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Religião e natureza mostram como o Sri Lanka se recupera da guerra

Amy Karafin

New York Times Syndicate

23/05/2013 08h00

Assim que cheguei ao templo, um homem chamou a minha atenção e me levou ao santuário interno. O sol estava forte e fazia calor, mas estava ainda mais quente lá dentro, onde centenas de pessoas tinham se reunido para o festival.

Depois que passei pela multidão e entrei na câmara escura e enfumaçada, senti o ar mais fresco, impregnado dos aromas de manteiga queimada e coco. O deus hindu Murugan, popular entre os tâmeis do Sri Lanka, estava em sua alcova, enfeitado com guirlandas de flores e iluminado por dezenas de lamparinas. Não sou hindu; na verdade, estou mais para agnóstica, mas minha mãe estava doente e as vibrações ali eram muito fortes. Por isso, rezei.

Passei duas semanas na Península Jaffna em junho de 2012, na segunda visita a essa área de mil quilômetros quadrados, de beleza surreal, templos multicoloridos e paisagens espalhados pelo norte de Sri Lanka, e que recentemente se abriu ao turismo depois de 26 anos de guerra civil. Fui para lá pela primeira vez em 2011, para fazer pesquisa para um guia, mas a viagem tinha sido superatribulada; da segunda, queria explorar a região no meu próprio ritmo. Assim, me hospedei numa pensão em Jaffna, no litoral sudoeste da península, e passei todo o tempo visitando os templos e as ilhotas ao longo da costa.

Uma das primeiras coisas que fiz foi alugar um carro com motorista para cobrir os 16 quilômetros até o Templo Maviddapuram Kandaswamy, onde tinha sido muito bem recebida pela família do sacerdote da primeira vez. Os resquícios da guerra estavam por toda parte. Quando atravessamos o vilarejo de Maviddapuram, passamos por casas abandonadas e vi o mato crescendo nas antigas salas de estar, as árvores tomando conta dos cômodos.

O próprio templo ficou muito danificado com a guerra e ainda está sendo reconstruído. Grande parte da estrutura do século 17 desapareceu, embora o gopuram (torre) de 33 metros de altura, recoberto com imagens dos deuses, tenha sido reconstruído. Em todo lugar vi evidências da guerra civil que começou em 1983 e só terminou em 2009. Durante esse tempo, os militantes que queriam um estado tâmil independente no norte e leste (área que inclui a maior parte da península) entraram em confronto com o governo que, desde a independência do Reino Unido, em 1948, tinha sido dominado por uma política pró-cingalês.

Como o templo Maviddapuram fazia parte da "zona de segurança máxima" ocupada pelo Exército, os sacerdotes, além de milhares de famílias, foram despejados, e a estrutura, bombardeada e saqueada. Só agora as coisas estão começando a voltar ao normal e tanto religiosos como fiéis estão retornando e o templo, reconstruído, se reerguendo dos escombros.

A pouco mais de três quilômetros de distância fica Maviddapuram, o antigo Naguleswaram Shiva, também reformado: seu interior agora brilha com milhares de cores e a Fonte Keerimalai, cheia de pessoas em busca dos poderes de cura da água mineral. Há dez anos, os guias diziam que os visitantes podiam, se tivessem sorte, conferir a fonte depois de uma revista cuidadosa e com uma escolta armada. Hoje, entretanto, qualquer um é livre para visitá-la e aproveitar suas águas (há uma área reservada só para mulheres), pensando na princesa tâmil que descobriu a fonte sagrada no século 7.

Por toda a península, os danos causados pela guerra são óbvios, incluindo Jaffna, a maior cidade da região, com uma população de cerca de 90 mil habitantes. Durante o conflito, a capital, que também é o centro espiritual e intelectual do povo tâmil do Sri Lanka, ficou no fogo cruzado entre os separatistas e o governo, sendo que nenhum dos dois representava integralmente suas aspirações. Muitos acreditam que, embora a luta tenha acabado, o isolamento dos tâmeis no processo político continua.

