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Guilherme Ravache

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Música perde relevância no Spotify, fake news e sons de dormir crescem

Joe Rogan, polêmico e destaque no Spotify - Douglas P. DeFelice/Getty Images
Joe Rogan, polêmico e destaque no Spotify Imagem: Douglas P. DeFelice/Getty Images
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Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

06/09/2021 06h00Atualizada em 18/09/2021 11h14

Resumo da notícia

  • Músicos e investidores do Spotify tem uma reclamação em comum: querem receber mais dinheiro
  • Artistas reclamam de pagamentos cada vez menores e por terem de dividir a receita financeira com quem nem mesmo faz música
  • Investidores cobram maiores lucros da empresa, que afirma preferir priorizar seu crescimento investindo em podcasts
  • Spotify prevê gastar até US$ 1 bilhão para recomprar ações dos investidores, mas não deve mudar pagamentos a artistas
  • A publicidade nos podcasts disparou, mas o formato trouxe as fake news e conteúdos polêmicos
  • Sleep Fruits Music, canal de sons para dormir, é nova febre na plataforma e novo problema para quem produz conteúdo artístico

Não são somente os músicos que andam cada vez mais impacientes com o Spotify. Um grupo bastante diferente, os investidores da empresa, também acha que a maior plataforma de streaming de música do mundo anda fora de compasso. A reclamação deles é a mesma: dinheiro (ou melhor, a falta dele).

Os artistas reclamam dos valores cada vez menores pagos pela execução de suas músicas. Já os investidores estão frustrados porque a expectativa de ganhar dinheiro com a empresa parece algo cada vez mais distante.

Embora a empresa divulgue periodicamente lucros trimestrais, os executivos afirmam que ela continuará dando prioridade ao crescimento - atraindo novos assinantes e investindo em podcasts. O problema é que agora, até o crescimento desacelerou.

A receita de publicidade do Spotify mais que dobrou último trimestre, ajudada pelo crescimento em seu negócio de podcast, mas a empresa adicionou menos usuários totais do que o esperado. Segundo o Spotify, à medida que a vacinação aumentou e as pessoas voltaram a sair, a entrada de novos assinantes na plataforma ficou abaixo da expectativa. No trimestre encerrado em 30 de junho, o Spotify tinha 365 milhões de usuários ativos por mês, um aumento de 22% em relação ao ano anterior, mas abaixo do que a empresa projetava. A empresa disse que a Covid-19 pesou no desempenho em vários mercados - principalmente Índia, Brasil e Sudeste Asiático, inclusive forçando-a a interromper algumas campanhas de marketing.

As ações do Spotify perderam 9% de seu valor no dia seguinte ao anúncio dos resultados.

US$ 1 bilhão para os investidores

Mas diferentemente dos artistas, os investidores ganharam um afago do Spotify. A empresa anunciou em agosto planos de recomprar até US$ 1 bilhão em ações, com a autorização expirando em abril de 2026. As recompras de ações costumam ser uma forma eficiente em termos de impostos para as empresas devolverem o capital excedente aos acionistas.

A iniciativa surpreende. Normalmente, quando uma empresa investe dinheiro do seu caixa recomprando ações, é porque não vê iniciativas melhores para aplicar seu capital. O que é estranho, já que os executivos do Spotify dizem que o objetivo nesse momento é crescer, e não dar prioridade aos lucros.

Esse US$ 1 bilhão de dólares não poderia ir para os músicos que reclamam dos valores cada vez menores? Sem dúvida. Mas os números divulgados pelo Spotify deixam evidente que a música é um negócio cada vez menos atraente nas plataformas de streaming.

Por que a publicidade cresce no Spotify?

Enquanto a receita geral de assinaturas aumentou 17%, para R$ 12,7 bilhões. A receita de publicidade disparou 110% para R$ 1,7 bilhões, crescendo pelo quarto trimestre consecutivo. Ou seja, a aposta do Spotify em podcasts está rendendo ótimos frutos ao aumentar os ganhos com publicidade.

A empresa afirma ainda ter ganhos de três dígitos ano a ano nos estúdios Spotify que incluem o The Ringer, Parcast, Spotify Studios e Gimlet. A compra da empresa de publicidade de podcast Megaphone também melhorou a monetização dos podcasts. O Spotify Audience Network, que permite aos anunciantes comprar perfis de audiência ao invés de programas específicos, ajudou a triplicar o espaço de publicidade de podcast monetizáveis.

