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Superliga acata pedido de TVs, reduz sets e gera temores nas equipes

Guilherme Costa e Luiz Paulo Montes

Do UOL, em São Paulo

12/09/2013 06h01

Principal novidade na temporada 2013/2014 da Superliga de vôlei, a redução dos sets de 25 para 21 pontos ainda é uma incógnita. Adotada pela CBV (Confederação Brasileira de Vôlei) para atender a um pedido feito à federação internacional por uma comissão de TV e marketing, a mudança tem gerado uma série de preocupações entre as equipes que disputam a competição nacional.

A primeira reação das equipes após a definição da redução dos sets foi mudar a rotina de treinos. Com parciais mais curtas, os times passaram a priorizar atividades intensas e mais curtas.

“No início dos treinamentos a gente não tinha muita ideia de como seria jogar com sets de 21 pontos. A gente foi vendo que o jogo ficou muito rápido e forte desde o início. Você tinha de ter um ritmo mais intenso, sobretudo nos dez primeiros pontos, e os treinos passaram a ser fortes desde o começo. Antigamente havia uma evolução”, explicou Alexandre Rivetti, técnico do Brasil Kirin. Ronaldo Luiz Finotti, preparador físico que trabalha com ele, corroborou essa ideia: “Temos feitos treinos mais curtos com bola, e as atividades físicas têm sido ainda mais voltadas à modalidade. Com um jogo mais rápido, temos menos oportunidade de reação”.

Contudo, a intensidade dos treinos não foi a única mudança provocada pelos sets mais curtos. “O ritmo de atuação vai ter de ser mais intenso, com possibilidade menor de um reestabelecimento. Isso impacta no componente físico, mas principalmente no psicológico”, ponderou José Ricardo Ribeiro, supervisor do Vivo/Minas.

A preparação da equipe mineira para os sets reduzidos começou bem antes de a mudança ser oficializada. A comissão técnica fez um estudo sobre a temporada passada da Superliga, e uma das conclusões é que a mudança teria impacto pequeno.

“Nós analisamos o que seria a realidade da Superliga passada se os sets tivessem 21 pontos. Em um percentual altíssimo de partidas, quem tinha a vantagem nos 21 pontos acabou ganhando o set. Mas uma coisa é analisar 21 pontos em sets de 25, e outra coisa é olhar para 21 pontos em um set de 21”, explicou Ribeiro.

Além da preparação física e da concentração, a redução dos sets gerou uma preocupação sobre as consequências. Submetidos a uma intensidade maior de exercícios, os atletas passam a correr mais riscos.

“Se essa mudança for solidificada, vai implicar em um trabalho mais detalhado de prevenção de lesões. O tempo que a gente vai economizar em treinamentos vai ser gasto em atividades para evitar as lesões”, disse Finotti.

Outro aspecto em que a mudança gera preocupação é o equilíbrio da Superliga. Os sets de 21 pontos também estão sendo usados no Campeonato Paulista, o que pode gerar uma vantagem aos clubes do Estado.

“Existe essa possibilidade, sim. Eles vivem isso há um tempo maior. Nós estamos tentando nos antecipar com os estudos, mas essa mudança tem muito a ver com o timing do jogo. Sem saber como fica é difícil decidir”, afirmou o supervisor do Vivo/Minas. “Existe um benefício, sim, mas nós também estamos nos acostumando. E as outras equipes estão organizando campeonatos que têm essa adaptação”, respondeu Bernardino Santos, o Dininho, diretor de vôlei do Pinheiros.

A mudança na duração dos sets foi sugerida à CBV pela FIVB (Federação Internacional de Vôlei), entidade que atualmente é presidida por Ary Graça Filho. Antes desse cargo, ele foi mandatário do vôlei brasileiro.

“Todas as televisões, que correspondem a 85% das receitas da FIVB, se reuniram e pediram. As televisões abertas não conseguiam transmitir os jogos porque não dá para prever a duração. É o mesmo problema do tênis. É importante harmonizar. Não existe negociação com televisão”, disse Ary Graça Filho. O grupo de emissoras que defendeu a mudança tem representantes de dez países, incluindo o Brasil (TV Globo).

A comissão de TV e marketing da FIVB teve acesso a um estudo que mostra que a audiência em jogos de vôlei sobe depois do décimo ponto. “Isso dá a entender que o público quer uma decisão mais rápida”, completou o presidente da entidade internacional.

O problema é que essa lógica ainda não foi bem assimilada pelas pessoas que trabalham no vôlei. Por causa da parte técnica, jogadores e técnicos já criticaram abertamente a redução da duração dos sets. As equipes também questionam a decisão.

“Os argumentos que foram usados não se justificam. Eles mutilaram o esporte, e essa não é a melhor linha a ser seguida. Sinceramente, modificar os parâmetros do esporte por causa da TV aberta só é interessante se você tiver garantia de transmissão, o que não acontece”, disse Dininho, diretor do Pinheiros. “Quem paga a conta? A pergunta que tem de ser feita é essa. É a TV ou o patrocinador? Com mais tempo de exposição, meu patrocinador fica contente. Com menos tempo eu agrado a TV. Se você é subsidiado pela TV, como acontece no futebol, acho plausível. Mas no vôlei a TV não subsidia os times”, completou o dirigente.

As equipes também se preocupam com a experiência dos torcedores que forem aos ginásios na Superliga. “Aqui em Belo Horizonte, você leva 40 minutos para ir e 40 minutos para voltar de um jogo em muitas vezes. Se a partida é muito curta, você pode passar mais tempo no deslocamento do que na quadra”, teorizou Ribeiro.

O supervisor do Vivo/Minas sugeriu até uma nova alteração na regra para complementar o que foi feito com a redução dos sets: “Eu manteria os 21 pontos, mas daria uma vantagem para o time que perdeu o set anterior, com exceção do tie-break. Isso forçaria a decisão em cinco sets. Acredito que as discrepâncias poderiam ser minimizadas e você garantiria uma imprevisibilidade maior. O vôlei necessita disso para despertar no público o mesmo interesse que o futebol”.

O primeiro jogo da Superliga masculina com sets de 21 pontos foi disputado no dia 7 de setembro. O Cruzeiro recebeu o São Bernardo e venceu por 3 a 0 em 1h04min.

“Para tornar o jogo dinâmico, é preciso que ele tenha entre uma e duas horas. No passado, usamos a Superliga para fazer testes da mudança de vantagem para o sistema de rali. Com vantagens, tínhamos jogos de quatro horas. Foram feitos testes, inclusive na Superliga, e eles foram um sucesso. Tanto que o modelo foi aplicado”, contou Ary Graça Filho. “Naquela época, os jogadores também reclamaram. É próprio do ser humano não querer mudar. É psicológico. Mas eu tenho de modernizar o meu negócio. Se ele não se moderniza, fica para trás”, encerrou o mandatário da entidade internacional.

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