De qualquer forma, a cidade agora está em paz e o perigo para os viajantes é mínimo. Durante minha estadia, evitei caminhar sozinha pelas ruas desertas da cidade à noite, mas nunca senti medo; ao contrário, os moradores ficaram felizes de saber que eu estava ali pela segunda vez.

Mesmo durante os poucos meses que se passaram entre as duas viagens, percebi muitas mudanças: o mercado ganhou mais lojas, pintadas com cores brilhantes, e os soldados não montavam mais guarda em toda esquina.

  • Amy Karafin/The New York Times

    Pessoas se banham na fonte Keerimalai, no Sri Lanka, em busca dos poderes de cura da água mineral

O cenário no centro – com fregueses pechinchando o preço das verduras, passageiros correndo para pegar o ônibus – era o que mais se aproximava do que se pode chamar de "multidão". Mulheres vestidas em sáris esvoaçantes e crianças de uniformes engomados se equilibravam nas bicicletas enquanto as adolescentes passeavam pela rua, de sombrinha, para se protegerem do sol.

A maior parte das ruas é arborizada, com as torres dos templos e das igrejas (legado dos portugueses) se destacando em quase todo quarteirão. Cafés à moda antiga como o Malayan, na área do mercado, servem "arroz e curry" (arroz com ensopado de lentilha e vários pratos vegetarianos) em folhas de bananeira, além de guloseimas do sul da Índia como "vadai" (um tipo de donut salgado feito com farinha de grão-de-bico, batata e especiarias) com chutney de coco apimentado.

As casas cheias de furos de balas no bairro dos pescadores, às margens da lagoa, continuam de pé, embora haja algumas novas, recém-construídas, pintadas de rosa com detalhes em verde. A biblioteca pública, símbolo da antiga tradição intelectual da cidade, foi incendiada em 1981, mas reconstruída e hoje está cheia de adolescentes estudiosos. O templo Nallur Kandaswamy, construção religiosa mais importante de Jaffna, inaugurou um novo gopuram, entalhado e dourado, no festival anual de agosto de 2011.

Fora da cidade, as ruas sombreadas dão lugar a uma série de estradas rústicas, pontes de mão única e picadas de terra que atravessam ilhas, penínsulas e torrões de terra no Estreito de Palk. Ali, salinas e campos abertos são pontilhados de palmeiras e árvores de magnólia, arbustos cheios de flores roxas e vaquinhas tranquilas pastando. A água nunca está muito longe e é uma paisagem completamente diferente do litoral tropical e das florestas montanhosas do sul de Sri Lanka.

O isolamento e o sossego das ilhas (há oito principais e várias menores na costa sudoeste de Jaffna) lhes emprestam um ar selvagem. A povoação, quando existe, é esparsa, legado da guerra, quando a travessia de barco era restrita e a energia era cortada. A ilha de Analaitivu, por exemplo, tem apenas mil habitantes que ganham a vida pescando, criando gado ou trabalhando em Jaffna.

Durante uma semana explorei as ilhas, cobertas de palmeiras, verdadeiro paraíso para pássaros azuis e verdes. Neduntivu, também conhecida como Delft, é uma das maiores, com 51 quilômetros quadrados e uma paisagem surreal: areia e coral brancos no chão, um antigo baobá, palmeiras e cercada de água azul transparente. Numa praia deserta, vi dois adolescentes banhando seus cavalos no mar; não muito longe dali, pôneis selvagens (supostamente descendentes de montarias holandesas) passeavam, ao lado das vacas, nos campos ensolarados.

Pode-se chegar a todas as ilhas de ônibus ou nos barcos que saem dos portos de Velanai e Punkudutivu, localizadas no sudoeste de Jaffna. Embora a maioria possa ser explorada a pé, nas maiores vale a pena alugar um riquixá ou, como fiz em Neduntivu, uma caminhonete.

