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Pedro Antunes

7 vezes em que o rock morreu, mas passa bem

Se o rock morreu, a culpa é de quem? - Montagem: Pedro Antunes
Se o rock morreu, a culpa é de quem? Imagem: Montagem: Pedro Antunes
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

13/07/2021 12h44

Sem tempo?

  • Afinal, o rock morreu?
  • Reuni uma lista de gente que tentou matar o tal Sr. Rock, de Gene Simmons a Jack Black.
  • Aqui, também elenquei a turma que reclamou do Greta van Fleet e disse que os Strokes eram só pose.
  • Mas tudo o que disseram sobre a tal morte do rock, como vocês verão abaixo, é só balela.

Imagino o Sr. Rock já barbudo, grisalho, sentado na frente da sua casa no subúrbio, com grama verdinha e cercas baixas e brancas. Vez ou outra, alguém vestindo jaqueta de couro, coturnos e bandana na cabeça passa na frente da casa do Sr. Rock, arremessa uns ovos ou rolos de papel higiênico e diz:

"Você morreu!"

E lá vai ele levantar da cadeira, aparentemente confortável, para limpar a bagunça.

É esse o estado do rock, o único gênero musical assassinado constantemente pelo próprio séquito sem ter culpa alguma.

Morreu, mas passa bem. Entende?

Música é a arte passional. Quando o mundo está à flor da pele, como agora (ou desde sempre), não existe meio-termo. É tudo ótimo ou péssimo. Não se pode discordar.

Há anos atacam esse velhinho com mais de 65 anos (a idade exata é difícil precisar porque historiadores diferem sobre o primeiro registro roqueiro) viveu on topo do mundo, mas hoje ocupa um lugar ainda de prestígio, mas deixado de lado pelas paradas (atualmente ocupadas por música pop, eletrônica e hip-hop).

Selecionei 7 vezes em que decretaram o fim do rock e, com isso, a morte desse doce senhor que trocou cigarro e álcool por aulas de ioga três vezes por semana, é ouvinte de podcasts que tratam de saúde mental e prefere curtir os netos do que arrumar confusões em hotéis por aí.

Jim Morrison cansou do rock ou o rock que cansou dele?

O vocalista do The Doors tinha cansado do gênero que o levou ao topo. Em 1969, sem saco para a vida do rock, com prós e contras, fez uma música/jam chamada "Rock Is Dead". A faixa só foi lançada muitos anos após a morte de Morrison, em uma versão editada de mais de 16 minutos em "The Doors: Box Set", um lançamento de 1997.

Há também uma versão de uma hora de duração, que vou colocar aqui abaixo.

Por que não morreu? O que morreram foram faixas de 16 minutos, Jim.

O que queria o The Who?

Em 1972, Pete Townsend, o guitarrista da banda rock The Who, decidiu matar o gênero. Foi ele a primeira figura pública da indústria a usar a frase "o rock morreu" em uma canção, mas também escreveu sobre "vida longa ao rock".

Se os anos 1960 foram o apogeu do rock como esse gênero que moveu as massas, com Beatles e companhia, a década seguinte mostrou um mundo quebrado, em guerra, com medo. O rock se transformou ali, mas não morreu.

Por que não morreu? Só naquele ano, foram lançados discos como "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars" (David Bowie), "Exile On Main St." (The Rolling Stones) e "Transformer" (Lou Reed).

Até Lenny Kravits matou o rock?

Mais ou menos. Estávamos em 1995 e realmente imortal Lenny Kravitz decidiu que era hora de decretar a morte do rock, principalmente porque vivíamos na avalanche ruidosa do grunge.

A faixa "Rock and Roll Is Dead" fez um certo barulho na época (claro, o título é polêmico), mas Kravitz diz que foi mal interpretado nesta história. Ele até canta sobre quem "não sabe tocar um instrumento, só sabe gritar", mas me parece uma polêmica para conseguir atenção, já que a música não é tão boa assim.

