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Restaurantes virtuais nascem na pandemia para suprir demanda cada vez maior

Restaurantes surgem no mundo digital para sobreviverem à pandemia da covid-19 - Getty Images
Restaurantes surgem no mundo digital para sobreviverem à pandemia da covid-19
Imagem: Getty Images

Rafael Tonon

Colaboração com Nossa

11/03/2021 04h00

É preciso se adaptar às situações. Em tempos em que as restrições têm dificultado o trabalho dos restaurantes de atender seus clientes, muitos estão migrando para o universo virtual.

Com mais pessoas em casa dispostas a manter o distanciamento social, o delivery se tornou um negócio para muitos negócios (ainda que, em muitos casos, não represente nem 30% do faturamento total).

Pensando nisso, alguns empresários do setor têm criado marcas que só existem nos aplicativos de entrega, ao alcance de alguns cliques na tela do celular. São os restaurantes virtuais, que se tornaram uma tendência crescente na era da covid-19.

Isso não significa apenas ter uma cozinha sem clientes e sem garçons (também conhecidas como "ghost kitchens") para preparar os pratos enviados por delivery: significa desenvolver logomarca e conceitos que não existem fisicamente.

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As saladas da Salad Stories - Divulgação - Divulgação
As saladas da Salad Stories
Imagem: Divulgação

A Liv Up, startup que ficou conhecida por preparar e entregar refeições saudáveis e congeladas a seus clientes em mais de 50 cidades no Brasil, decidiu seguir a toada.

Em março, antes mesmo da pandemia ser decretada pela OMS (Organização Mundial da Saúde), eles criaram a Salad Stories, um conceito focado em saladas feitas com ingredientes frescos.

Com o iminente crescimento da empreitada, veio a ideia de expandir a atuação no mercado virtual para atender os clientes em outros momentos de consumo, e tiveram a ideia da Brotto, uma pizzaria natural e saudável.

"As duas marcas existem só virtualmente, já que utilizamos a mesma estrutura de cozinha onde fazemos as refeições congeladas. Foi uma forma de otimizarmos tudo, dos ingredientes à equipe para criar novas formas de nos relacionar com os clientes", afirma Tatiana Lanna, diretora de negócios da Liv Up.

Para ela, a marca conseguiu se adaptar bem com os dois novos projetos por já ter nascido de forma digital há cinco anos. Nesse caso, o maior desafio, segundo Lanna, é conseguir oferecer boa experiência sem a presença física do cliente.

"O fato de a Liv Up já ser conhecida nos trouxe mais confiabilidade, mas apostamos em embalagens, por exemplo, que seguem os conceitos das marcas, que possam falar mais sobre quem somos", explica.

Brotto, pizzaria natural e saudável da Liv Up - Divulgação - Divulgação
Brotto, pizzaria natural e saudável da Liv Up
Imagem: Divulgação

Por terem uma preocupação de trabalhar com pequenos produtores e privilegiar os orgânicos, tiveram que buscar embalagens compostáveis e mais sustentáveis para deixar claro o posicionamento.

"Outra coisa que apostamos é na nossa comunicação digital, tanto nas redes sociais ou com QR code que levam nossos clientes a conhecerem mais dos nossos processos", conta ela.

Essa interação digital também é uma ferramenta para ter uma resposta mais imediata da aprovação ou não por parte dos clientes em receitas, novidades.

Por sermos virtuais, é muito mais fácil testar uma categoria nova antes mesmo de criar uma marca, um restaurante. Temos uma agilidade que não existe na forma física".

Experiência mais livre

Um dos maiores grupos de restaurantes do Brasil, a Cia Tradicional de Comércio, que já tem experiência de anos com delivery através de suas marcas, como a Bráz, por exemplo, desenvolveu o Devoro, sua primeira experiência virtual multimarca.

