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Cozinhar foi a virada profissional de muita gente durante a pandemia

A pandemia tem sido um tempo de incerteza, mas também de oportunidades para quem quer trabalhar com comida - Getty Images
A pandemia tem sido um tempo de incerteza, mas também de oportunidades para quem quer trabalhar com comida
Imagem: Getty Images

Rafael Tonon

Colaboração para Nossa

07/07/2020 04h00

Os tempos de confinamento levaram muito gente à cozinha: até quem não estava tão acostumado a se dedicar às panelas se viu obrigado a preparar suas próprias refeições. Para algumas pessoas, inclusive, pela primeira vez.

Mas há quem tenha vislumbrado no ato de cozinhar uma forma de se manter produtivo — e até de mudar os rumos profissionais ou ganhar um dinheiro durante a pandemia.

Com o número de informais a crescer no mercado e com profissionais sem trabalho por conta das medidas de distanciamento social, a cozinha passou a ser uma óbvia alternativa para muitos. Até porque subitamente começamos a passar muito mais tempo nela.

Enquanto alguns se dedicaram a aprimorar receitas pensando em um plano B para o futuro, outros passaram a cozinhar suas "especialidades da casa" para alimentar amigos e conhecidos — e ganhar com isso. Mas há quem tenha aproveitado o tempo parado até para iniciar um novo negócio.

Nova fonte de renda

A atriz Carol Badra, que usou a pandemia para ter uma nova fonte de renda - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
A atriz Carol Badra, que usou a pandemia para ter uma nova fonte de renda
Imagem: Arquivo pessoal

Para a atriz Carol Badra, as horas na cozinha têm revertido em um bom fôlego financeiro. Com três espetáculos cancelados desde que o confinamento foi imposto em São Paulo e consequentemente com mais tempo, ela aproveitou os momentos que passava cozinhando para o marido, a filha e os pais para atender o pedido de tios, primos e amigos que começaram a surgir.

"Passei a me organizar alguns dias da semana para atender a demanda. Eu adoro cozinhar e achei que poderia ser uma boa oportunidade.

Minha ideia nunca foi ter um negócio de fato, é uma proposta de cozinha caseira para amigos e familiares durante esse período", diz.

O foco são as receitas afetivas, como o quibe, que se tornou sua especialidade, e a canja "que sempre foi uma comida de cura, reconfortante". "Como passei a fazer isso a pedidos, também adaptei algumas receitas, como fazer versões vegetarianas e veganas, diversificar os sabores da sopa para outras de legumes", conta.

As divulgações são feitas sempre pelo WhastApp apenas para conhecidos. As entregas feitas de carro somente por ela ou por um amigo ator com quem passou a dividir também a tarefa de cozinhar em casa.

Canjas e sopas feitas pela atriz Carol Badra - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Canjas e sopas feitas pela atriz Carol Badra
Imagem: Reprodução/Instagram

"É uma coisa muito informal, até as embalagens de papel kraft passamos a fazer em casa, com a ajuda da minha filha e do marido", comenta. "É ele que ficou até com a parte logística, de criar as rotas de entrega".

Para produzir as refeições, Carol conta que toma todo o cuidado de higienização: limpa a cozinha antes de começar os preparos, usa sempre máscara e veste seu uniforme de cozinheira. "Por mais que seja uma coisa caseira, eu me coloco em 'cena' assim e faço todo o ritual como se eu estivesse no teatro", diz.

Como nas peças, em que o texto é sempre o mesmo, as receitas também são, ainda que minimamente diferentes, já que Carol não segue medidas exatas. "Sempre tem um pouco mais de sal aqui, menos pimenta ali", brinca. A produção semanal de cerca de 50 sopas e 60 quibes é prova que o novo papel se tornou mesmo um sucesso de público.

Virada de jogo

Henrique Rohlfs e Aryana - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Henrique Rohlfs e Aryana
Imagem: Arquivo pessoal

No caso do casal Aryana e Henrique Rohlfs, de Belo Horizonte, a abertura de um negócio ainda segue no plano dos sonhos. Mas as semanas de quarentena serviram para fazer testes e mais testes de produtos e aprimorar algumas ideias do que os dois esperam um dia comercializar.

