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Uma viagem de 65 km e quatro dias pelas melhores praias do Piauí

Seth Kugel

New York Times Syndicate

19/11/2012 14h02

Quatro burricos comendo alga marinha logo cedo. Um adolescente no mar, dançando entre uma onda e outra. Um velhinho sacudindo um coqueiro. Uma cidadezinha inteira com sérios problemas para escrever "crepes".

Esses foram os destaques da minha viagem, no mês passado, pelos mais de 65 quilômetros do litoral do Piauí, estado nordestino que mal é registrado no consciente brasileiro, que dirá nos guias de turismo.


Por que eu faria tal coisa? Tudo começou com uma bronca pessoal e uma imaginação excessivamente fértil. Tinha me deparado com mais um daqueles artigos tipo "as melhores praias do mundo", um conceito que me irrita muito. Quem tem autoridade suficiente para fazer uma declaração dessas? Para criar uma lista desse tipo, seria preciso visitar todas as praias do mundo (tarefa impossível até para os mais fanáticos por sol).

Aí eu me lembro de ter olhado, cheio de curiosidade, para o minúsculo litoral do Piauí no mapa. Praticamente todo no interior, o estado só tem o dedinho no Oceano Atlântico, espremido entre destinos mais badalados como o Maranhão e o Ceará. Eu poderia muito bem caminhar por toda a extensão de seu litoral e afirmar, com absoluta autoridade, qual é a "Melhor Praia do Piauí".

Dei zoom na região no Google Maps e fui para as imagens de satélite. Além de dois rios, nada mais interrompe a longa faixa de areia – nada de despenhadeiros, portos ou bases navais. Embora eu não seja um caminhante fanático, imaginei que quatro dias seriam suficientes para cobrir os 65 quilômetros e pouco, principalmente porque o terreno é plano (coisa interessante, o mar – ele é sempre no nível do mar).

Imprimi o mapa e decidi não fazer mais nenhuma pesquisa – tanto para aumentar o clima de aventura como não influenciar a minha escolha – e fiz uma reserva num voo de São Paulo a Teresina, capital do Piauí, cidade que fica a seis horas de Parnaíba, pertinho do litoral. De lá, peguei uma van lotada para Porto dos Tatus, que fica rio acima em relação ao meu local de partida: o extremo noroeste da Ilha Grande.

Porto dos Tatus é para onde os barcos levam os turistas nos passeios pelo delta do Parnaíba. Um guia chamado Bal concordou em me levar ao pontinho que lhe mostrei no mapa por 150 reais (também achou que eu estava ficando maluco, mas dinheiro é dinheiro). Uma hora e pouco de travessia pelos mangues, e ali estávamos nós. Eu me cobri de protetor solar enquanto Bal amarrava minhas duas garrafas d'água com um cadarço para que eu pudesse levá-las penduradas no pescoço. Depois, foi só pegar a minha mochila (com câmera, lanterna, escova de dente e duas mudas de roupa), e pé na estrada.

O areal aberto – não havia árvores perto da água – parecia desencorajador sob o sol escaldante e a temperatura acima dos 30° C, mas uma brisa fresca começou a soprar, aliviando o calor. O meu objetivo era chegar ao outro lado da Ilha Grande até o final do dia e atravessar o rio para chegar a Luis Correia, a cerca de 19 quilômetros. Bal disse que eu passaria por um vilarejo no meio do caminho, Pedra do Sal, onde poderia almoçar. Por enquanto, a areia e as poças de água do mar no horizonte eram só o que eu conseguia ver. E eu de chinelo de dedo pela areia dura.

A princípio, as únicas atrações eram os bandos de pássaros no céu e os desenhos em preto/branco/bege na areia, que pareciam feitos no computador - mesmo assim, era muito legal poder conferir a paisagem real depois de estudar as imagens de satélite durante semanas.

A cada quilômetro e meio, mais ou menos, eu encontrava seres humanos: pescadores na água jogando e recolhendo suas redes, tão concentrados na tarefa que não pareciam dispostos a bater papo. Encontrei uma tartaruga marinha morta sendo devorada pelos urubus – que também não estavam a fim de conversa – e a cada cem metros, mais ou menos, via o corpo de uma água-marinha rosa e roxa, murcha como um balão Hello Kitty deformado. Essas novidades ajudavam a passar o tempo mais rápido.

