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Após passado de crimes, influenciadora diz ganhar R$ 50 mil por mês online

A ex-detenta Karollyny Campos, em dois momentos: em frente à sua cela, na prisão, e no quintal da casa construída com o dinheiro que ganha como empreendedora - Arquivo Pessoal
A ex-detenta Karollyny Campos, em dois momentos: em frente à sua cela, na prisão, e no quintal da casa construída com o dinheiro que ganha como empreendedora Imagem: Arquivo Pessoal

Maurício Businari

Colaboração para Splash, em Santos

28/10/2021 09h29Atualizada em 29/10/2021 10h10

Karollyny Campos Ferreira já foi conhecida como a mulher do "casal da moto preta", dupla que praticava assaltos à mão armada em Araguaína, no Tocantins — o que a levou à prisão por dois dos seus 26 anos. Hoje, garante que o dinheiro dessa fase da vida não chega perto do caminho que agora percorre como empreendedora e mentora na internet e diz ter chegado a faturar R$ 300 mil em apenas quatro meses.

A jovem tem presença massiva nas redes sociais. Somente no TikTok, 650 mil seguidores acompanham seus vídeos, em que ela revela detalhes de sua história e já somam 6,4 milhões de curtidas. No Instagram, comercializa peças produzidas artesanalmente em resina e é seguida por quase 70 mil usuários, além de oferecer cursos para quem quer começar na área.

Chaveiros, cinzeiros, porta-copos e outros pequenos objetos fabricados em resina se transformam em peças coloridas e cheias de brilho, predominantemente femininas, que enchem os olhos das seguidoras — e potenciais clientes.

A mudança não veio apenas da origem dos "recursos". Antes, via sumir o que convertia em celulares, relógios e correntinhas roubados em drogas, álcool e várias noitadas. O dinheiro "honesto", como chama, agora viabiliza a ostentação que exibe aos seguidores nas redes, incluindo carro, smartphones e duas cirurgias plásticas com as quais sonhava — uma redução de abdômen e um implante de silicone nos seios, do qual ainda se recupera.

O carro foi comprado por Karol à vista, com recursos próprios, obtidos com a venda de objetos em resina e cursos online - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
O carro foi comprado por Karol à vista, com recursos próprios, obtidos com a venda de objetos em resina e cursos online
Imagem: Arquivo Pessoal

Karol hoje vive com o marido e duas filhas. Ao pai, que enfrentava uma jornada de horas a pé e de ônibus a cada visita nas penitenciárias em que ficou, deu de presente uma moto. Já ao amigo, que emprestou dinheiro para investimento nas redes e no estúdio de resina, recompensou com um carro.

Sempre lembramos das pessoas que soltam a nossa mão, mas devemos ser mais gratos ainda a quem esteve ali conosco, acreditando que somos capazes.

Quem a segue não recebe apenas as conquistas atuais e as imagens de sua piscina ou da decoração da casa da família, mas depoimentos que não escondem o passado, descrevendo, nas palavras dela, "o quanto já foi bandida".

Nós nos tornamos reféns das consequências das nossas escolhas, da nossa liberdade de escolha. [...] E foi isso que aconteceu comigo. Eu escolhi o caminho do crime, das drogas e bebidas, que me trouxeram consequências, as quais precisei pagar da pior forma possível.

Em entrevista a Splash, ela conta detalhes do passado, garante que, com os produtos e cursos vendidos, mantém ganhos de R$ 50 mil por mês e que o tempo na prisão "valeu a pena". Confira:

"Musa do crime" vira "Rainha da resina"

Em seus vídeos, você alega que sempre foi uma jovem rebelde. Sabe de 'onde' veio essa rebeldia?
Me tornei uma pessoa rebelde desde os 16 anos por escolha minha, não podemos culpar ninguém pelos nossos erros, não somos o espelho dos nossos pais. Quando crescemos, seguimos o caminho que desejamos, somos livres para escolher. Mas nos tornamos reféns das consequências.

Qual foi a maior lição que aprendeu nos dois anos em que esteve presa?
Ficar presa por dois anos foi desafiador, mas foi necessário. Eu precisava de todo esse tempo, a cadeia nos revela quem são as pessoas. Quando nossos pais dizem: 'você não tem amigo, os seus amigos somos nós'; na cadeia, você descobre que isso realmente é verdade, as pessoas nos esquecem, acham que nunca mais vamos voltar. E isso dói, porque a solidão, a falta das pessoas de quem você gosta dói. Mas, além de tudo, ensina. E quando eu saí, eu decidi que não queria mais viver da mesma forma, me afastei de tudo e todos e hoje vejo que tudo valeu a pena.

Como foi essa mudança e o processo de recomeço? Muitas portas fechadas?
Eu decidi mudar porque tudo que custa a nossa paz não vale a pena. De que adianta ter tudo, conseguir dinheiro fácil e viver uma tribulação, uma tensão a todo momento, não conseguir dormir direito? Viver no crime cansa! O processo de recomeçar é o pior de todos, mas você precisa aceitar calada.

Veja só, todo começo já é difícil para qualquer pessoa, mas quando você tem um passado sujo e deseja recomeçar, ser alguém melhor, é mais difícil um milhão de vezes! Porque as pessoas já não confiam mais em você, você precisa ter consistência e força para fazer tudo da melhor forma possível, para tentar mostrar a todos que você não é mais aquela pessoa, que você deseja mudar, que você precisa de uma chance, de uma oportunidade.

