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França institui passaporte sanitário e governo responde aos antivacinas dizendo que "não há ditadura"

O passaporte sanitário europeu comprova uma vacinação completa, uma cura ou um teste negativo de menos de 48 horas - AFP
O passaporte sanitário europeu comprova uma vacinação completa, uma cura ou um teste negativo de menos de 48 horas Imagem: AFP

21/07/2021 10h31

A partir de hoje, o passaporte sanitário passa a ser obrigatório na França para frequentar cinemas, teatros, museus, parques de diversão, zoológicos e piscinas públicas. Os franceses têm agora de apresentar uma prova de vacinação ou um teste negativo de Covid-19 recente para acessar inúmeros locais de lazer, no momento em que explode o número de contaminações devido à variante Delta.

Os casos registrados pela nova variante continuam em forte alta no país, com 18.000 contaminações na terça-feira (20), o dobro em relação à semana passada. "Ela é majoritária e a diferença é que [a Delta] é mais contagiosa, por isso um aumento de 140% numa semana", disse em entrevista à TF1, esta tarde, o primeiro-ministro Jean Castex. Mas "há outro número que caracteriza a situação atual: 96% dos novos casos registrados são de não vacinados", insistiu. "O mundo é confrontado a uma quarta vaga e temos que reagir e a chave é a vacina", completou Castex.

"Um passaporte sanitário é uma incitação à vacinação e um meio de deixar abertos, o maior tempo possível, os lugares que, sem o passe e com aumento da epidemia não poderiam estar abertos", explicou Castex. "Ajudem-nos a conseguir reabrir", pediu, numa mensagem endereçada aos antivacinas.

"O governo não pode negligenciar aqueles que não querem se vacinar ou estão indecisos", disse Castex. Mas as autoridades não vão tolerar "quem usa ideologias políticas contra as vacinas. Não é possível comparar [o passaporte] com a estrela [de Davi amarela] portada pelos judeus ou colocar fogo em postos de vacinação, isso não pode", reagiu. "Isso não é uma ditadura, não há uma minoria que se impõe sobre a maioria", completou, anunciando uma semana de pedagogia antes do início das sanções.

Enquanto o governo já fala oficialmente em uma "quarta onda" da epidemia, o impacto dela sobre o sistema hospitalar ainda é "incerto". Neste momento, o surto de contaminações atinge, sobretudo, os jovens. Porém, "já houve um aumento, por 10 dias consecutivos, no número de internações" de Covid-19, alertou, nesta terça-feira, o ministro da Saúde, Olivier Véran.

O passaporte sanitário passa a ser exigido em locais de lazer e cultura que reúnam mais de 50 pessoas (contra 1.000 anteriormente). Na tarde desta quarta-feira, a Assembleia Nacional analisará o projeto de lei que amplia, no início de agosto, a obrigatoriedade do passaporte sanitário para cafés, restaurantes e trens. O primeiro-ministro, Jean Castex, disse ainda, que pretende consultar o Conselho constitucional sobre a extensão do passe sanitário a fim de dirimir as críticas sobre falta de liberdades.

Cultura ainda reabrindo

O anúncio do passaporte sanitário e os apelos das autoridades pela imunização provocaram uma corrida aos locais de vacinação, mas foi uma ducha de água fria para quem trabalha no ramo da cultura, que luta para se reerguer, após vários meses de portas fechadas.

Para Richard Patry, presidente da Federação Nacional dos Cinemas Franceses, os cinemas são "tratados como maus alunos", embora não haja nenhuma fonte de contaminação identificada. Como administrar no Grand Rex, em Paris, "1.200 pessoas quando os espectadores chegam quinze minutos antes, e precisamos de 20 a 25 segundos para controlar cada pessoa? ", ele questiona.

Para lidar com essas novas restrições, a Torre Eiffel planejou oferecer testes de antígeno para todos os visitantes sem passe de saúde (grátis para franceses, mas pagos para os estrangeiros).

Teatros e festivais de verão acontecem entre o medo de contaminações, de uma queda no público e a esperança de que a medida não desanime os espectadores.

No programa "Off" do festival de teatro de Avignon, que acontece no sul da França até 31 de julho, e tem mais de mil apresentações, os organizadores dizem "cruzar os dedos para que o passaporte sanitário cause o menor dano possível". "Após o anúncio, houve uma queda real nas reservas", disse Nikson Pitaqaj, vice-diretor da associação que administra a programação paralela. Quase metade dos 108 teatros têm capacidade para mais de 50 lugares.

O primeiro-ministro francês informou que prefeituras podem decidir por medidas extras para frear a epidemia, como porte de máscara generalizado em certas regiões ou locais de grande circulação. Outra opção é o fechamento de restaurantes às 23 horas, nos locais mais afetados. Jean Castex descartou, inicialmente, a volta do toque de recolher generalizado.

Adolescentes terão prazo de carência

Com relação aos adolescentes (12-17 anos), que pela proposta do governo estavam isentos do passaporte sanitário até o fim de agosto, terão até setembro de prazo, após reunião, esta manhã, do Conselho Científico. Castex anunciou um grande dispositivo de vacinação dentro das escolas, direcionado a esse grupo, na volta às aulas, em setembro. Os colegiais não precisarão de passaporte sanitário nas escolas.

Antes disso, para os que partem de férias, o primeiro-ministro disse que "o objetivo é proporcionar todas as formas de reduzir os riscos". Por isso, ele anunciou a abertura de 5 milhões de novos horários para marcação de vacina, nos próximos 15 dias. A meta é aplicar 4 milhões de doses por semana, atingindo um total de 40 milhões de pessoas com a primeira vacina até o fim de julho e 50 milhões, até o fim de agosto.

Além disso, Castex pediu aos cerca de 3 milhões de franceses, com mais de 50 anos e que apresentam comorbidades, mas que ainda não estão vacinados, a procurarem os centros de vacinação, pois eles podem desenvolver formas graves da doença.

Diferente do que acontecia até então, as pessoas vacinadas não são mais consideradas como casos contatos na França. "Quem tem duas doses, quando cruza com um contaminado não precisa mais se isolar, pois tem poucas chances de pegar a doença", afirmou o primeiro-ministro.