PUBLICIDADE
Topo

Coronavírus cancela expedição dos 500 anos da 1ª circunavegação do mundo

NRP Sagres, que navegaria o mundo, teve a viagem frustrada pelo coronavírus - Divulgação
NRP Sagres, que navegaria o mundo, teve a viagem frustrada pelo coronavírus
Imagem: Divulgação

Eduardo Vessoni

Colaboração para Nossa

07/06/2020 04h00

O projeto era ambicioso. Seriam 371 dias de navegação, a bordo de um navio de velas imponentes, com paradas em 22 portos de 19 países, em comemoração aos 500 anos da primeira volta ao mundo que Fernão de Magalhães iniciara, em 1519.

Mas dessa vez, águas revoltas e terras desconhecidas seriam nada, diante do que viria pela frente.

Com o fechamento de portos internacionais por conta da pandemia de coronavírus, o navio-escola Sagres teve que retornar em maio para a Base Naval de Lisboa, quatro meses depois do início da viagem, em 5 de janeiro.

A "Grande Viagem de 2020" só deveria ser concluída em 10 de janeiro do ano que vem.

Comandada pelo capitão-de-fragata Antônio Maurício Camilo, 51 anos, e com 142 tripulantes, a viagem do V Centenário da Circum-Navegação de Fernão de Magalhães tinha como objetivo refazer a famosa travessia encabeçada pelo navegador português, em busca de uma rota alternativa para as especiarias das Índias.

"Seria uma viagem desafiante e enriquecedora. Para uma tripulação jovem como a nossa [entre 24 e 25 anos], proporcionaria experiências e recordações únicas tanto da vida a bordo como do contato com os povos e culturas visitadas", descreve o comandante Antônio Maurício Camilo, em entrevista exclusiva por e-mail para o Nossa.

Ter um projeto desse porte abortado pode ser frustrante para qualquer viajante, mas para Camilo foi um misto de sentimentos, entre a tristeza pela suspensão da viagem, a expectativa de reencontrar a família e a preocupação com o impacto da covid-19 em Portugal e no mundo.

"Poder comandar o NRP Sagres é, sem dúvida, marcante. Não apenas pela duração e itinerário da viagem, mas pelo enorme simbolismo", confessa o comandante que classifica o desafio como "uma grande honra".

O comandante do NRP Sagres, Antônio Maurício Camilo - Divulgação - Divulgação
O comandante do NRP Sagres, Antônio Maurício Camilo
Imagem: Divulgação

Rotina alterada

Até onde a pandemia permitiu, a tripulação navegou cerca de 30 mil quilômetros e fez paradas nas Ilhas Canárias, Cabo Verde, Rio de Janeiro, Montevidéu e Buenos Aires.

O comandante conduzia aquela embarcação histórica no ritmo dos ventos, com um olho nos compromissos que tinham em cada porto e outro nas notícias que iam paralisando o planeta.

Mas assim que foi anunciado o cancelamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio, o Ministro da Defesa Nacional, João Titterington Gomes Cravinho, e o almirante Chefe de Estado-Maior da Armada, Antônio Maria Mendes Calado, optaram pela suspensão dessa que seria a quarta circum-navegação desse navio de 1962.

A viagem de retorno, quase 10 meses antes do previsto, começou no dia 24 de março.

Segundo Camilo, a rotina a bordo se manteve, até quando foi possível, como em outras viagens. Mas o maior desafio chegou mesmo com os desdobramentos da pandemia.

Em cada parada eram tomadas medidas extremas com relação à higiene e segurança. A tripulação foi impedida de deixar a embarcação e, durante os trabalhos de reabastecimento de combustível e comida, a maior preocupação era a proteção individual daqueles que tinham contato com o mundo exterior.

Depois de cruzar o Atlântico, rumo à África do Sul, a embarcação foi abastecida na Cidade do Cabo e retornou para Portugal, com uma escala técnica na Ilha de São Vicente, em Cabo Verde.

