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Pedro Antunes

Bem-vindo ao mundo de Marisa Monte. Ele é melhor que o nosso

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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

02/07/2021 11h30

Sem tempo?

  • Marisa Monte acaba de lançar um novo álbum.
  • Portas é o primeiro disco dela de músicas inéditas em 10 anos, desde O que Você Quer Saber de Verdade, de 2011.
  • O trabalho é produzido por Marisa Monte (com co-produção de Arto Lindsay)
  • Neste disco, Carlinhos Brown não aparece como colaborador, mas o filho dele, Chico Brown, está em três músicas.
  • A nova geração está em peso aqui, de Marcelo Camelo (autor da música Espaçonaves e co-autor de Você Não Liga) a Davi Moraes e Pedro Baby.
  • Este é um álbum otimista. E como a gente precisava disso.

- Alexa, tocar 'Portas', o novo álbum da Marisa Monte.

Dei o comando ao assistente de voz lá pelas 5h da manhã. Dez anos atrás, quando Marisa Monte lançou o último álbum de inéditas (o ótimo "O Que Você Quer Saber de Verdade", de 2011), esse tipo de tecnologia não existia.

Mas também não existia um monte de outras coisas. Era outro mundo. Para melhor e para pior.

Dez anos atrás, ao pegar o celular, a gente não se sentia invadido por sentimentos dos outros, sentimentos mais fortes do que a gente, capazes de piorar seu dia só porque você leu algo que lhe pareceu surreal.

Há uma década, as redes sociais eram outras, as notícias também. Quis ouvir "Portas" com a mente fresca, sem ser afetado por nada que pudesse transformar meu acordar. Queria estar fresco para ouvir Marisa sem os filtros do pessimismo inerente por ser brasileiro atualmente.

Não hoje. Hoje eu queria viver no mundo de Marisa Monte. Abrir uma dessas portas cantadas por ela em "Portas", a faixa-título assinada pelo trio Arnaldo Antunes, Dadi e Marisa, e viver um pouquinho de otimismo. Isso não faz mal.

Ao anunciar o álbum, Marisa Monte contou como o trabalho é fruto de como lidar com o isolamento social e de como enfrentar a frustração de não ser capaz de realizar o que se queria. Ela gravaria em Nova York, contou no texto de apresentação do disco, mas o mundo como conhecíamos se esfacelou diante de um inimigo invisível. Ficou no Rio, gravando via Zoom.

Isso é frustrante.

Claro, falo sobre uma frustração diante dessa perspectiva privilegiada em um País em que mais de 500 mil pessoas morreram, a terra da propina, em que a vida de cada um tem um preço, e é US$ 1.

Mas cada um tem seu infinito particular, como cantaria Marisa, e, no dela, artista de proporções gigantes, elogiadíssima pela crítica e integrante do trio Tribalistas, dono de uma das turnês mais bem-sucedidas da história da música brasileira, ver o álbum que tinha em mente se desintegrar é a frustração em estado puro. E tudo bem.

"Portas" nasce de uma frustração e isso faz com que seja fácil se identificar com ele.

Cada som colocado ali, em violinos, cavaquinhos, pandeiros, reco-recos, violões, guitarras, por uma banda encorpada que incluiu Dadi, Pedro Baby, Davi Moraes, Pretinho da Serrinha e arranjos do mestre Arthur Verocai, comandados por Marisa (que assina a produção e direção-geral do álbum), parece servir como viga para sustentar essa construção erguida pela artista.

Nesse prédio, de um lado, a vista é para o mar azul. Do outro, para a Mata Atlântica, verde e vívida.

Parece uma metáfora meio maluca, eu sei, mas nessa construção cheia de portas, com cada quarto é bem iluminado e oferece uma vista bonita do Rio de Janeiro. Quem está nesse cômodo tem a possibilidade de entender porque a Cidade Maravilhosa é chamada de Cidade Maravilhosa.

Há quem questionará a visão de mundo de Marisa Monte. Oras, vocês querem o quê? Que ela se descabele como o resto de nós? Querem que ela faça um álbum com versos de "fora Bolsonaro"?

A revolta com o estado atual das coisas ela é inerente a qualquer um que vive o hoje. Cantar uma poesia otimista é lidar com isso do mesmo jeito que esbravejar nos stories do Instagram ou no Twitter. Não é ignorar o fato, é curá-lo como pode.

Encontrar a beleza da vida não é só um desafio gigantesco, também é um processo de bem-estar e de cuidado com a saúde mental.

Todo mundo já descabela um pouquinho ao longo desse ano e meio de pandemia. A gente já se revoltou, já chorou, já sentiu saudade, já deu murro na parede (às vezes, literalmente). A gente já bebeu demais, fumou demais, tomou remédio demais - e isso é comprovado pela da pesquisa "Uso de Álcool e Covid-19", publicada pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), não é invenção minha para fazer uma poesia aqui.

A gente precisava desse exercício de imaginação de girar estas maçanetas de cada porta/música de Marisa e dar de cara com uma poesia, com um sambinha, com uma valsa, com as crônicas de Marisa sobre o mundano, sobre arco-iris e o que a emociona.

De alguma forma, este álbum da Marisa Monte me fez lembrar que a música sobrevive. Ela existe além do caos. Ao longo da história a música existiu, apesar do mundo ao redor. Suponho, portanto, que um dia a gente vá ouvir "Poetas" sem estarmos acomanhados por essa desesperança toda. E estas músicas nos tocarão de um jeito diferente.

Quando ouvimos músicas de 1971, por exemplo, podemos entender o contexto no qual elas foram feitas, da Guerra do Vietnã, a Ditadura no Brasil, mas estas canções se conectam com nós, ouvintes de 2021, de uma forma diferente. É outro contexto, afinal, vivemos no caos, mas não no mesmo caos.

Hoje acordei e me deixei ser atravessado pela boa energia boa do novo álbum de Marisa Monte, em vez de ser tragado pela obsessão de arrastar para cima, pro o lado, pra onde for usando o celular e das redes sociais.

"Porta" nos lembra que a música dura mais que o caos. Nesta luta, a música sempre vence. Ainda bem.

Amanheci no mundo de Marisa Monte. E ele é melhor do que o nosso.