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Roubo e sangue: as histórias assustadoras do mochileiro que rodou o mundo

Viajar é incrível, mas perrengues surgem no caminho - Lex_16/Getty Images/iStockphoto
Viajar é incrível, mas perrengues surgem no caminho Imagem: Lex_16/Getty Images/iStockphoto

Marcel Vincenti

Colaboração para o UOL

09/08/2019 04h00

Tive sorte na vida. Há 12 anos, trabalho com o que mais amo: viagens.

Já estive em quase 70 países, em jornadas nas quais admirei paisagens incríveis, conheci pessoas extraordinárias e aprendi sobre as mais variadas culturas que fazem da Terra um lugar tão bonito.

Mas nem tudo são flores para um "globetrotter": viajar é estar vulnerável, a todo momento, a enfrentar situações complicadas e, às vezes, assustadoras - especialmente se o turismo for de baixo custo, à moda mochileira (o estilo dominante dos meus passeios pelo mundo).

Não acredita? Então conheça alguns dos maiores perrengues que já vivi perambulando por aí.

Trem sinistro no Leste Europeu

Estação de trem à noite - TOM STOCKER/Getty Images/iStockphoto - TOM STOCKER/Getty Images/iStockphoto
Imagem: TOM STOCKER/Getty Images/iStockphoto

Há alguns anos, durante um tour pelo Leste Europeu, peguei um trem noturno para ir de Praga (na República Tcheca) a Cracóvia (na Polônia).

O guia "Lonely Planet", que eu carregava debaixo do braço, avisava: "Tome cuidado: ocorrem muitos roubos nesta viagem".

Embarquei às 23h e logo percebi que a jornada seria tenebrosa: os vagões velhíssimos e escuros, que lembravam o cenário de um filme do Hitchcock, estavam praticamente vazios.

Circulavam por eles alguns homens sinistros, que me encaravam de um jeito estranho quando cruzavam comigo.

Sentei sozinho em uma cabine, cuja porta não podia ser trancada. Com a noite avançando e o trem rangendo rumo à Polônia, deitei no assento e peguei no sono, com minha mochila entre meus pés.

Acordei no meio da madrugada e percebi que o zíper da mochila estava aberto, com meus pertences todos revirados lá dentro.

Enquanto eu dormia, alguém teve a audácia de entrar e mexer nas minhas coisas (e eu tenho o sono muito leve; não sei se foi usado algum sonífero para me manter apagado, o que me deixou com a sensação de extrema vulnerabilidade).

O curioso é que, na mochila, havia um notebook e uma câmera fotográfica, que não foram levados.

A pessoa, provavelmente, só queria dinheiro (algo mais fácil de esconder dentro de um trem, caso eu resolvesse chamar um segurança para buscar o ladrão). Minha grana, entretanto, se encontrava em uma doleira embaixo da minha calça.

Eu acabei não perdendo nada nesta tentativa de furto: só o sono. Passei o resto da viagem paranoico, agarrado às minhas coisas e sozinho dentro da cabine.

Hostel cheio de sangue no Camboja

Imagem de sangue no chão - worawut2524/Getty Images/iStockphoto - worawut2524/Getty Images/iStockphoto
Imagem: worawut2524/Getty Images/iStockphoto

Para quem viaja sozinho (e, especialmente, com pouca grana), hostels são um ótimo meio de hospedagem: trata-se de lugares com diárias acessíveis e onde é possível fazer amizade com gente do mundo inteiro.

Mas, não raro, hostels são frequentados por pessoas estranhas.

Certa vez, ao me hospedar em um estabelecimento deste tipo na cidade cambojana de Siem Reap (que é base para visitar os templos de Angkor), presenciei uma das cenas mais bizarras da minha vida.

Ao voltar de um passeio na rua, me deparei com uma trilha de sangue que começava na calçada e ia até a área social do hostel.

O percurso vermelho terminava na mesa de sinuca, sobre a qual se encontrava em pé um turista norte-americano com o corpo todo cortado.

