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Afro-X retoma 509-E, lança single e relembra rebelião no Carandiru

O rapper Afro-X
O rapper Afro-X
Divulgação

Guilherme Lucio da Rocha

De Splash, em São Paulo

20/03/2021 04h00

Em fevereiro de 2001, mais de 20 presídios de São Paulo enfrentavam uma onda de rebeliões promovidas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que protestava contra a transferência de líderes da organização. Cinco presos morreram durante as ações.

Um dos participantes do motim era Cristian de Souza Augusto, o Afro-X, integrante do grupo de rap 509-E, que na época cumpria pena por assalto à mão armada no presídio do Carandiru.

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Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

Vinte anos depois, e sem seu parceiro à época, Dexter, o rapper agora se junta com o irmão, o cantor Bad, para lançar "A Liberdade Cantou", novo single do 509-E.

Em entrevista para Splash, Afro-X falou do momento atual, após mais de uma década sem novidades, e também sobre a mensagem da música.

Sentia que a palavra do 509-E seguia atual, infelizmente. Esse som ainda é um grito contra os problemas do sistema carcerário brasileiro, o racismo e a desigualdade.
Afro-X

Em 2001, ano da megarebelião, o rapper namorava a cantora Simony (ex-Balão Mágico) e o relacionamento era super comentado - nos dias de hoje, certamente o casal estaria nos trending topics do Twitter. Os dois chegaram a se casar e tiveram dois filhos, Ryan e Aysha.

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No dia da rebelião, Simony estava no Carandiru. Afro-X conta que todos os visitantes tinham conhecimento prévio do que ia rolar e a cantora serviu como um canal de diálogo para negociação com as forças de segurança.

Toda rebelião é tensa, mas aquela, por envolver vários presídios, foi bem complicada.

Não tem como fazer uma rebelião sem avisar os familiares. Ela também sabia dos riscos, mas quis ajudar no diálogo, até pelo seu nome.
Afro-X

O início na prisão e a volta aos palcos

509-E era a cela dividida por Dexter e Afro-X no Carandiru. Os dois eram amigos do morro Calux, em São Bernardo do Campo, e participaram de grupos de rap no início dos anos 1990, antes de se encontrarem na prisão.

O duo nasceu em 1999 dentro do Carandiru, quando ambos cumpriam pena pelo crime de assalto a mão armado. Sob regime fechado, eles conseguiram autorização da Justiça para gravar os álbuns "Provérbios 13" e "MMII DC", além de realizarem shows.

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Nós éramos tidos como referência na prisão. Levantamos a bandeira de um sistema carcerário justo, da ressocialização. Nós éramos o exemplo disso.
Afro-X

Após deixar a prisão, a dupla acabou. Estavam livres, mas em 2005 cada um decidiu seguir em caminho solo.

Foram mais de 10 anos afastados. Em 2019, retomaram o contato e realizaram a turnê "Vivos", que rodou o Brasil relembrando os sucessos da antiga.

Foi uma coisa mágica. A gente conseguiu achar algo bom para os dois e fomos relembrar os bons tempos. Não tivemos a chance de viver esse auge, essa turnê deu um gostinho.
Afro-X

Porém, a sintonia já não era a mesma e o duo se afastou de vez. Afro-X diz que não vê mais abertura para futuras parcerias com Dexter e que a decisão de não seguirem uma trilha em parceria partiu do Oitavo Anjo.

Na época da turnê, já foi rolando um afastamento. Ele sabia desse projeto novo, mas não tem como entrarmos num estúdio, temos nossos problemas. Hoje, não tenho conversa com ele.
Afro-X
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A treta na TV Globo

Um episódio que marcou a trajetória do 509-E foi a entrevista para o programa "Altas Horas", do apresentador Serginho Groisman, em 2000.

Ainda sob regime fechado, eles receberam autorização para participar de um debate com o coronel da PM Conte Lopes, hoje deputado estadual.

Mas o debate não durou muito. Conte Lopes subiu o tom, Dexter e Afro-X não deixaram por menos. Serginho tentou intervir, mas a treta já estava instalada.

Afro-X disse que o assunto "não morreu ali".

A gente foi lá para debater, estávamos felizes. Saímos da cadeia aplaudidos. Chegando lá, foi uma patifaria do Conte. A prova de que o sistema não sabe o que é diálogo.
Afro-X
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Acabou ali [o programa], foi cada um para o seu lado. Mas, depois daquele episódio, não conseguimos mais sair para fazer show. Aquele debate acabou com o 509-E.
Afro-X