TV Globo exibe denúncia contra campeões paralímpicos do Brasil

O Esporte Espetacular, programa da Rede Globo, exibiu neste domingo (10) uma denúncia contra três atletas medalhistas de ouro do atletismo paralímpico pela seleção brasileira. A reportagem foca em Lucas Prado, Ricardo Costa e Silvânia Costa. Denunciantes afirmam que os atletas da categoria T11 possuem uma visão não-compatível com a classificação funcional atribuída pelo Comitê Paralímpico Internacional (IPC).

O Comitê Paralímpico Brasileiro emitiu nota rechaçando qualquer denúncia (veja ela completa aqui). Enquanto isso Lucas Prado postou um vídeo se defendendo das acusações. Silvânia Costa postou as versões completas das entrevistas para a reportagem da Globo, mas Ricardo Costa ainda não se manifestou ou respondeu às perguntas do Olimpíada Todo Dia*.

+ SIGA O OTD NO YOUTUBE, TWITTER, INSTAGRAM, TIK TOK E FACEBOOK

Quem são os atletas mencionados pelo Esporte Espetacular?

Lucas Prado, Ricardo Costa e Silvânia Costa são campeões paralímpicos do paratletismo, classificados na T11. O Olimpíada Todo Dia entrou em contato com os atletas, mas até agora eles não se pronunciaram. Se eles responderem às perguntas atualizaremos a matéria.

Lucas Prado

Venceu ouro nos 100m, 200m e 400m da T11 nos Jogos Paralímpicos de Pequim-2008 e foi prata nos 100m e 400m da T11 em Londres-2012. Além disso, Lucas Prado ganhou seis ouros em Jogos Parapan-americanos (três deles no Rio-2007, dois em Guadalajara-2011 e um em Lima-2019), e possuí cinco títulos mundiais.

(Atualização: Lucas Prado responde à denúncias da Globo sobre deficiência visual)

Silvânia Costa

Continua após a publicidade

Bicampeã paralímpica no Rio-2016 e Tóquio-2020. Ela também foi campeã para-panamericana em Toronto-2015 em uma prova que juntou atletas de T11 e T12. Silvânia Costa competiu no Mundial deste ano e terminou em quinto lugar e em quarto lugar no Parapan de Santiago-2023.

Ricardo Costa

Irmão de Silvânia e venceu a prova do salto em distância nos Jogos Paralímpicos de Rio de Janeiro, no que foi o primeiro ouro do Brasil na competição. 

Silvânia foi a única que conversou com a reportagem da Globo. A atleta afirmou que "não é o atleta que escolhe a classe, mas sim sua deficiência visual comprovada em laudo, comprovada em exame". Silvânia ainda disse que recorreram contra a classificação do T11. "Eu não queria ficar na T11, pagamos o recurso para que eu não fosse considerada T11", afirmou a atleta. 

Quais são as suspeitas sobre os atletas paralímpicos?

A reportagem dos jornalistas Bruna Campos e Felipe Brisolla recebeu denúncias de pessoas do movimento paralímpico. A maioria das denúncias aconteceu de forma anônima. Eles afirmam que Lucas Prado, Ricardo Costa e Silvânia Costa receberam uma classificação errônea e "consequentemente, teriam tido vantagem esportiva em competições nacionais e internacionais na categoria para pessoas cegas (LogMAR menor que 2.6)".

Continua após a publicidade

Ainda segundo a matéria, o comportamento suspeito dos atletas é conhecido por pessoas do movimento paralímpico, inclusive pelo Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), sendo considerado um tabu, ou seja, um assunto do qual não se pode comentar.

Para competir na categoria T11, o atleta precisa ter um grau visual menor que 2.6 na tabela de referência internacional conhecida como LogMAR. Também existem as categorias T12 e T13 para graus de deficiência visual menores. É importante ressaltar que a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera os atletas da T11 como cegos, pois mesmo que enxergem, o campo visual é muito baixo. Ainda que todos corram com tampões, uma visão melhor do que a permitida auxilia nos treinamentos.