Cheguei a Pedra do Sal depois de algumas horas e bati um prato de peixe frito e batata doce por 27 reais na barraquinha Bar Farol onde, num dia de semana, eu era o único cliente - até a chegada de cinco cachorros de rua supereducados à procura de comida.

À tarde, as novidades continuaram. Vi as turbinas eólicas que se estendiam a leste da cidadezinha, prova de que o ventinho fresco que eu achava ser sorte minha, na verdade fazia parte da experiência. Aí fiquei assustado quando a luz do dia começou a piscar feito uma vela trêmula. Depois de uns cinco segundos de confusão – Será que eu estava desmaiando? Era o fim do mundo? – olhei para cima e percebi que um dos monstrengos girava bem na linha entre mim e o sol que se punha.

A noite caiu bem quando cheguei ao rio que separa a Ilha Grande de Luis Correia, e aí era hora de usar a lanterna. Podia ver as luzinhas do vilarejo brilhando na outra margem do rio, mas na ilha não havia vivalma. Hora de dormir debaixo de uma árvore, pensei, quando vi um acampamento à distância.

Sorte minha que as cidadezinhas são modorrentas. Três adolescentes que não tinham nada para fazer em Luis Correia tinham atravessado o rio para pescar e estavam assando o (único) peixe numa fogueira. Eles se prontificaram para me levar até a outra margem e, antes que me desse conta, lá estava eu subindo na precária jangada (que não era nada além de metro por metro e meio de tábuas), movida por um mecanismo de remo de leme que não entendi muito bem. Na verdade, só topei porque sabia que poderia nadar até a outra margem se alguma coisa acontecesse. Apesar da desconfiança, chegamos do outro lado e não demorei nada para descobrir um quarto básico por 40 reais na Pousada Boa Esperança e um saborear um "arrumadinho" – arroz, feijão e carnes variadas - na barraquinha Bom Lanches.

Na manhã seguinte, parti para a Praia do Atalaia, uma faixa de areia que, apesar da aparência deprimente, parecia ser bem popular, cheia de restaurantes e bares que ficam lotados no fim de semana. Notei também um detalhe bem interessante: espalhados na frente de vários quiosques havia placas anunciando "krep's". Não era crepes, nem krepes, creps ou mesmo kreps, mas krep's, com apóstrofe mesmo.

Depois de alguns quilômetros, cheguei à Praia dos Coqueiros e aí os belos resorts e pousadas começaram a pipocar. Parei para almoçar no Alô Brasil, um restaurante decorado com palmeiras e uma comida bem cara (um prato de caranguejo e outro de peixe, mais bebida, saíram por 60 reais).

Enquanto descansava os músculos doloridos, percebi que estava me divertindo a valer. É incrível como as coisas pequenas – uma tartaruga morta, um erro ortográfico, três garotos assando peixe – são mais fascinantes quando imprevisíveis.

Quando pus o pé na areia de novo, outra atração surgiu bem na minha frente: um garoto de 17 anos chamado Antônio Max, girando sobre a cabeça à beira d'água.
"Estou praticando o meu hip-hop", explicou ele, pronunciando "ripi rópi", como todo brasileiro tende a falar.

  • Seth Kugel/The New York Times

    Kite surf em barra Grande, no Piauí


Parei para dormir em Maramar, uma vila minúscula onde, chocado, descobri que havia uma pousada. Seu nome explicava tudo: Kite Pousada, que fazia parte do cenário emergente do kite surf da região. Era administrada por mãe e filho, que me cobraram 70 reais por um quarto – achei meio caro, mas estava cansado demais para discutir preço.

Hospedados ali estavam os únicos estrangeiros que encontrei ao longo de todo o percurso: uma equipe de kite surf formada por um finlandês, um inglês, um canadense e um italiano. Juntos, comemos no único quiosque da praia (e dá-lhe peixe e batata doce). Eles me explicaram que a região era famosa pelos ventos e se mostraram curiosos com a minha caminhada - já que eu ia de oeste para leste.

"É, estou indo contra o vento", reconheci. "Sei que foi um erro."

"Um erro bem grande", conformou o italiano.