Visivelmente alterado, o jovem estava em posição de surfe, como se a mesa de sinuca fosse uma prancha e ele estivesse pegando uma onda monstruosa no Havaí.

À distância, funcionários e hóspedes do hostel o olhavam com estupefação e medo. E, no chão, havia estilhaços de vidros das janelas que ele havia quebrado antes de virar o Gabriel Medina.

O dono do estabelecimento foi chamado e conseguiu levar o turista para seu quarto (que, para minha inquietação, ficava colado ao meu).

A porta da minha habitação era extremamente fina e frágil, o que tirou meu sono: eu ficava imaginando que o cara iria surtar de novo e invadir meu quarto no meio da madrugada. Ou não seja: não preguei o olho até o amanhecer.

No dia seguinte, rumores diziam que o "surfista" havia tomado "ice", uma metanfetamina amplamente consumida no Camboja e que faz muita gente entrar em parafuso.

O dono do hostel, por sua vez, esperou o jovem acordar para enquadrá-lo: disse que, se ele não pagasse tudo o que quebrou, seria preso. Mas eu não fiquei para ver o desfecho da história.

Quase preso por beijar no Egito

Policial nervoso empunhando cassetete - jacoblund/Getty Images/iStockphoto - jacoblund/Getty Images/iStockphoto
Imagem: jacoblund/Getty Images/iStockphoto

Morei na cidade do Cairo, no Egito, por nove meses. Neste tempo, tive uma namorada canadense que também vivia por lá e, ainda sem conhecer as estritas leis locais, me meti em uma situação complicada junto com ela.

Depois de um jantar, acompanhei-a até a portaria de seu edifício e, na hora de dizer tchau, nos demos um longo beijo.

Nesta hora, um jovem egípcio passou pela calçada, viu a nossa cena amorosa e foi correndo chamar a polícia.

Nós estávamos dentro do prédio, mas isso não impediu que, em cinco minutos, um policial invadisse o local e nos desse um enquadro assustador.

Com a mão no revólver, que estava em sua cintura, ele começou a gritar em árabe que aquilo era um crime, que seríamos presos e passaríamos um longo tempo na cadeia.

Outros três homens entraram em seguida no prédio para observar a cena, o que me deu a impressão de que seríamos linchados.

O sermão do policial durou mais de 10 minutos: ele nos ameaçou mais vezes de prisão e, ao final, como se fosse o pai da minha namorada, ordenou que ela subisse para seu apartamento e que eu voltasse para minha casa.

No Egito, beijar na boca em público pode ser enquadrado como crime de indecência. É melhor evitar.

Quase 70 horas no ônibus para a Bolívia

Homem cansado sentado na cama - Koldunova_Anna/Getty Images/iStockphoto - Koldunova_Anna/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Koldunova_Anna/Getty Images/iStockphoto

Certa vez, em um ímpeto aventureiro, resolvi ir por terra de São Paulo até a cidade de Sucre, na Bolívia (onde tenho família).

Eu sabia que seria uma jornada árdua, mas não imaginei que enfrentaria um verdadeiro suplício para chegar até lá.

O primeiro trecho foi cansativo, mas tranquilo: 22 horas de ônibus, por um trecho rodoviário bem conservado, entre a capital paulista e a cidade de Corumbá (MS), na divisa do Brasil com o país de Evo Morales.

Depois de cruzar a fronteira e passar uma noite em uma pocilga na feia e poeirenta cidade boliviana de Puerto Quijarro (era verão e fazia mais de 40ºC), embarquei em um ônibus para ir até a cidade de Santa Cruz de la Sierra (onde pegaria minha conexão rodoviária para chegar a Sucre).

O veículo era extremamente velho (com as bagagens colocadas sobre o teto) e um interior sujo, com assentos apertados que não reclinavam e superlotado: havia o dobro de passageiros do que a capacidade do ônibus permitia, com muita gente viajando em pé (a barriga de um homem ficou roçando na minha cara no começo da jornada).