A reportagem fez então contato com "os principais oftalmologistas do Brasil especializados em visão subnormal ou baixa visão". Os médicos assistiram vídeos publicados em redes sociais, além de outros registros de denunciantes e pela própria reportagem. As imagens mostram os atletas não só em competição, mas também no treino e no dia-a-dia. Os oftalmologistas afirmaram que, pelos registros, os atletas fazem gestos e ações que não são compatíveis com pessoas cegas ou de baixíssima visão, e portanto não deveriam ser considerados como T11. 

O que disse o Comitê Paralímpico Brasileiro sobre as suspeitas?

Em resposta à reportagem do Esporte Espetacular, o Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) ressaltou que o Comitê Paralímpico Internacional conduz todo o processo e que "nem os atletas e nem o CPB têm poder de definir em qual classe cada atleta competirá". Além disso, o CPB afirmou que "já solicitou por mais de uma vez a reclassificação dos atletas, que tiveram seus status confirmados. Pelo IPC. Cada um dos três atletas brasileiros citados foi submetido ao menos a cinco bancas internacionais de classificação visual». Além disso, o CPB afirma ter "todo esse histórico documentado, muitos processos que tiveram início há 15, 17 anos".

Em nota oficial na tarde deste domingo (10), o CPB afirmou que "preza pela ética em todo seu processo de gestão e administração". Além disso, a entidade afirmou seguir "regras, políticas e diretrizes de classificação do Comitê Paralímpico Internacional, por meio do Código Internacional de Classificação e dos regulamentos de classificação específicos por modalidade ou tipo de deficiência".

Continua após a publicidade

+ Confira a nota completa do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) aqui

Mais uma vez, o CPB afirmou que quem estabelece a classe de cada atleta são os classificadores internacionais e portanto nem os atletas nem o CPB "têm poder de definir em qual classe cada atleta competirá".

O Comitê Paralímpico Brasileiro ainda comentou ter feito questionamentos e protestos diante de algumas classificações. O CPB afirmou ter inscrito Ricardo Costa e Silvânia Costa na classe T12 e "após avaliação em banca de classificação internacional, que, repetimos, não tem vínculo com o CPB, foram alocados na classe T11".

O CPB ainda fez críticas ao trabalho dos jornalistas da Rede Globo. Primeiramente, a entidade disse ter tido apenas 24h úteis para resposta. Em seguida comentaram não ter acesso às informações e denúncias para que pudessem ter respondido a contento. E finalmente, afirmam que "todos que acusaram o CPB de ser conivente com qualquer irregularidade o fazem de maneira irresponsável por desonestidade ou ignorância".

A entidade enfim termina sua nota oficial afirmando que "seguiremos firmes com o nosso trabalho, sempre prezando pela inclusão da pessoa com deficiência e pela justiça no esporte"

O que disse o Comitê Paralímpico Internacional sobre as suspeitas?

Continua após a publicidade

De acordo com a reportagem do Esporte Espetacular, o IPC encaminhou as perguntas para a Federação Internacional de Atletismo Paralímpico (WPA) que enviou a seguinte nota para a Rede Globo: 

Os detalhes da classificação individual do atleta são confidenciais, e a WPA não está apta a comentar especulações sobre o assunto. De acordo com as regras de classificação da WPA, deturpar intencionalmente técnicas ou habilidades e/ou o grau da deficiência é uma séria infração disciplinar. Qualquer evidência de uma deturpação intencional deve ser enviada diretamente para a WPA por email para info@worldparaathletics.org. Todas as alegações recebidas são investigadas pela WPA e as devidas medidas são tomadas, incluindo, se necessário, consulta com classificadores, consultores jurídicos e outros especialistas. Se a evidência de deturpação intencional existir, a WPA irá cobrar os envolvidos e abrir procedimentos disciplinares junto ao Painel de Recursos de Classificação.

As consequências para um atleta ou qualquer outra pessoa que for encontrada cometendo essa deturpação intencional incluem um período de vários anos de suspensão e desclassificação de resultados em competições, medalhas e prêmios conquistados."

* O Olimpíada Todo Dia entrou em contato com os três atletas e com a CPB. Apenas Lucas Prado respondeu, enquanto a CPB publicou nota oficial. Atualizamos o parágrafo e a matéria às 16h.

Veja também

Deixe seu comentário

Só para assinantes