"Somos apaixonados pela gastronomia, nossa vida de casal sempre foi reunida ao redor do fogão", conta ela, que é cozinheira. Em casa, eles decidiram juntar a experiência dela em alta gastronomia com os cursos que ele, engenheiro, fez de cerveja e charcutaria.

"Nossa primeira experiência foi na fabricação de cervejas, em estilos que gostamos como Altbier, Saison e DIPA, basicamente para consumo próprio e dos amigos", ela diz. Durante o isolamento também iniciaram a produção de embutidos defumados. "Agora nosso próximo desafio está nos curados e maturados", adianta.

Embutidos e cervejas estão entre os produtos que o casal planeja vender - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Embutidos e cervejas estão entre os produtos que o casal planeja vender
Imagem: Arquivo pessoal

Aryana conta que foi um treinamento intensivo. "Erramos muito no começo, tivemos carne salgada, cerveja com alguns defeitos e até alguns desperdícios. A família tem provado e aprovado, e já temos ideias de um amigo fazendeiro que nos propôs a criação de porcos para melhorar a qualidade dos embutidos", conta.

Ela diz que ainda não estruturaram todo o negócio, mas que a pandemia mostrou um lado frágil das profissões "e a necessidade de plano B" que pode estar ali, mais perto do que se pensa.

Nosso objetivo é refinar a qualidade, fazer produtos que só vimos fora do Brasil e que futuramente possam virar uma fonte de renda ou negócio", diz.

"Pãodemia"

O cozinheiro João Figueiras - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
O cozinheiro João Figueiras
Imagem: Arquivo pessoal

Desde que regressou a Portugal depois de viver no Brasil por quatro anos, o cozinheiro João Figueira da Silva viveu no interior do país trabalhando na Herdade do Esporão, no Alentejo, até ser transferido para um restaurante do mesmo grupo recém-aberto no Porto.

Mas veio a pandemia e ele se viu obrigado a ficar em casa em regime de layoff (recebendo o salário mesmo sem poder trabalhar). Para "manter a sanidade", Figueiras decidiu colocar em prática muitos dos ensinamentos de panificação que foi adquirindo ao passar por diversos restaurantes, de Copenhague a São Paulo.

Eu já gostava muito, mas de volta a Portugal fui acometido de vez pela paixão pelo pão. Em casa, passei a criar receitas para mim e para minha esposa, depois presentear familiares e alguns amigos com as experiências", conta.

O feedback foi tão positivo que ele resolveu que era hora de testar a viabilidade de ter uma padaria artesanal. A esposa arquiteta criou um logo, eles abriram um perfil no Instagram para a Farro (como batizaram a marca) e passaram a vender alguns pães para conhecidos.

No princípio, era mais uma aposta para ver como as coisas evoluíam e depois, quando tudo estivesse mais consolidado, ele poderia deixar o emprego para se dedicar somente aos pães.

Pão do Farro - Divulgação - Divulgação
Pão do Farro
Imagem: Divulgação

Mas as fornadas não deram conta de atender a demanda. "De um momento para outro, em menos de um mês, estávamos nas revistas e muita gente falando dos pães. Foi uma coisa meio pandêmica", brinca.

Entre pães de fermentação natural, broas e o bolo do caco, um tipo de pão comum da ilha da Madeira, onde nasceu, Figueira decidiu empreender seu próprio negócio pela primeira vez. "A divulgação se cria, mas o produto tem que falar por si. Acho que foi uma prova que as pessoas gostam dos pães que faço", diz.

O cozinheiro pediu demissão e agora está fazendo obras e legalizando documentos para abrir as portas da sua padaria, que a princípio vai funcionar para entregas e retiradas, mas que ele espera que possa ser um espaço no futuro para "almoços e umas brincadeiras aos finais de semana", como diz.