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'Admirável Gado Novo' virou questão do Enem; entenda letra de Zé Ramalho

Música lançada em 1979 por Zé Ramalho fala de uma ordem que priva a "massa" de liberdade  - Reprodução/Facebook
Música lançada em 1979 por Zé Ramalho fala de uma ordem que priva a "massa" de liberdade Imagem: Reprodução/Facebook

Do UOL, em São Paulo

21/11/2021 22h02Atualizada em 21/11/2021 22h02

A música "Admirável Gado Novo", sucesso na voz do cantor Zé Ramalho, virou assunto nas redes sociais depois de ser integrada a uma das questões do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), aplicado neste final de semana pelo Brasil.

Apesar de o caderno de provas ainda não ter sido divulgado, nas redes sociais pessoas como a vereadora de Belo Horizonte Duda Salbert (PDT) comentaram que a pergunta relacionava a condição social brasileira nos dias de hoje com um trecho da canção.

A música, lançada em 1979 e composta pelo próprio intérprete, faz um trocadilho com o livro Admirável Mundo Novo, do autor Aldous Huxley, lançado em 1932 e que fala sobre um futuro distópico, em que um governo autoritário se encarrega de manter a população "feliz" durante todo o tempo, por meio de uma droga, evitando qualquer tipo de conflito.

Já no Brasil de Zé Ramalho, o país ainda vivia a Ditadura Militar e era governado por João Baptista Figueiredo, que tinha acabado de assumir o cargo de presidente. Enquanto isso, movimentos de protesto continuavam funcionando já em um momento pós AI-5, ato institucional revogado em 1978 que cerceava ainda mais a liberdade de expressão de opositores, inclusive no meio artístico.

Em "Admirável Gado Novo", Zé Ramalho envia um recado para essa "massa", os cidadãos brasileiros, que sempre "caminham muito" para receber menos do que dão aos detentores de poder. Algumas análises inclusive veem afinidade entre as ideias do artista e as de Karl Marx, que falava sobre mais valia: a disparidade entre os ganhos do trabalhador e o valor produzido pelo seu trabalho.

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber

Mas, apesar dessa relação desgastante de trabalho, a "massa" se sente presa a esse ciclo, que mostra sinais claros de desgaste, a "ferrugem" que come essa "engrenagem". Mais uma vez, a composição parece fazer uma crítica a dinâmica contemporânea de exploração das parcelas da sociedade que não detém o poder econômico e político.

À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer

Em seguida, a canção chega ao seu icônico refrão, que compara a vida do povo a do gado. Nas fazendas, existe o costume de marcar os animais para identificá-los como pertencentes àquela propriedade. A forma mais usual é pressionar uma ferramenta com ponta de ferro quente contra seus corpos, deixando uma marca "personalizada" do dono.

Ao seguir a dinâmica imposta por terceiros, a população também faria parte de uma espécie de rebanho, manipulados para ignorar o mal na situação, como em "Admirável Mundo Novo".

Ô, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!
Ê, ô, ô, vida de gado
Povo marcado, ê!
Povo feliz!

Mas, apesar de haver um conforto nessa rotina, vigiada por quem comanda o sistema que domina a massa, a letra deixa claro que existe um desconforto dentro dessa "cela" imposta pelos detentores do poder. Nessas estrofes, Zé também fala sobre a saudade de um passado e sobre a fuga da ignorância. Mostrando, mais uma vez, que existe uma luta da população para não se entregar à ignorância proposta pelos poderosos.

A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal

E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou!

O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela

Nas próximas estrofes, o compositor recupera uma referência bíblica: a arca de Noé. Na história, Deus envia um grande dilúvio que destrói o mundo, com a intenção de recomeçá-lo. Ele poupa apenas aqueles que estavam na arca, o que incluía Noé, sua mulher, seus filhos e suas companheiras e um casal de cada um dos animais que então existiam.

O povo, personagem de "Admirável Gado Novo" também seria adepto dessa iniciativa, esperando uma nova ordem do sistema, ,mais livre, já que nessa "não voam, nem se pode flutuar".

Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A arca de Noé, o dirigível
Não voam, nem se pode flutuar

Não voam, nem se pode flutuar
Não voam, nem se pode flutuar