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André Barcinski

A incrível história da gravadora criada para fracassar

Morris Levy trama seu novo trambique -
Morris Levy trama seu novo trambique
André Barcinski

André Barcinski é jornalista, roteirista e diretor de TV. É crítico de cinema e música da ?Folha de S. Paulo?. Escreveu sete livros, incluindo ?Barulho? (1992), vencedor do prêmio Jabuti de melhor reportagem. Roteirizou a série de TV ?Zé do Caixão? (2015), do canal Space, e dirigiu o documentário ?Maldito? (2001), sobre o cineasta José Mojica Marins, vencedor do Prêmio do Júri do Festival de Sundance (EUA). Em 2019, dirigiu a série documental ?História Secreta do Pop Brasileiro?.

19/05/2020 06h00

Resumo da notícia

  • Nos anos 70 e 80, selos foram criados para lançar LPs que não vendessem nada, só para burlar impostos. E o chefão do esquema era o mafioso Morris Levy

Em 1981, uma cantora chamada Corey Bishop estava bisbilhotando as estantes de um sebo de discos em Los Angeles quando se deparou com o LP de uma banda chamada Almost Famous. Ela não sabia nada sobre o Almost Famous, mas achou a capa bonita. O vinil custava apenas 10 centavos de dólar, e Corey comprou a bolacha.

Assim que chegou em casa e botou o disco na vitrola, Corey tomou um susto: a voz do cantor era muito parecida com a de um amigo, Richard Goldman, um baladeiro country que fizera relativo sucesso no fim dos anos 70 no clube Troubadour.

Corey ligou para Richard: "Ouça esse disco que comprei", colocando o telefone na frente da caixa: "Parece muito com você".

"SOU EU!", respondeu Goldman. "Que p... de disco é esse?"

O LP continha faixas que Goldman havia gravado anos antes, mas que haviam sido rejeitadas por várias gravadoras e nunca lançadas. Ou melhor: nunca lançadas com a anuência de Goldman.

Para piorar, não só o nome dele não aparecia nos créditos, mas as músicas eram creditadas a outras pessoas.

O caso evidenciou uma prática bastante comum na indústria do disco dos anos 1970 e 1980: LPs lançados apenas para que gravadoras espertas conseguissem burlar o fisco. Em inglês, esse LPs eram chamados de "tax scam records".

A coisa funcionava assim: uma gravadora juntava grana de investidores para produzir um disco. Os custos de locação de estúdio, contratos, produção, prensagem, arte e distribuição eram inflacionados absurdamente por meios de recibos e contratos fajutos. A gravadora prensava poucos discos - a tiragem habitual era de mil cópias - e mandava os LPs para as lojas sem divulgação ou assessoria de imprensa. O disco fracassava de vendas, e os investidores alegavam à Receita que haviam perdido uma fortuna com o LP.

O esquema foi amplamente utilizado para lavar dinheiro de atividades criminosas. E entre os muitos praticantes do trambique, um se destacou: Morris Levy (1927-1990).

Levy foi um dos nomes mais temidos e polêmicos do showbiz americano. Era ligado à Máfia, e todos os seus empreendimentos - casas noturnas, clubes, agências de talentos - serviam para lavar dinheiro dos Genovese, um dos clãs mafiosos mais poderosos e violentos do mundo.

Quando o assunto era trambique, Morris Levy era um verdadeiro gênio: ele pirateava os próprios discos para não pagar royalties para os músicos, obrigava artistas a lhe dar parcerias em canções e tinha cerca de 60 gravadoras que só existiam no papel e serviam para lavar dinheiro.

"Morris tinha mais prazer em ganhar dez centavos ilegalmente do que mil dólares de maneira legal", disse o cantor Tommy James.

Na virada dos anos 60 para os 70, James liderou uma das bandas mais famosas do país, Tommy James and the Shondells, que lançou hits como "Hanky Panky", "Mony Mony", "Crimson and Clover" e "Crystal Blue Persuasion". Ele diz que trabalhou por quase 10 anos para Levy e nunca viu um centavo em royalties.

Leia aqui um texto que fiz sobre a sensacional autobiografia de Tommy James: "Me, the Mob and the Music".

