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Tifanny apoia cota trans, rechaça liga exclusiva e manda beijo pra Tandara

Neide Carlos/Volei Bauru
Imagem: Neide Carlos/Volei Bauru

Adriano Wilkson

Do UOL, em Barueri (SP)

17/02/2018 01h33

A oposta Tifanny Abreu esteve mais uma vez sob todos os holofotes, mesmo com a derrota (3 sets a 2) de seu time, o Vôlei Bauru, para o Hinode Barueri na sexta-feira à noite (16). A primeira atleta transexual a atuar na elite do vôlei brasileiro comentou declarações recentes de colegas de profissão que se posicionaram contra sua participação na Superliga.

Há duas semanas, quando o time de Tifanny enfrentou o Vôlei Nestlé, a oposta Tandara disse que a rival levava vantagem por ter desenvolvido seu corpo como homem e que ela não deveria ser autorizada a competir com outras mulheres. As duas dividem o recorde de maior pontuadora em uma mesma partida na história da Superliga, 39 pontos.

Instigada a comentar a declaração, Tifanny incluiu em sua resposta outras jogadoras que também se posicionaram sobre a polêmica: “Tandara é um amor de pessoa. Ela deu uma opinião ali mais por mídia. Fez 39 pontos novamente, mostrou que está ali. Queria mandar um beijo pra ela, maravilhosa. Não tenho nenhum mal, não sinto nada por Tandara, por Fabiana, por Sheilla. Eu me sinto mal quando alguém me trata no masculino sendo que sou mulher trans, tenho documentos e corpo. Mas a opinião dela... continuamos amigas e nos tratando bem.”

Em janeiro, a oposta Sheilla afirmou que, após ter uma conversa com a central Fabiana, se tornou contra a participação de Tifanny por temer que um dia o vôlei feminino seja dominado por atletas trans. “Imagina se todos os gays e viados quiserem jogar a Superliga. Vai ficar complicado”, disse Sheilla.

Na sexta, Tifanny afirmou que uma solução plausível para a inclusão de mulheres trans no esporte seria a adoção de cotas, sistema semelhante ao que já existe para estrangeiros, ou o esquema de pontuação usado para equilibrar o elenco dos clubes e evitar a formação de superequipes.

“Se temos cotas pra jogadoras estrangeiras, por que não para trans?”, questionou a oposta do Bauru. “Se temos pontuação pra jogadora olímpica, por que não temos para trans? Se ela for boa o suficiente ela vai ter a pontuação, se não for tão boa, vai ter sua cota, é normal. O que não podemos é ser excluídas do esporte.”

Tifanny, por outro lado, rechaçou a ideia de criação de uma liga exclusiva para trans, o que ela classificou como uma exclusão.

“Esse negócio de fazer uma liga trans não dá, né? Não tem trans suficiente pra jogar, pra fazer uma liga forte. Nós vivemos em uma comunidade com todos juntos. As trans mulheres jogam com as mulheres, os trans homens com os homens. E vivemos todos em paz, não podemos excluir e temos que respeitar a lei.”

Na derrota para o Barueri, Tifanny foi a maior pontuadora do jogo, com 36 pontos. A segunda melhor nesse quesito foi a polonesa Katarzyna Skowronska, do Barueri, que fez 24. A alta pontuação de Tifanny pode ser explica pelo fato de que ela é, disparadamente, a mais acionada pelas levantadoras do Bauru.  Nos cinco sets da partida, ela recebeu 53 bolas. Para comparar, a cubana Yoana Palacio, segunda mais acionada no ataque do Bauru, atacou apenas 26 vezes.

Tifanny, procurada após cada partida para repercutir as declarações sobre sua transexualidade, disse que “não aguent[a] mais segurar essa barra.” Mas, ao notar o grupo de gays e trans que sempre a acompanha em jogos – em Barueri um punhado de militantes levou faixas em seu apoio – a oposta disse que pretende se envolver cada vez mais na causa das pessoas transgêneros.

Questionada sobre a hipótese de o Comitê Olímpico Internacional vetar sua participação em campeonatos femininos, ela afirmou estar tranquila.

“Todo mundo tem um trabalho e quando a empresa vai à falência cada um vai buscar outro trabalho”, disse ela. “Se isso acontecer, posso trabalhar com a comunidade trans, porque eles precisam de uma voz e hoje eu consigo ser essa voz.”

Adversários mostram apoio

Depois do jogo, os principais nomes do Hinode Barueri apoiaram Tifanny. As bicampeãs olímpicas Jaqueline e Thaisa, que sofreram para deter os ataques da oposta, afirmaram que ela deve continuar “correndo atrás de seu sonho” e destacaram “o lado humano” da questão.

“Eu sempre comento que tem que se ver o lado humano da Tifanny. Está ali, é uma jogadora tanto quanto eu. Eu tenho que dar força pra ela, tenho que falar pra correr atrás dos sonhos”, disse Thaisa, que voltou a jogar depois de se recuperar de uma lesão que a afastou das quadras.

Jaqueline destacou a força de Tifanny e disse que “ama” a colega. “Ela é muito forte, a bola pegava em mim e ardia. A gente sabe que ela é diferenciada. Ela voltou agora pro Brasil, não a conhecia. Estou conhecendo agora. Amo a Tifanny, sabe? Quando me encontrou hoje de manhã, me deu um beijo e me cumprimentou.”

Já o técnico José Roberto Guimarães voltou a declarar que, se os órgãos competentes definiram que Tifanny tem o direito de competir com mulheres, ela deve continuar apta. A jogadora sonha em ser convocada pelo técnico para a seleção brasileira.

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