E essa oportunidade apareceu?
Eu sabia que não encontraria emprego. Então, vi na internet uma possibilidade de trabalhar para mim mesma. E a minha maior estratégia foi começar com a verdade, mostrar quem eu fui, mostrar tudo que eu fiz e a pessoa que eu queria ser daquele dia em diante. No começo, pensei que seria impossível chegar tão longe mas dei a cara a tapa, mesmo ciente de poderia ser atacada por dizer que era uma criminosa. Mas foi totalmente diferente, as pessoas me apoiaram e começaram a me acompanhar. Eu comecei ali nas redes, mostrando tudo, mostrando meu dia a dia, tentando, de todas as formas, passar confiança para as pessoas, mostrar que eu não sou uma pessoa ruim, e que eu queria de verdade uma chance. A partir daí, fiz diversos cursos de marketing que abriram minha mente. Me ensinaram como seguir de forma correta, como gerar autoridade na internet, e isso me ajudou muito no processo.

E como foi empreender na internet?
No começo eu trabalhei como afiliada de plataformas como hotmart, monetizze, nas quais você divulga cursos on-line e cada pessoa que compra com seu link, você recebe sua comissão. É um trabalho muito cansativo mas não dava para pular, era aquilo que eu tinha que fazer naquele momento. Logo depois abri uma lojinha de roupas on-line e fui aplicando todas as estratégias de vendas que aprendi. Eu vendia muito, mas ainda era insuficiente para me manter.

E quando isso mudou? Como foi o processo até o sucesso que diz ter?
Certo dia, eu estava assistindo alguns vídeos no TikTok, das "gringas" fazendo peças de resina lindíssimas e aqueles vídeos são muito satisfatórios, não dá para passar batido. Senti curiosidade de conhecer aquele processo de produção. Com um dinheiro emprestado, comprei os materiais para começar. Eu estava meio insegura, meus amigos diziam que as peças em resina eram coisa do momento, uma febre que ia passar. Mas eu insisti. No primeiro mês, eu faturei mais de R$ 6 mil reais e aquilo, pra mim, foi tudo!

Quanto você consegue lucrar por mês hoje?
Parece mentira, mas já cheguei a fazer R$ 10 mil em um dia, R$ 300 mil em quatro meses. Hoje eu tenho me dedicado mais ao curso, e só consigo abrir o meu site de vendas de peças dois dias no mês, pois eu sou responsável por produzir tudo sozinha e fazer o envio. Só nesses dois dias, recebo mais de R$ 5 mil em pedidos. Já no curso, hoje, tenho mais de 2 mil e 200 alunas, muitas delas conseguem se manter somente da resina. Se somar as vendas das peças em resina e do curso, consigo tirar uns R$ 50 mil por mês.

Você diz que não gosta de comentar sobre sua vida privada, mas como ela está hoje?
Sou casada, tenho duas filhas e isso me dá forças, a nossa família é a nossa base.

Os assaltos do "casal da moto preta" se tornaram lendários em Araguaína, a segunda cidade mais populosa do Tocantins, com 186.245 habitantes. Segundo a PM informou à época de sua prisão, Karol costumava circular de moto com um parceiro pelas ruas da cidade, em busca de vítimas.

Lenda em Tocantins

Karol e o parceiro de crimes eram conhecidos em Araguaína (TO) como "o casal da moto preta" - Reprodução/Redes Sociais - Reprodução/Redes Sociais
Karol e o comparsa de crimes eram conhecidos em Araguaína como "o casal da moto preta"
Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Ao avistarem alguém caminhando na calçada, paravam a moto e abordavam a pessoa, como se estivessem buscando informações. No momento em que a pessoa se aproximava, um deles sacava a arma da cintura e anunciava o assalto. Ela, que é morena, geralmente usava uma peruca loira para compor o disfarce. Em fevereiro de 2016, os dois foram presos. Com eles, foi encontrado um revólver calibre 32, com cinco munições intactas, celulares, bolsas e documentos das vítimas.

Pouco tempo após a detenção, ela chegou a ser beneficiada com a prisão domiciliar pelo projeto de Justiça Restaurativa, iniciativa de pacificação social implantada pelo Judiciário, em parceria com o Ministério Público do Tocantins. Concordou em aliviar a pena em troca de ações em favor das vítimas.

Ela deveria escrever cartas de perdão, confeccionar sandálias e ministrar aulas de taekwondo, arte marcial em que é faixa preta, a crianças e adolescentes apreendidos. Seis meses depois, teve a prisão domiciliar revogada para preventiva, por não cumprir nenhum dos acordos. E o que é pior, voltou a cometer os delitos.

Presa, ao longo de dois anos, foi transferida seis vezes para outros presídios do estado por mau comportamento. Nos últimos sete meses da pena, cumpriu regime domiciliar, com tornozeleira eletrônica, que ela customizou com fitas de strass — habilidade que aprendeu durante o período de reclusão, em que detentas faziam apliques em calçados e outros objetos, como forma de trocar trabalho por redução de pena. Foi nesse contexto que começou a dar os primeiros passos na moda e a ensinar as colegas.

Procurado por Splash, o Tribunal de Justiça do Estado do Tocantins, por meio da comarca de Araguaína, informou que não há mais processos criminais tramitando na Justiça contra Karol.