Enquanto viajávamos, meu motorista, o simpático Shiva, foi me explicando o significado das lendas locais: um grupo de poços construídos pelo demônio, uma pegada no chão deixada pelos habitantes originais (com mais de 12 m de altura) e uma rocha viva, que cresce a cada ano.

Shiva também contou como era a vida durante a guerra – obedecendo ao toque de recolher que acontecia às seis da tarde, ouvindo as batalhas que aconteciam à noite. A explosão de cores e a devoção no templo Nagapooshani Amman, na vizinha Nainativu, estão à altura da beleza rústica de Neduntivu. Na minha viagem anterior, um astrólogo me disse que orações especiais nos templos de Nainativu e Analaitivu, mais ao norte, ajudariam a curar a minha mãe.

  • Amy Karafin/The New York Times

    O colorido templo de Nagapooshani Amman, na ilha Nainativu, no Sri Lanka, visto por dentro

Na visita atual, o primeiro estava em festa quando cheguei: imagens dos deuses desfilavam sobre palanques decorados, recebidas com chuvas de flores e muita música ao vivo. Os devotos seguiam a procissão, muitos com magnólias e buganvílias no cabelo. Eu me juntei a eles e pedi bênçãos à deusa Nagapooshani.

O templo de Analaitivu, que visitei no dia seguinte, não poderia ser mais diferente. Ali, não há muitos turistas; a ilha é minúscula, com uma única linha de ônibus e uma beleza serena. Um riquixá me levou pelas estradas de terra sinuosas, que cortavam as florestas luxuriantes, ao templo Puliyantivu Nageswaram, onde vive o deus-serpente Nagathambiran, localizado numa clareira no extremo sul da ilha, de frente para o mar. Os zeladores, idosos, não falam inglês, mas sorriram e abriram as portas do santuário para mim.

Os templos de Sri Lanka são convidativos. Os sacerdotes sempre me receberam bem, me oferecendo pedaços de pano para amarrar nas árvores de orações ou me guiando minhas rezas. As mulheres puseram pó de cúrcuma na minha testa e me mostraram quando pegar a água benta e quando colocar dez rúpias na bandeja, mas cheguei em Puliyantivu numa hora meio estranha e, embora estivesse tudo tranquilo, não soube exatamente como me aproximar do deus.

Foi então que me lembrei do que o sacerdote de Maviddapuram me disse quando perguntei como uma pessoa não hindu poderia rezar a Murugan pela cura de sua mãe. "Feche os olhos e fale com ele, peça sua ajuda, só isso. Ele vai ouvi-la", ele me garantiu. Então, com a luz do sol batendo no templo e o barulho das ondas à distância, foi exatamente o que eu fiz.
 

Se você for

Brasileiros precisam do visto de turismo do Sri lanka para entrarem no país. O procedimento é todo online e pode ser feito a partir do site www.eta.gov.lk/slvisa/

Embora o número de pensões em Jaffna tenha disparado, a maioria tem apenas os confortos básicos.

Em Jaffna, a Manattrii (250 Palaly Road, Kandarmadam; 94-21-320-7665; manattrii.com), uma casa do século 19, toda reformada, oferece quatro quartos mobiliados com móveis antigos (a partir de 3.500 rúpias ou US$ 28 com o dólar a 123 rúpias) e alguns dos melhores pratos tradicionais da região.

O hotel mais bem equipado é o Expo Pavilion (40 Kandy Road, Chundikulli; 94-21-222-3790; expopavilion@expoavi.com), onde as diárias de quartos duplos começam a partir de 9.200 rúpias.

Jaffna é conhecida pelas mangas Karuthakolamba; na feira, em julho e agosto, há pilhas delas, além do açúcar mascavo de palmeira-de-palmira que você pode levar para casa (aproveite também para levar "suruthus", os charutos tradicionais locais).

O aluguel de carro com motorista custa entre 5 mil e 6 mil rúpias e pode ser arranjado através das pensões.