O NRP Sagres, que é usado também para treinamento de cadetes, já realizou outras três viagens de volta ao mundo, em 1978, 1983 e 2010.

Com quase 90 metros de comprimento e mastros que ultrapassam os 45 metros de altura, o principal navio-escola da Marinha portuguesa também protagonizou eventos históricos como os aniversários de 500 anos da chegada de Cristóvão Colombo nas Américas, em 1992, e do achamento do Brasil, em 2000.

Construído na Alemanha, nos anos 30, o Sagres pertenceu à Marinha brasileira, entre 1948 e 1962, período em que era conhecido como "Guanabara". Arrematado por 150 mil dólares, o navio, agora de bandeira portuguesa, zarpou do Rio de Janeiro no final de abril de 1962 e chegou em Lisboa dois meses depois.

Aventura marítima

A aventura do NRP Sagres acabou meses antes do previsto - Divulgação - Divulgação
A aventura do NRP Sagres acabou meses antes do previsto
Imagem: Divulgação
Embora a viagem de Fernão de Magalhães fosse "sempre ao oeste", com o objetivo de encontrar uma rota alternativa às Índias, o comandante Camilo seguiu em direção ao leste, via África do Sul.

Assim como explica o próprio chefe da expedição, o planeamento foi elaborado considerando os compromissos assumidos, como os Jogos Olímpicos de Tóquio, onde o NRP Sagres seria a "Casa de Portugal", no próximo mês de julho.

Considerada uma das últimas viagens da 'A Era dos Descobrimentos', a empreitada original de Magalhães terminou três anos depois, em setembro de 1522, com apenas 18 homens (dos 237 que saíram da Espanha) e um só navio ("arruinado e crivado de furos") de uma frota de cinco embarcações.

O mundo nunca mais foi o mesmo: mapas-múndi seriam refeitos e o conceito de globalização começava a fazer sentido.

Antes de ser morto em um combate na ilha de Mactán e ser substituído pelo espanhol Juan Sebastián Elcano, o "capitão-geral" Fernão de Magalhães batizou os habitantes da Patagônia (patagões, "devido ao tamanho de suas patas") e descobriu a passagem entre oceanos que mais tarde seria chamada de Estreito de Magalhães.

A viagem icônica, em que também se provou a circunferência da Terra, seria responsável ainda pelo primeiro cruzamento do oceano Pacífico, que recebeu esse nome pois "não houve a menor tempestade", e pelo início da colonização europeia das Filipinas.

E o mundo só ficaria sabendo de tudo isso em detalhes porque a expedição contava com as anotações de Antonio Pigafetta, um cronista italiano de 28 anos que estava em uma das embarcações, cujos relatos estão no livro "A primeira viagem ao redor do mundo" (editora L&PM).

Embora os originais tenham se perdido, o próprio Pigafetta reescreveria seus diários, nos anos seguintes, baseados em suas lembranças.

A segunda volta ao mundo só aconteceria mais de 50 anos depois, sob o comando de Francis Drake, em 1578.

Mas nem tudo está perdido para essa viagem do século 21.

Embora ainda seja cedo para retomar uma travessia com essas proporções, o comandante Antônio Maurício Camilo vê possibilidades do projeto ser retomado para que se conclua, ao menos, o trecho final.

"Neste momento não é possível prever o que irá acontecer", finaliza Camilo.

E pela potência da tempestade, senhor comandante, a incerteza será não só nesses, mas em todos os outros oceanos dantes navegados.

Para saber mais

Quer conhecer mais detalhes sobre essa expedição?

Acesse: Marinha de Portugal e o site oficial da circum-navegação de Fernão de Magalhães.

Para conhecer a viagem que inspirou o projeto, leia "A primeira viagem ao redor do mundo: o diário da expedição de Fernão de Magalhães", de
Antonio Pigafetta (editora L&PM).