Por que não morreu? Só neste ano de 1995 saíram clássicos, realmente, como "Mellon Collie and the Infinite Sadness" (do The Smashing Pumpkins), "(What's the Story) Morning Glory?" (do Oasis), "Jagged Little Pill" (de Alanis Morissette), "To Bring You My Love" (PJ Harvey), "One Hot Minute" (do Red Hot Chili Peppers)... Ufa.

É pose ou é rock, mesmo?

O ano de 2001 marcou um renascimento do garage rock a partir da popularização do The Strokes. O álbum, que completa 20 anos em 2021, é um marco e abriu portas para uma muita banda boa nascida com as mesmas influencias.

A turma de Julian Casablancas bebia de fontes do proto-punk de Nova York, como The Velvet Underground e New York Dolls e tinham um estilo "rebelde chique".

Claro que os roqueiros velhos ficavam bravos com essa molecada colocando as guitarras nas paradas de novo. Disseram que o movimento não era verdadeiro, com mais pose do que espírito. É mesmo?

Por que não morreu? O The Strokes fez uma sequência de bons álbuns e abriu porteiras para gente como Interpol, Arctic Monkeys, The Libertines, The Rapture, The Killers, Franz Ferdinand, entre vários outros.

Se Jack Black falou?

Então tá falado. O ator dono de caras e bocas, alguns filmes legais e outros nem tanto, tem uma banda, a Tenacious D. E mesmo com um som só meia-boca, o duo já foi atração do Rock in Rio (ainda por cima no Palco Mundo, o principal do festival).

A música "Rock is Dead", deles, é uma brincadeira, é claro, que sacaneia justamente a ideia de que o rock está respirando por aparelhos.

Por que não morreu? Ué, de alguma maneira, até um ator ruim e seu melhor amigo podem falar da morte do rock numa música divertida e, ainda assim, serem rock and roll. Quer mais liberdade do que isso?

O chateado Gene Simmons

O vocalista/baixista do Kiss e literalmente linguarudo é um homem de negócios, todos sabemos. O Kiss deixou de ser só uma banda para se tornar uma máquina criadora de dinheiro. Poucos entenderam a música como "negócio" com a mesma capacidade de Simmons.

Então, em 2014, quando ele diz que "agora sim o rock morreu de vez", precisamos entender que ele quer: 1) manchetes, como conseguiu; 2) mostrar descontentamento com um mercado que poderia ser mais lucrativo para ele mesmo.

Todos repercutiram a história de Simmons. A reclamação dele é que de 1958 a 1988, era possível lembrar de uma infinitude de bandas de rock clássico, o que não acontece mais se pensarmos de 1988 para 2014.

Por que não morreu? A teoria de Simmons só faz sentido se as pessoas acharem que rock é aquele formato que vimos até 1988, com grandes gravadoras, roqueiros bêbados destruindo quartos de hotéis e tudo mais.

O que o Greta Van Fleet representa?

A mesma turma que se irritou com o hype em torno de The Strokes e a volta da guitarra talvez tenha ficado brava com a ascensão de Greta Van Fleet.

Sem inventar a roda, o grupo ressuscita fórmulas gastas por grupos do rock psicodélico e hard rock dos anos 1970 para a linguagem contemporânea.

Por que não morreu? Há quem se irrite, é claro, mas a banda levou o álbum de estreia, "Anthem of the Peaceful Army", para o 3º lugar da Billboard nos Estados Unidos, o que não é pouca coisa. Assisti ao show deles no Lollapalooza Brasil 2019 e, mesmo incomodado com agudos do vocalista Josh Kiszka mal balanceados ali, fiquei feliz em ver uma molecada curtindo um show com guitarras pesadas e tudo mais.

Conclusão?

O Sr. Rock não morreu, assim como seus pares, o Sra. Samba, Dr. Pagode, Rainha Jazz, Rei Blues também não morrem. Mesmo que, vez ou outra, alguém tente ganhar alguma manchete decretando uma morte qualquer.