De todas as gravadoras trambiqueiras de Morris Levy, uma das mais famosas é a Tiger Lily. De vez quando, só para dar um ar de respeitabilidade ao selo, Levy lançava um disco "de verdade", como uma coleção de gravações de shows do comediante Richard Pryor. Mas a grande maioria dos lançamentos do selo eram "tax scam records".

Na maioria das vezes, os artistas nem sabiam da existência desses discos. Em outras, recebiam um trocado de Levy e ficavam de bico calado.

Foi o caso da banda de rock Airbone. Sem conseguir contratos com gravadoras legítimas, o Airborne aceitou a oferta de Levy. "Assinamos um contrato, e a gravadora nos mandou um cheque de alguns poucos milhares de dólares, que nós alegremente aceitamos", disse ao site Dangerous Minds um dos integrantes do grupo, Barry Fields. "Nosso empresário disse que o contrato era parte de algum esquema para fraudar impostos, mas nós realmente não ligamos".

Leia aqui uma reportagem extensa do site "Dangerous Minds" sobre o esquema de "tax scam records".

Com o passar dos anos, colecionadores de discos começaram a se interessar pela história de artistas como Airborne, John Scoggins, Jim Armstrong e Sounds of the Cuty Experience e de seus discos feitos para fracassar, e alguns desses LPs passaram a valer um bom dinheiro no mercado de usados. Outros acabaram relançados por gravadoras "de verdade".

Mas a melhor história de artistas envolvidos - voluntariamente ou não - com essa picaretagem é a da banda nova-iorquina Stonewall.

Em 1972, o quarteto de hard rock recebeu uma oferta de Jimmy Goldstein, dono de um estúdio de gravação em Nova York: Goldstein daria horas de estúdio de graça para a banda se ela gravasse um disco, que Goldstein tentaria vender para alguma gravadora.

A banda gravou o disco. Goldstein pegou as fitas e disse que o levaria para alguns contatos da indústria musical. Depois de alguns meses, Goldstein procurou a banda e disse que ninguém se interessou pelo LP. O Stonewall acabou pouco tempo depois.

Corta para 2014: um rato de sebos de discos encontra num brechó um vinil de 1976, lançado pela gravadora Tiger Lily. Era o disco do Stonewall. O sujeito conhecia a história da banda e sabia de uma lenda segundo a qual Morris Levy teria prensado mil discos e jogado quase todos num lixão. Aquele vinil era uma raridade. O sujeito pagou um dólar pelo disco, foi para casa, anunciou um leilão do disco no EBay e o vendeu por... QUATORZE MIL DÓLARES!

E quem era listado como "dono" do copyright do álbum? Ele mesmo, Jimmy Goldstein. O que prova que Morris Levy tinha acordos com diversos produtores para surrupiar álbuns de artistas.

A história completa sobre o disco do Stonewall, novamente cortesia do Dangerous Minds, está aqui.

E Morris Levy? Chamado de "O Poderoso Chefão da Música", ele foi acusado pelo FBI de extorsão, lavagem de dinheiro e associação criminosa. Condenado a dez anos de prisão, acabou morrendo de câncer poucas semanas antes de ir em cana. Mas sua figura foi imortalizada no personagem Hesh Rabkin, de "Os Sopranos", claramente inspirado em Levy.

QUINTA, ÀS 19h, FAÇO UMA LIVE SOBRE "HISTÓRIA SECRETA DO POP BRASILEIRO"

Quinta, dia 21/5, às 19h, no Instagram do canal Music Box Brasil (@musicboxbrasil), participo de uma conversa com meu camarada, o crítico musical Régis Tadeu, sobre minha série documental "História Secreta do Pop Brasileiro". Vamos falar de falsos gringos, trambiques musicais, a explosão da música infantil no Brasil nos anos 80, etc.

Só lembrando que a série está na programação do canal todas as sextas, às 22h30, com reprises aos domingos, às 12h, e terças, às 13h30. Também pode ser vista nas plataformas Amazon Prime, Now, Vivo Play e Looke.

Até lá!

Uma ótima semana a todos.

Visite meu site: andrebarcinski.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.