A distância que separa Puerto Quijarro de Santa Cruz é de menos de 700 km, mas a viagem durou cerca de 27 horas.

Havia chovido no dia anterior e a estrada, que estava extremamente mal conservada, virou um lamaçal, fazendo o ônibus quebrar diversas vezes, no meio do nada, durante o trajeto.

Dentro do veículo, crianças choravam e homens tomavam bebidas alcoólicas destiladas enquanto mascavam folhas de coca, o que enchia o local com um odor insuportável.

Cheguei a Santa Cruz em frangalhos, só para descobrir que a viagem terrestre até Sucre (que começava logo em seguida) iria durar mais 16 horas, em um ônibus igualmente velho e, desta vez, com a presença de três cachorros que, parecia, nunca tinham tomada um banho na vida.

Depois disso, Bolívia só de avião.

Roubado na França

Ladrão rouba celular de turista - Getty Images - Getty Images
Imagem: Getty Images

Engana-se o brasileiro que pensa que, na Europa, não há roubos e sensação de desorganização.

Em recente viagem pela cidade de Lyon, na França, tive meu celular furtado, de maneira magistral, por três larápios locais.

Eu havia acabado de desembarcar na estação Gare Lyon-Perrache, no centro da cidade e, lotado de mochilas e preocupado em encontrar o caminho para meu hostel, não soube reagir no momento em que os ladrões me abordaram na rua com perguntas sem nexo e se aproximadando demasiadamente de mim.

Um deles pegou nos meus ombros e, dando risada, perguntou, em francês, se eu era espanhol. Aquilo me distraiu e, neste momento, um dos outros dois enfiou a mão no meu bolso para roubar meu celular.

Fui perceber a falta do meu aparelho só cinco minutos depois, quando os bandidos já tinham virado fumaça.

Se perder um celular no Brasil já é uma dor de cabeça, imaginem quando isso acontece no meio de uma viagem no exterior.

Subitamente, fiquei sem acesso aos tokens das minhas contas bancárias (o que me impediu, por diversos dias, de acessar meu internet banking), aos meus contatos telefônicos e aplicativos essenciais de viagem. Isso sem falar no prejuízo de ter que comprar um celular novo na Europa em época de real desvalorizado.

E reportar o furto na polícia francesa foi um leve suplício: o dia do roubo era um feriado e diversas delegacias estavam fechadas. A que encontrei aberta estava com pessoal reduzido, o que fez o processo de registrar um boletim de ocorrência virar uma eternidade.

Fiquem ligados: Barcelona (Espanha), Roma (Itália) e Paris (França) são outros lugares com muitas relatos de furtos contra turistas.

De interrogatório a infecção

Homem doente na cama, ressaca - Koldunova_Anna/Getty Images/iStockphoto - Koldunova_Anna/Getty Images/iStockphoto
Imagem: Koldunova_Anna/Getty Images/iStockphoto

E há mais perrengues que um viajante frequente e aventureiro pode ter que encarar.

Ao entrar em Israel por terra a partir do Egito, passei por um processo de interrogatório que durou mais de oito horas, com militares israelenses perguntando sobre os detalhes mais obscuros da minha vida, revistando cada canto da minha bagagem e me deixando de cueca para passar um detector de metal sobre meu corpo.

Isso porque, antes de entrar em Israel, eu havia visitado diversos países do mundo árabe: aparentemente, eles acharam que eu era um potencial terrorista.

E, na Índia, por sua vez, eu peguei uma infecção alimentar que me deixou de cama por uma semana: a doença me provocou uma sensação de quase morte nunca provada antes na minha vida. É preciso tomar muito cuidado com o que se come no país de Mahatma Gandhi.

São histórias que geraram pequenos traumas, mas que só apimentam o prazer incomensurável de viajar pelo mundo. Não troco por nada.