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Eu (acho que) vi Dona Hermínia nascer

Filipe Quintans*

Colaboração para Splash, no Rio

04/05/2021 22h59

Suspeito que vi Dona Hermínia, a grande personagem do ator Paulo Gustavo, que morreu hoje aos 42 anos, nascer. A névoa da memória não me permite precisar, mas as chances são boas de que o relato a seguir seja de algo que se deu em 2004.

Diante do noticiário dos últimos dois meses sobre o estado de saúde do ator e humorista e sua eventual morte, um punhado de detalhes sobre aquele dia, uns relevantes, outros nem tanto, me vieram aos poucos. Desde a sua internação, aquele dia em (acho, como disse) 2004 voltou aos poucos, meio que aos cacos.

O que posso garantir é que eu estava lá e, suspeito, vi Dona Hermínia vir ao mundo. Por isso tudo, escrevo.

Era verão, uma namorada me levou para, segundo ela, "prestigiar uns amigos atores apresentando uns esquetes em um teatro minúsculo, você vai curtir". O teatro era, sim, minúsculo, menos de 60 lugares, uma das duas salas administradas por uma universidade particular, em Ipanema, Rio de Janeiro.

O ingresso era popular (leia-se "barato"). Mal não faria. Jogava a favor da empreitada o fato de um dos amigos apresentar um esquete em que fazia uma sátira da apresentadora Marília Gabriela que eu sabia ser muito engraçada.

O que eu guardei como sendo, não custa repetir, "uns amigos atores apresentando uns esquetes num teatro minúsculo", era, para minha surpresa, um laboratório de personagens que viriam a compor um bem sucedido espetáculo de comédia, algo como a primeira encarnação de uma revista com jovens cômicos, a maioria hoje de relativa notoriedade, que ficou em cartaz por alguns anos.

Além do já citado amigo e sua paródia de Marília Gabriela —que estava na plateia aquele dia—, se apresentou gente como Samantha Schmütz, hoje protagonista do humorístico "Vai Que Cola", testando uma esquete sobre uma barata que andava de skate, fumava e reclamava da forma como era tratada na casa onde morava. É bem provável que lá também tenha se apresentado Katiuscia Canoro, testando a Lady Kate, personagem que depois foi parar no falecido "Zorra Total".

Entre números, suspeito ter ouvido alguém dizendo (talvez minha namorada? Um amigo?) que a apresentação seguinte seria encenada pela primeira vez. O que veio a seguir me pegou de surpresa e me deixou certo de que ali estava um tremendo talento. Se tratava de Paulo Gustavo encarnando Dona Hermínia. Ou um protótipo dela.

Dava para entender que aquele cara, sentado no centro da sala, metido num vestido cafona, óculos escuros idem, bobes e lenço na cabeça, interpretando uma mãe superprotetora, histriônica e hilária que ranhetava ao telefone sobre os filhos, os vizinhos, a parentada e o que mais viesse, era, sim, um tremendo ator.

Tudo ali era perfeito: a leitura do tipo, a precisão nos movimentos, o uso das expressões, a voz esganiçada, quase "rachada", os berros. Eu sabia quem era aquela personagem, eu a conhecia: a mãe que Dona Hermínia simbolizava era uma mulher muito comum, sobretudo no subúrbio da cidade. Ela poderia ser a mãe de um amigo, ou uma tia, ou até mesmo minha avó ou... minha mãe.

A Dona Hermínia, aquela —primeiro no teatro, depois da TV e de três filmes superbem sucedidos— que catapultou Paulo Gustavo ao merecido estrelato, suspeito, nasceu ali. E me orgulho, um orgulho besta, sei lá, de testemunhá-lo.

Boa viagem, Paulo.

*Filipe Quintans, 41, é jornalista, não tem boa memória, mas sabe reconhecer talento.