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70 anos de TV

A história da televisão no Brasil


Como as novelas retratam o povo brasileiro?

Candinho (Sergio Guizé), em "Êta Mundo Bom"
Candinho (Sergio Guizé), em "Êta Mundo Bom"
Divulgação

Helaine Martins

Colaboração para Splash, em São Paulo

25/09/2020 04h00

Além de entreter, as novelas fazem um retrato do Brasil e do povo. É por isso que, nos últimos meses, milhões de brasileiros se emocionaram com Griselda (Lília Cabral), de "Fina Estampa", mulher forte que luta para criar os filhos; e riram com trejeitos exagerados do mordomo Crô (Marcelo Serrado).

Muita gente também vem suspirando com Eliza, a mocinha pobre e interiorana de Marina Ruy Barbosa em "Totalmente Demais", que se transforma em modelo de sucesso no Rio de Janeiro.

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Marina Ruy Barbosa é Eliza em "Totalmente Demais" - Divulgação - Divulgação
Marina Ruy Barbosa é Eliza em "Totalmente Demais"
Imagem: Divulgação

Há uma identificação com as histórias, com os comportamentos, com os sonhos.

Segundo a professora Maria Immacolata, coordenadora do Obitel (Observatório Ibero-Americano de Ficção Televisiva) e do Centro de Estudos de Telenovela da ECA/USP, em sete décadas de TV no Brasil, não há como negar: brasileiros amam novelas. E elas já se incorporaram à cultura e à identidade do país.

A telenovela no Brasil se tornou um dos elementos mais distintivos e aquele que, possivelmente, melhor caracteriza hoje uma narrativa da nação.

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Da fantasia ao realismo

É assim desde 1968, quando estreou "Beto Rockfeller" na TV Tupi, um marco na teledramaturgia brasileira. Ao contrário das produções anteriores, que se inspiravam em dramalhões mexicanos e tramas fantasiosas, "Beto Rockfeller" falava do Brasil.

Luis Gustavo e Débora Duarte em "Beto Rockfeller" - Reprodução - Reprodução
Luis Gustavo e Débora Duarte em "Beto Rockfeller"
Imagem: Reprodução

A história de Alberto (Luis Gustavo) era humana e real: um jovem pobre que trabalhava em uma loja de sapatos em São Paulo, mas que desejava ascender socialmente para ter uma vida diferente da dos seus pais. A identificação do público com o personagem foi imediata, e a novela, um sucesso.

Immacolata conta que ali teve início uma das principais características das telenovelas brasileiras: possuir uma trama central e vários núcleos com histórias que se entrelaçam.

Para o público dar conta dessa complexidade, os autores precisavam facilitar a leitura, construindo personagens a partir de tipos facilmente identificáveis: o vilão, o herói, a mocinha, o pobre, o rico.

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Nessa busca por uma rápida identificação, o estereótipo, a padronização passou a ser chave desse processo.

Se a audiência não entender logo quem é aquele personagem, ela desiste. É um produto comercial, não dá para perder tempo explicando o caráter do personagem, ou sua função na história

Marcia Perencin Tondato, professora da ESPM e pesquisadora do grupo Comunicação e Consumo e Identidade Socioculturais.

Velhos clichês

Alguns tipos costumam ser bem brasileiros, mas recheados de clichês e reforço de preconceitos. É a baiana de fala preguiçosa em "Gabriela, Cravo e Canela", o mineiro cômico e rural em "Êta Mundo Bom", as supermães batalhadoras que dão conta da família sozinha de "Amor de Mãe".

Lurdes (Regina Casé) em "Amor de Mãe" - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Lurdes (Regina Casé) em "Amor de Mãe"
Imagem: Reprodução / Internet
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Tem também a mulher negra que ora é a empregada doméstica ora faz papéis hipersexualizados, como em "Avenida Brasil", o gay sempre engraçado e de trejeitos exagerados como em "Insensato Coração", o homem negro criminoso em "I Love Paraisópolis".

O ator Babu Santana sabe bem como é representar esses estereótipos. Enquanto estava confinado na casa do "Big Brother Brasil 20", um post que mostrava a lista de papéis que o ator interpretou ao longo de sua carreira, disponível na Wikipedia, viralizou no Twitter.

Babu usou imagem do BBB para fazer reflexão no Instagram - Reprodução/Instagram @babusantana - Reprodução/Instagram @babusantana
O ator Babu Santana
Imagem: Reprodução/Instagram @babusantana

Assaltante, bêbado, traficante de armas. Poucos têm nomes, mas quase todos são homens negros criminosos. Em "Viver a Vida", seu personagem era o Coisa Ruim. No cinema, viveu Tim Maia, mas na TV seu papel menos estigmatizado veio em uma produção protagonizada por negros: a série "Mr. Brau".

Isso se deve à nossa sociedade, que vê um bandido ou um policial como um cara alto, truculento, com cara de mau e negro. Há uma associação entre a violência e a imagem dos negros e de pessoas dos guetos. Mas não importa o papel que me derem, vão ver sempre o melhor que eu posso fazer.

Babu Santana

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A repetição de padrões também acontece quando se fala de gênero e classe. É o que diz Veneza Ronsini, professora da Universidade Federal de Santa Maria, autora do livro "A Crença no Mérito e a Desigualdade: a Recepção da Telenovela do Horário Nobre".

A partir dos anos 1990, as novelas mostram mais núcleos de oposição: o estilo popular é representado como espontâneo em contraposição ao competitivo mundo das classes altas. O rude em contraposição ao elaborado, o emocional em contraposição ao civilizado, o corporal em contraposição ao intelectual.

Jáder (Chico Diaz) e Bebel (Camila Pitanga) em "Paraíso Tropical" - Divulgação - Divulgação
Jáder (Chico Diaz) e Bebel (Camila Pitanga) em "Paraíso Tropical"
Imagem: Divulgação

"Os temas da pobreza, da desigualdade e da meritocracia ganham mais ênfase nas narrativas de novelas como 'Páginas da Vida', 'Paraíso Tropical', 'Duas Caras', 'A Favorita' e 'Caminho das Índias', mas elas não são questionadas. Há, na verdade, uma romantização da pobreza", explica Ronsini.

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Isso provoca um sentimento ambíguo na telespectadora, em sua maioria das classes C e D. Ela quer se ver na história, mas se encanta com as peruas, que ascenderam pelo trabalho, ou com aquela mulher 'de berço'. Ela quer a realidade, mas também quer ver uma história que seja melhor do que sua vida.