Tudo bem. Na manhã seguinte, deixei os gringos para trás e pensei em ir direto para a próxima cidade, Macapá, onde, segundo me disseram, seria mais fácil encontrar um pescador que se dispusesse a me ajudar a atravessar o segundo rio, até Barra Grande - mas, de novo, uma visão inesperada me pegou de surpresa: na areia branca de uma pequena enseada, uma família de quatro burricos comia alga marinha.

Pensando bem, eu não devia me espantar. Os animais vivem soltos em toda a região e se alguém me perguntasse, hipoteticamente, se jumento come alga marinha, eu diria que sim - mas, por alguma razão, fiquei maravilhado. Tirei fotos. Por um momento, desejei estar começando uma banda para poder chamá-la de Jumentos Comem Alga.

Saindo do transe, caminhei até a foz do rio Macapá, onde um banco de areia formava um tipo de semilagoa. Observei dois kitesurfers deslizarem na água e levitarem, alcançando alturas impensáveis para depois aterrissarem suavemente. Legal. Não tão legal quanto os jumentos comendo alga, mas achei bem bacana.

Com uma ajuda minha no remo, um pescador chamado Francisco me levou até a outra margem do rio, em Barra Grande, por 20 reais.

 

  • Seth Kugel/The New York Times

    Barraquinha vende crepes em Luís Correia, no Piauí


Descobri uma casa de crepes que estava aberta – o Bar e Restaurante O Tutuca. Quando atravessei o Macapá, deixei para trás o município de Luis Correia e seus erros de ortografia, mas não devia ter me surpreendido ao ver que o dono, que atende pelo apelido de Tutuca, resolveu anunciar seu produto como "creps".

Fiquei observando enquanto ele despejava a massa em moldes ovais do que parecia uma máquina de waffles, para depois cortar fatias de salsicha e queijo e colocá-las no meio da mistura, cobrindo com mais massa e fechando a tampa. O resultado era uma panqueca recheada com cara de picolé. Uma delícia.

Minha intenção era chegar a Cajueiro da Praia até o fim do dia e devo confessar que não via a hora, mas meu ritmo estava mais lento por causa das bolhas e dos músculos cansados. Mesmo assim, no meio da tarde eu já devia estar perto de algum lugar, mas não havia nem uma alma viva para quem perguntar - isto é, até eu me deparar com uma casa simples, à beira d'água, protegida por uma cerca rústica. Dava para ver que era uma residência e não uma casa comercial. Resolvi bater.

Nem precisou porque ela já estava aberta e Francisco Alves Ferreira, de 70 anos, estava lá dentro assistindo à partida entre Brasil e Iraque, sem camisa. Olhando para a pele escura de seu peito, imaginei se ele tinha uma.

Segundo ele, eu estava bem perto de Cajueiro da Praia: "Mais uns dez minutos e você já começa a ver as casas; aí, mais dez minutos dali até o centrinho."

Agradeci e ele me perguntou se eu queria alguma coisa para beber. Sem esperar resposta, Francisco pegou uma vara e uma machadinha e me levou para o quintal, onde cutucou um coqueiro, pegou o coco, abriu e me deu. Enquanto eu bebericava, ele me contou que tinha sete filhos e mais de doze netos, todos espalhados pela região.

Francisco estava certo; levei 25 minutos para chegar a Cajueiro da Praia, onde me hospedei na Pousada Lu (30 reais) antes de percorrer o último trecho da costa na manhã seguinte, terminando minha viagem numa fazenda de camarões que, segundo os funcionários, exportava para os EUA e China.

Para ser sincero, tinha me esquecido do meu objetivo inicial, que era descobrir a melhor praia do Piauí - mas tudo bem, não daria para escolher só uma mesmo. Depende, é claro, de cada pessoa e do que ela quer.

Só posso dizer que se você procura aquela praia tropical clássica, vá para Coqueiros; se estiver em busca de solidão, os primeiros quilômetros de Ilha Grande são ideais; se for um kitesurfer, vá para Barra Grande - e se você for Francisco Alves Ferreira, fique na praia sem nome (pelo menos que eu saiba), com cocos ótimos, que fica a dez minutos a oeste do ponto em que você começa a ver as casinhas de Cajueiro da Praia.