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Pedro Antunes

Rebeldes e desbocados. Kitsch e mais do mesmo. Como não amar o Måneskin?

Måneskin vai salvar o rock? - Montagem: Pedro Antunes
Måneskin vai salvar o rock? Imagem: Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

03/08/2021 16h37

Sem tempo?

  • Conhece a banda Måneskin?
  • Talvez não pelo nome, mas você certamente já passou pela música deles, ?Beggin?, zapeando pelas redes sociais.
  • Pois aqui você descobre a história deste grupo italiano que já foi pitado como salvador do rock por liderar paradas no Reino Unido e TikTok.
  • E fazem tudo isso sem inventar a roda, revolucionar o gênero ou romper com alguma estética.
  • Mesmo assim, é difícil não amá-los.

O roqueiro médio leva aproximadamente 29 segundos para avaliar se gosta ou não de uma nova banda, ou música. Neste tempo, o artista avaliado deve preencher alguns requisitos mínimos para garantir o play por mais tempo.

Neste tempo, "Beggin", o atual hit número 1 da parada de virais do Spotify Brasil, da banda italiana de nome dinamarquês Måneskin, já diz a que veio, com uma guitarra rasgada, um ritmo de bateria bastante espaçoso e vocais deliciosamente (e preocupantemente também) rasgados como se as cordas vocais fossem um embrulho de presente na manhã de Natal.

Claro que o dado acima é uma liberdade poética deste que aqui escreve, mas há também um conhecimento empírico também.

Em 29 segundos, por exemplo, o Greta Van Fleet já mostrava a que vinha em uma música como "Highway Tune", com as referências amontadas capazes de criar o último Fla-Flu do rock and roll mundial.

Em 29 segundos, "Last Nite", do The Strokes, já fazia borbulhar uma pistinha de dança indie em qualquer porão..

Em 29 segundos, "Paranoid", do Black Sabbath, mudava a história do heavy metal, e "Immigrant Song", do Led Zeppelin, mostrava como Robert Plant e Jimmy Page eram a melhor dupla de voz e guitarra que já se viu pela Terra, e John Lennon, com "Imagine", me faz chorar em 29 segundos.

Neste tempo, o assim o mundo "roqueiro" (bem entre aspas) e não-roqueiro ficou boquiaberto com o quarteto vindo de Roma vencedor do festival de música europeu Eurovision.

Pela primeira vez desde, sei lá, as vitórias de Celine Dion e ABBA, em 1988 e 1974, respectivamente, a disputa europeia não mostrava um artista tão instigante para o resto do mundo não-europeu.

Måneskin é saborosamente disruptiva na medida certa. Não inventam a roda (ou rock), mas também não se prender a ele e ao conservadorismo que tomou conta do gênero, com diferentes artistas se mostrando anti-vacina e coisas do tipo.

Vivendo um conto de fadas que usam couro e passam delineador para realçar os olhos, o quarteto formato por Damiano David (voz), Victoria de Angelis (baixo), Thomas Raggi (guitarra) e Ethan Torchio (bateria) ficou em segundo lugar no X-Factor italiano, chegou ao topo com uma vitória improvável na Eurovision (abaixo) e fizeram história, recentemente, ao colocar duas músicas no Top 10 das paradas do Reino Unido e estão também no Top 40 do TikTok.

É o velho e o novo, percebem? O grupo está tanto nas paradas inglesas que outrora já dominaram o que era ouvido no mundo todo e também no TikTok, a maior plataforma de música hoje que, por um acaso, também é uma rede social.

A Måneskin rompem com padrões, mas nem tanto também. Eles são a representação máxima do meio-termo: nem tão complicados demais, mas nem tão simples assim, explicaria o poeta Chorão se vivo estivesse (embora certamente há quem diga que Chorão assistia aos vídeos do grupo romano e dizia que eles "iam longe", mesmo que isso fosse cronologicamente impossível já que a banda foi formada em 2016, três anos depois da morte do vocalista do Charlie Brown Jr.).

Escrevo "representação do meio-termpo" como um elogio. Mais do que estar no lugar certo na hora certa (justamente quando o rock, ou o pop punk, volta às paradas com fenômenos populares como Olivia Rodrigo e Machine Gun Kelly), a Måneskin reúne aquilo que conhecemos por rock historicamente e insere tudo no nosso zeitgeist.

O uso de covers, tão criticado, é sagaz em tempos de excesso de informação. Melhor do que disputar a atenção dos ouvintes com músicas completamente novas, que tal oferecer uma versão de uma canção que o público já conhece?

"Beggin", que também é hoje a segunda música mais ouvida do Spotify global, foi gravada por pela banda The Four Seasons em 1967 e ganhou destaque na Europa ao ser regravada pelo duo norueguês dehip-hop Madcon.


A Måneskin ainda regravou e "Let's Get It Started", do Black Eyed Peas (acima), e "Somebody Told Me", do The Killers (abaixo).

Faz sentido usar covers neste cenário, porque a Måneskin faz suas versões com algum estilo. Não há uma interpretação genial, mas dá para sentir a energia do grupo e, caso goste, correr para ouvir os álbuns do grupo, "Il ballo della vita" (2018) e o recente "Teatro d'ira: Vol. I" (2021), além do EP "Chosen" (2017).

O visual andrógeno também funciona, como tantos outros fizeram antes do vocalista Damiano Davi - há algo de The Darkness neles, não acham?

A Itália está na moda?

Depois da vitória da Eurocopa (o campeonato de seleções europeias de futebol), o grupo lidera as paradas com músicas em inglês, mas cantadas em um sotaque bem italiano, como o estereótipo de "Família Soprano" e filmes de gangsters.

E o mais interessante são justamente as músicas cantadas em italiano, como a efusiva "Zitti e Buoni", responsável pela vitória no Eurovision, e "Coraline", uma balada de expor a ferida do coração sem medo de parecer exagerado demais.

Críticos dizem que a onda da Måneskin vai se transforar em uma marolinha como geralmente ocorre com o rock, mas os fãs entusiasmados fazem questão de defender o grupo como podem nas redes sociais.

Mais uma vez, talvez não seja o primeiro nem o segundo.

Måneskin já foi importante na história. Vocalista e o guitarrista Thomas Raggi trocaram um beijo em uma apresentação exibida na TV pública da Polônia, país que vive mergulhado num conservadorismo, ajudou a elevar a autoestima italiana tão arrebentada com a covid-19 e se envolveram em uma polêmica sobre um tal uso de drogas durante o Eurovision (obrigando Damiano a fazer teste para provar que era inocente, veja só).

O que a Måneskin faz é uma espécie de kitsch rock atualizado, em que tudo é propositalmente clichê e estereotipado, além de exageradamente melodramático.

Como não amá-los?