Através de uma mesma plataforma nos aplicativos, é possível pedir um hambúrguer da Lanchonete da Cidade, uma pizza da Bráz ou até coquetéis do Astor — para citar alguns dos restaurantes físicos que o grupo possui.

Opções da Devoro - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Opções da Devoro
Imagem: Reprodução/Instagram

"Percebemos que temos marcas que são complementares, que se conversam, e quisemos oferecer a chance dos clientes poderem pedir produtos diferentes para atender todos os gostos", explica Ricardo Garrido, um dos sócios da companhia.

Para ele, é um diferencial e tanto para o consumidor que está em casa com a família, e cada um quer comer uma coisa. Ou no escritório com um grupo diferente de trabalho.

"Temos pensado mais em delivery e como atender nossos clientes nesse cenário atual. Quisemos apostar em algo que fosse relevante para eles, que desse mais poder de escolha", afirma.

No menu conjugado, são mais de 70 opções entre entradas, pratos e bebidas. Garrido acredita que uma percepção do grupo foi de que o delivery não pode querer emular o restaurante, e por isso a experiência pode ser mais livre.

A pandemia transformou a entrega em um serviço mais querido pelo consumidor final. Muita gente entendeu melhor esse canal virtual, um serviço que acolheu e salvou as pessoas para terem um momento mais gostoso de comer em casa", diz.

Tendência mundial

Tanto é que o mercado tem se movimentado cada vez mais forte nesse sentido. Startups focadas em restaurantes virtuais têm atuado em diversas partes do mundo, da Europa aos EUA, para surfar a onda crescente.

Montagem das saladas do Salad Stories - Divulgação - Divulgação
Montagem das saladas do Salad Stories
Imagem: Divulgação

Uma delas é a CloudKitchens, fundada pelo ex-executivo da Uber Travis Kalanick. O objetivo da empresa é incubar restaurantes virtuais e medir sua aceitação no mercado para serem lançados.

Isso significa que uma pizzaria que já atenda no delivery possa criar outras marcas (inclusive de pizzas) para ganhar mais visibilidade nas plataformas. Com algumas mudanças de menu e de ingredientes, o dono de um restante físico pode ter até meia dúzia de marcas num aplicativo, aumentando as chances de chamar a atenção dos clientes.

Mesmo os aplicativos de entrega, como o Uber Eats, passaram a criar marcas virtuais próprias, em parcerias com restaurantes ou chefs. O Oteque, do chef Alberto Landgraf, no Rio de Janeiro, por exemplo, criou uma marca com menu mais casual (chamada Oteque @Home) para permitir que sua comida chegasse à casa das pessoas pelo iFood.

A plataforma Deliveroo, na Inglaterra, tem investido em dark kitchens para testar novos projetos em parceria com clientes. Através de big data, eles coletam ideias de oportunidades e as desenvolvem com seus parceiros.

Por exemplo, ao perceber que a demanda por frango assado tem aumentado em uma cidade, trabalham com algum restaurante para viabilizar a oferta e a entrega do produto pelo aplicativo. Em tempo real, conseguem criar restaurantes virtuais que podem durar meses ou poucas semanas sem prejuízo aos empresários.

Refeição a um clique surge como opção na pandemia - Getty Images - Getty Images
Refeição a um clique surge como opção na pandemia
Imagem: Getty Images

Fim do restaurante "presencial"?

Para Ricardo Garrido, não há dúvida de que vão continuar nascendo produtos, marcas e operações pensadas somente para o meio virtual. "Houve uma quebra de barreira, as marcas de delivery ganharam mais simpatia dos clientes", ele afirma.

Mas ele não tem dúvidas de que os restaurantes "reais" voltarão com ainda mais força quando superarmos a pandemia e houver uma maior confiança das pessoas saírem de casa.

"Acho que percebemos como nunca como ir a bares e restaurantes é algo importante no nosso cotidiano. Vamos querer mais do que nunca ter de volta esse prazer de congregar com as pessoas para comer e beber", aposta.