"Se você olhasse para nós por muito tempo, diria que o Spotify é um negócio de assinaturas pagas de música e os anúncios são um negócio secundário. Agora estamos finalmente vendo o lado suportado por anúncios estourar e se tornar um impulsionador de receita significativo para a empresa ", disse Daniel Ek, CEO do Spotify. "Eu disse que todas as futuras empresas de mídia precisarão de vários modelos de receita e, de uma perspectiva de estratégia futura, esta é uma notícia incrivelmente boa para nós", acrescentou.

Música não dá dinheiro no streaming

A Apple não divulgou seus próprios assinantes pagantes da Apple Music por mais de dois anos. O último número anunciado foi de 60 milhões em junho de 2019. Também não se sabe se a Apple Music é lucrativa, embora Jimmy Iovine uma vez tenha dito que não há dinheiro no negócio de streaming de música, o que implica que a Apple oferece o serviço como um benefício do ecossistema.

"Os serviços de streaming estão em uma situação ruim, não há margens, eles não estão ganhando dinheiro", disse Iovine. "A Amazon vende Prime; A Apple vende telefones e iPads; Spotify, eles vão ter que descobrir uma maneira de fazer com que o público compre outra coisa". Essa "outra coisa" parece ser a publicidade.

Quanto mais polêmica, mais audiência

O crescimento dos podcasts no Spotify trouxe problemas. O The Joe Rogan Experience, do apresentador e entrevistador Joe Rogan, foi a grande aposta da plataforma no segmento. O Spotify pagou mais de R$ 500 milhões para ter a atração com exclusividade. Desde sua entrada no Spotify em setembro de 2020, Joe Rogan tem sido todos os meses o podcasts mais ouvido.

Um dos ingredientes do sucesso de Rogan são as controvérsias. Há desde Elon Musk, CEO da Tesla fumando maconha durante o podcast, até Alex Jones, o teórico da conspiração de extrema direita de quem Rogan é amigo há muito tempo. Em abril, Rogan causou polêmica ao sugerir que pessoas jovens e saudáveis não precisavam de vacina contra Covid. Em agosto, ele afirmou ter sido contaminado pelo coronavírus e disse aos seus mais de 13 milhões de seguidores no Instagram que havia tomado ivermectina, uma droga usada no tratamento de animais e contra-indicado para o tratamento da Covid-19.

O interesse em torno de Rogan cresce quando ele se envolve em polêmicas como a da Covid, o que não raro coloca o Spotify em uma situação delicada. Mais de 40 episódios com temas de extrema direita foram "censurados" pelo Spotify. Após críticas, a plataforma voltou atrás e prometeu que não iria censurar Rogan novamente. A presença de Rogan no Spotify gerou revolta até de alguns funcionários da empresa.

Existe um crescente problema de fake news e discurso de ódio dentro do Spotify. Enquanto as redes sociais evoluíram bastante na moderação de conteúdo, o Spotify começa a dar seus primeiros passos nesse lamaçal. Nesse meio tempo, criadores de conteúdo polêmico encontram uma audiência ávida.

Não é mais música, é apenas som

Não bastasse a concorrência dos podcasts, nas últimas semanas uma nova tendência tem irritado músicos na plataforma. Aparentemente, o Spotify tem um 'Rei da Música do Sono'. De acordo com reportagem da Rolling Stone, uma conta chamada Sleep Fruits Music com faixas que duram pouco mais de 30 segundos (apenas o tempo suficiente para se registrar como um stream no Spotify e acionar um pagamento de royalties), tem liderado as paradas.

"Muitas das centenas de canções são curtas gravações da chuva, enquanto outras são suaves banhos eletrônicos de som. A música Sleep Fruits Music não existia no início deste ano, mas na semana passada, a conta estava gerando cerca de 10 milhões de streams por dia, de acordo com imagens compartilhadas com a Rolling Stone da ferramenta Spotify para Artistas, que permite que artistas comparem contagens de stream com seus pares", afirma a reportagem. O problema é que quanto mais streams de sons e até podcasts, menos dinheiro para os músicos. A verba dos streams é distribuída entre as gravadoras que divide o dinheiro entre os artistas e produtores em uma complexa equação.

Os investidores do Spotify ao menos podem comemorar o cheque de US$ 1 bilhão para recompra de ações da companhia, já os músicos, nem sons relaxantes podem ouvir na plataforma ou correm o risco de receber pagamentos ainda menores.

Procurado pela coluna o Spotify afirmou que não comentaria.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL