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É possível se manter no topo do MMA treinando no Brasil? Especialistas respondem

Felipe Castello Branco e Lais Rechenioti, no Rio de Janeiro (RJ)

Ag. Fight

16/11/2017 09h00

O MMA brasileiro por muito tempo se acostumou a ser uma fábrica de campeões, e não é à toa que o esporte cresceu tanto em tão pouco tempo no país. No entanto, uma característica passou a ser repetida e se tornou comum aos grandes nomes das artes marciais mistas: grande parte de nossos astros passou a preferir os treinamentos fora do Brasil - mais especificamente nos Estados Unidos. São os casos de Vitor Belfort, Fabrício Werdum, Rafael dos Anjos e as atuais campeãs Amanda Nunes e Cris 'Cyborg'. Para os atletas que optaram por se manter fiéis as suas raízes, como aconteceu com José Aldo e Demian Maia, fica a dúvida se eles são exceções para essa regra de que só é possível chegar ao ápice no esporte em terras estrangeiras.

Para treinadores que preferiram consolidar as suas carreiras em solo nacional, parece claro ser possível não apenas chegar ao topo como também se sustentar no ponto mais alto do esporte sem se afastar "de casa". Contudo, caso o atleta decida por manter os seus treinamentos no Brasil, é preciso levar em consideração alguns pontos específicos que vão forçá-lo a buscar complemento em outros lugares. Além disso, mesmo com o grande apelo que o MMA tem junto ao público, ainda é necessário lidar com a falta de apoio e incentivo no país. Mas nada que não possa ser driblado com disciplina e desempenho.

Para o treinador de Jéssica Andrade, Gilliard 'Paraná', a carreira que o ex-campeão da categoria peso-pena (66 kg) José Aldo construiu através da Nova União não é uma mera exceção, mas sim uma tendência que pode ser repetida por outros atletas. Isso pode ser comprovado com a performance de sua pupila no octógono: a brasileira já lutou pelo cinturão da divisão peso-palha feminino (52 kg), onde acabou perdendo para a então campeã, Joanna Jedrzejczyk, por decisão unânime dos juízes laterais, depois de um duro confronto de cinco rounds. Na sua atuação mais recente, 'Bate-Estaca' venceu a compatriota Cláudia Gadelha naquela que foi eleita a 'Luta da Noite' do UFC Japão, em setembro passado. 'Claudinha', por sinal, é um dos muitos nomes no esporte brasileiro que deixou sua academia no Brasil para treinar nos Estados Unidos.

"A Jéssica hoje é a número um do ranking e treina só no Brasil. Eu tenho o melhor time feminino do Brasil - e provavelmente do mundo - em termos de quantidade de atletas e resultados nos eventos que participamos. Temos passagens na Europa, no Rizin, no Invicta, temos duas atletas no UFC... E tudo isso alcançado com um trabalho feito apenas o no Brasil. Então, acho que é possível sim se manter no topo treinando somente no nosso país. Isso depende da dedicação do atleta e da orientação dos seus professores", defendeu Paraná.

Em concordância com esse pensamento, Eduardo Alonso, empresário de atletas e head coach da Vila da Luta - academia criada em São Paulo e liderada por Demian Maia -, não descreve as carreiras de seu pupilo e de José Aldo como exceções a nenhuma regra. Do ponto de vista do treinador, é preciso que haja a renovação no esporte para que outros grandes nomes possam surgir em território nacional.

"É possível, com certeza absoluta, contanto que exista uma inteligência e humildade para entender as carências . Não acho que o caso do Demian e do José Aldo sejam tão esporádicos assim. Acho que o que falta é a renovação. Nos eventos antigos, os grandes eventos procuravam o atleta pela condição técnica dele. Não importava quem eles tinham enfrentado e isso não acontece mais. Eu acho que é um efeito cascata, vai se sucateando, fica difícil ter um bom mercado aqui dentro e isso prejudica a renovação. Hoje há a dificuldade de renovação de atletas, que é somado à migração dos treinadores para o exterior, o que deixa o cenário pior", opinou, recebendo suporte do próprio atleta.

"Muitos vão para os EUA por questão de segurança, da organização, por outras questões. As vezes, com um certo nível de vida, você consegue ter uma vida mais tranquila. E o Brasil é mais selva, aquela correria. Acho que as pessoas buscam mais isso. Mas treinar aqui ou treinar lá, acho que você consegue treinar em qualquer lugar, não faz diferença", narrou Demian Maia. "Tem treinadores e sparrings excelentes no Brasil. Nutrição você faz em qualquer lugar, é só você estudar e correr atrás. A parte psicológica você também faz em qualquer lugar. Inclusive, a maior safra de bons lutadores que nós tivemos, todos treinavam no Brasil. Acho que os atletas vão atrás de uma maior qualidade de vida, em uma país mais organizado, onde você sabe que as coisas funcionam".

Falta de incentivo no Brasil

Grande fábrica de atletas no MMA e jiu-jitsu, a academia carioca Nova União, na figura de seu treinador principal Dedé Perdeneiras, garante que o esporte brasileiro pode continuar a produzir grandes nomes em larga escala. Contudo, para aqueles que escolhem treinar no Brasil é preciso saber que haverá dificuldades que não são comuns no exterior - como por exemplo o patrocínio.

"Com certeza acho que é possível chegar ao topo treinando no Brasil, isso sempre aconteceu, e não mudaria agora. As vantagens de treinar fora, ao meu ver, são os incentivos de patrocinadores que aqui não existem. Acho que os EUA estão na frente na parte de suplementação avançada", explicou o 'head coach'.

A falta de apoio para o esporte é um ponto que ainda atrapalha o desenvolvimento do MMA no Brasil. Para Alonso, se nem mesmo alguns esportes olímpicos recebem incentivo, o caminho fica ainda mais difícil para as lutas, que ainda sofrem preconceito. Para o empresário e treinador, o mercado pouco valorizado das artes marciais mistas também se torna um fator negativo para o surgimento de novos lutadores.

"Se já tem dificuldades de apoio para outros esportes olímpicos, imagina para o MMA que é um esporte que já evoluiu muito, mas que ainda traz alguma carga de preconceito. Acho que como consequência disso hoje, o mercado de MMA está convalescente, ele está na UTI", comentou Alonso.

"Então eu acho que, hoje, a maior dificuldade que eu tenho, que qualquer equipe eu acho que tem, é desenvolver novos atletas, mantê-los motivados, no dia a dia, que não tem luta. A cultura do meio, que é guiada pelos eventos internacionais, que é só preocupar com o cartel do atleta, sem às vezes uma análise mais profunda, acabou ditando uma regra de mercado onde ninguém quer correr risco. Porque não vale a pena correr risco por pouco dinheiro. Às vezes com pouco tempo de preparação e aí os eventos não tem como pagar bem, porque não tem apoio".

Sem que exista um incentivo financeiro no país para continuar alçando esse sonho que é chegar ao topo, muitos atletas com potencial podem acabar desistindo no meio do caminho antes de se tornarem profissionais. Dedé Perdeneiras defendeu que é fundamental que se "coloque dinheiro e ajude os atletas a se manterem treinando até que o dia deles chegue".

Mesmo quando se consegue o incentivo financeiro e há a disciplina e orientação adequadas, ainda não é possível adquirir um treinamento completo em todas as modalidades se mantendo apenas no Brasil. Para atingir os pontos altos no MMA e se sustentar como um grande nome, possuir tofos os fundamentos com qualidade se torna um fator primordial.

Por muitos anos, o diferencial das artes marciais mistas brasileiras foi o jiu-jitsu, mas com a migração de nossos treinadores para os Estados Unidos, parece que muitos atletas estrangeiros conseguiram se aprimorar nessa modalidade. No caso do Brasil, a dificuldade ainda é obter um bom treinamento de wrestling, especialidade americana e de países do leste europeu. Desta forma, para trabalhar todas as funções do esporte em alto nível, não tem como fugir do intercâmbio para outras academias - em outros países.

Intercâmbios

Um nome forte no esporte brasileiro é o do atleta Erick Silva, que fez o caminho inverso. Ele treinava nos Estados Unidos quando decidiu voltar para o seu país de origem e montar sua própria academia, localizada no Espírito Santo. Para ele, o seu tempo no exterior serviu como um aprimoramento de técnicas e sua intenção sempre foi considerar esse período como um intercâmbio.

"Foi uma experiência gigantesca. Eu evoluí bastante na parte de muay thai e wrestling. Foi como se fosse uma temporada de aprimoramento técnico. Eu gostei muito dessa temporada, fiquei muito feliz com as pessoas que eu conheci, com o trabalho que foi feito e com a estrutura que eu tive", explicou o atleta.

André Benkei concordou que o diferencial dos lutadores norte-americanos seja a luta olímpica. Para o head coach da Tiger's Den - academia montada por Erick Silva -, atualmente ainda é preciso ir até o exterior para que se consiga o treinamento adequado nessa modalidade.

"Eu acho que com um investimento maior das escolas com a criação de times que vão investir na qualidade dos seus atletas, principalmente em um intercâmbio com outras visões, especificamente nesse caso de wrestling, eu acho que não se necessitaria viajar para fora do país. Mas hoje em dia, ainda é necessário justamente pela qualidade do treino e a diversificação da parte do ponto de vista do MMA. Esse é o grande diferencial", comentou o treinador.

Mesmo com as disparidades e grandes diferenças em relação às academias internacionais, o treinamento de MMA realizado no Brasil ainda se iguala em grande parte aos melhores do mundo. Uma das soluções encontradas para suprir a necessidade do esporte no solo nacional é o atleta montar o próprio espaço de treinamento e contratar sua equipe. E, ainda que as condições de incentivo não sejam as ideais, é possível dizer que é o lutador quem irá ditar até onde ele pode chegar em sua carreira. Seja aqui ou no exterior.

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