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Guilherme Ravache

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Se o streaming salvou a música, por que os artistas o odeiam tanto?

Guilherme Ravache

Guilherme Ravache é consultor digital. Jornalista com passagens pelas redações da Folha de S. Paulo, Revista Época e Editora Caras. Foi diretor de atendimento da Ideal H+K Strategies e gerente sênior de comunicação e marketing de relacionamento da Diageo.

Colunista do UOL

25/03/2021 14h46

Resumo da notícia

  • Em 2020 as receitas mundiais de música gravada totalizaram US$ 21,6 bilhões, um aumento de 7,4% em relação ao total do ano anterior
  • Esse é o sexto ano consecutivo de crescimento da indústria musical global, após quase duas décadas de declínio gradual
  • A América Latina manteve sua posição como a região de crescimento mais rápido globalmente (15,9%), já que as receitas de streaming aumentaram 30,2%
  • O streaming já representara 84,1% das receitas totais de música na América Latina
  • Mais de 62% do faturamento total da indústria da música no mundo vem das plataformas de streaming
  • Apesar dos números grandiosos, os artistas recebem cada vez menos por suas músicas e o problema só deve aumentar

De acordo com o Relatório Global de Música da IFPI, divulgado essa semana, em 2020 as receitas mundiais de música gravada totalizaram US$ 21,6 bilhões, um aumento de 7,4% em relação ao total do ano anterior, com US$ 20,2 bilhões.

Esse é o sexto ano consecutivo de crescimento da indústria musical global, após quase duas décadas de declínio gradual. A América Latina manteve sua posição como a região de crescimento mais rápido globalmente (15,9%), já que as receitas de streaming aumentaram 30,2% e representaram 84,1% das receitas totais da região.

"Entre 2001 e 2010, as vendas físicas de música caíram mais de 60%, eliminando US$ 14 bilhões em receita anual. Durante o mesmo período, as vendas de música digital cresceram de zero para US$ 4 bilhões, o que não foi nem remotamente o suficiente para compensar a queda nas vendas de CD. Foi só com o surgimento e a adoção generalizada de serviços de streaming de música que a sorte da indústria da música começou a mudar novamente", aponta o jornalista Felix Richter.

No ano passado, a música digital foi responsável pela maior parte das receitas mundiais de música, com os serviços de streaming sozinhos respondendo por 62% do faturamento total da indústria. De acordo com a IFPI, 443 milhões de pessoas estavam usando uma assinatura paga de streaming de música no final de 2020 e as receitas de streaming são agora consideravelmente maiores do que as vendas de downloads digitais.

Ou seja, por trás do renascimento da música estão os streamings que reverteram a tendência de queda do meio.

Entre amor e ódio

Mas se os streamings salvaram a música, como os números apontam, por que os artistas odeiam tanto as plataformas de streaming? O problema está na divisão de receitas. Boa parte do dinheiro de streamings se concentra em um número limitado de artistas.

Os serviços de streaming de música usam uma fórmula complicada e não muito transparente para calcular quanto cada artista recebe. No Spotify, por exemplo, de cada R$ 10 recebidos de assinantes, cerca de R$ 3 ficam com a plataforma. Depois, os R$ 7 restantes vão para um "pote", que é dividido de diferentes maneiras entre gravadoras, compositores, editores musicais, artistas e outros.

Quanto mais as pessoas ouvem música, menor o valor de cada música, porque o pote tem cada vez mais pessoas para receber uma parte. Cerca de 60.000 faixas são adicionadas por dia no Spotify, uma a cada 1,4 segundos.

Ganhar dinheiro no streaming se torna mais difícil a cada dia. Para os gigantes da música, o grande número de vezes que tocam no streaming ainda compensa, além disso a exposição na plataforma ajuda a vender de shows, produtos e licenciamentos em torno de suas marcas.

Os streamings repassam os pagamentos para as gravadoras, que por sua vez, pagam os artistas. E historicamente, as gravadoras sempre ganharam valores altos em relação aos seus talentos. Esse é um ponto importante, as gravadoras têm grande poder de negociação também com os streamings.

A estimativa é que o Spotify tenha cerca de 7 milhões de artistas em sua plataforma. Desse total, apenas 13.000 ganharam mais de US$ 50.000 ou mais em pagamentos no ano passado.

Mas onde existe crise há oportunidade. Assim como o Spotify resolveu o problema da indústria da música ao lançar o streaming de música, hoje empresas como o SoundClound tentam resolver o problema do Spotify, como o colunista Pedro Antunes escreveu recentemente. Nesse mesmo texto, Antunes traz uma estimativa da receita por música tocada no streaming:

  • TIDAL paga US$ 0,098 por play
  • Apple Music paga US$ 0,0056 por play
  • Google Play Music paga US$ 0,0055 por play
  • Deezer paga US$ 0.00436 por play
  • Spotify paga US$ 0,0032 por play

*Dados de 2019

Vale destacar que o artista só recebe se sua música for tocada por mais de 30 segundos.

A música sobrevive entre altos e baixos. O que parece não mudar é o fato dos artistas seguirem sendo "espremidos" por quem tem o poder de distribuição. Então, não surpreende que os artistas odeiem as plataformas de streaming, porque quanto mais trabalham, menos recebem. Ao mesmo tempo, ignorar as plataformas não é uma alternativa, porque é onde todos cada vez mais ouvem música.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL