesse render algum dinheiro estava espalhada pela casa", relembra.

Brueckner ficou oito meses preso, até dezembro de 2006. Um tempo incomum para um crime menor, mas que foi esticado justamente porque ele não quis dar um endereço formal e insistia que morava em um furgão.

casa - RAFAEL MARCHANTE - RAFAEL MARCHANTE
Repórter fotografa casa onde viveu suspeito de sequestrar Madeleine McCann em 2007, perto de Lagos, em Portugal
Imagem: RAFAEL MARCHANTE

"Um colega e eu fomos à noite até a casa, já que Christian estava na prisão. Queríamos diesel. Estava tudo aberto, destruído e revirado. Não havia tanta coisa, peguei uma pistola e encontrei uns 20 litros de diesel. Estava tudo vazio, não havia mais nada. Então meu amigo pegou uma câmera e a ligou."

Nela estavam as imagens que se tornariam prova do estupro de uma americana, crime pelo qual Brueckner foi condenado e está preso em seu país natal. Mas isso era pouco perto de outras coisas que o alemão escondia.

"Poderia esconder uma criança pequena"

O relato do alemão Dieter F. traz pistas interessantes sobre os passos que o suspeito pode ter dado na primavera de 2007. Dieter lembra de ter ido visitar a filha em Portugal, entre março e abril daquele ano, e que Brueckner estava estacionado no quintal da casa dela com um enorme trailer.

Dieter entrou no veículo, curioso para ver como era por dentro. "Tinha um grande sofá, um assento giratório, pista de dança, um espaço enorme atrás. Não é o Volks branco e amarelo [que está em posse das autoridades alemãs], era um trailer muito maior. Ele me disse que queria contrabandear 50 kg de maconha. Podia esconder tão bem que ninguém encontraria", contou a testemunha.

O plano parece ter dado certo, já que no outono de 2007 ele viveu em seu trailer no sul da Alemanha, onde vendeu grande quantidade de maconha, segundo a polícia. Prova de que ele escondeu tão bem a carga que conseguiu dirigir de Portugal a seu país natal com ela.

Outra frase de Brueckner marcou a memória de Dieter: o suspeito lhe disse que o veículo era "tão grande que você poderia esconder uma criança pequena".

Brueckner vivia em Portugal havia 12 anos. Mas logo após o desaparecimento de Madeleine McCann deixou a Praia da Luz e voltou para a Alemanha. A casa que ele alugava em segredo ficava a cerca de 10 km do resort Ocean Club, onde a menina sumiu.

O que se sabe também é que no dia 3 de maio de 2007 alguém ligou para ele de um número pré-pago apenas uma hora antes do desaparecimento. O telefonema é a única prova divulgada pela polícia que coloca Brueckner perto da cena do crime.

Porão concretado

Seguindo os endereços de Brueckner nos anos seguintes ao desaparecimento da criança, os jornalistas investigativos chegaram a uma propriedade que ele alugou na Alemanha entre 2013 e 2016.

"O inquilino anterior tinha começado a construir um porão. Quando entregamos a propriedade a ele dissemos que esse porão precisava ser concretado porque porões não eram permitidos. Ele trouxe alguns materiais e tinha um trailer que dirigia o tempo todo", contou o proprietário Jurgen Krumstron. A polícia alemã nunca revistou o local.

Após deixar Portugal, logo depois do desaparecimento da garota britânica, em maio de 2007, Brueckner foi para o norte da Alemanha. Em 2009, ele comprou um terreno com algumas ruínas, onde ficava uma fábrica abandonada.

Foi lá que sete anos depois a polícia encontrou, enterrados próximo a ossada de um cachorro que foi dele, seis pendrives e dois cartões de memória com mais de 8 mil fotos e vídeos impróprios, entre eles arquivos de pedofilia e zoofilia. O material foi encontrado enquanto a polícia vasculhava a região em busca de outra garota desaparecida, que até hoje também não foi encontrada.

Brueckner estava na mira da polícia alemã desde 2014, quando foi encontrada uma câmera com cerca de 400 fotos e vídeos de pedofilia em um apartamento alugado por ele. Em 2015, ele foi condenado por posse e produção de pornografia infantil e abuso sexual, mas conseguiu escapar.

Ele viajava muito. Esse é um ponto importante. Fica muito difícil para as autoridades encontrar alguém que viaja tanto, especialmente se a pessoa mudar de país. Alexander Stevens, advogado criminalista

Antes disso, uma investigação também já havia apontado uma conversa de Brueckner no Skype com outro pedófilo, em que ele revelava o desejo de sequestrar uma criança para produzir material pornográfico. Questionado sobre a periculosidade disso, ele responde que é fácil fazer quando se pode destruir as provas.

Para os especialistas entrevistados, a certeza que o alemão tem de que é possível se livrar de provas nessa conversa pode ser um indício que ele realmente teve algum envolvimento com o desaparecimento de Madeleine McCann.

Infância e primeiros crimes

Nascido em 1976 em Wurzburg, na Alemanha, Brueckner foi abandonado pela mãe quando bebê. Após passar um ano em um orfanato, ele foi adotado, mas aos 13 anos voltou para a custódia do estado depois que seu pai adotivo sofreu um acidente de carro que o impossibilitava de cuidar da família. Quem conta a história é uma ex-namorada que prefere não se identificar.

Ao puxar a ficha criminal de Brueckner, fica fácil entender sua mudança da Alemanha para Portugal aos 19 anos. Ele foi fichado pela primeira vez aos 15 por dirigir sem habilitação. Antes de completar 18 já tinha mais três condenações, incluindo abuso sexual de uma criança de 6 anos.

Se você é um criminoso, há certos países onde é muito fácil passar despercebido. A Alemanha não é um deles. A Inglaterra também não. Acho que Portugal infelizmente é um deles. Alexander Stevens, advogado criminalista