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Olheiros no futebol: a caça pelo próximo Bola de Ouro

16/11/2017 15h07

Paris, 16 Nov 2017 (AFP) - Percorrer quilômetros para acompanhar jogos e treinos, cultivar uma rede de informantes e seduzir os pais: os 'olheiros', caçadores de talentos no futebol, disputam uma corrida desenfreada para descobrir as futuras estrelas dos campos.

Não conte com eles para conhecer os segredos da profissão. Por mensagem, Romain Poirot alerta que será "complicado revelar tudo" sobre seu trabalho como olheiro.

Ex-recrutador do Manchester City na França, hoje trabalhando com os clubes Watford e Udinese, Poirot vive uma viagem sem fim pelo território francês, "pelo menos 5.000 quilômetros por mês sem contar as viagens de avião ou trem", em busca de novos talentos.

"A experiência é essencial. Comecei na época da geração de 93, de Paul Pogba. Ele já era fenomenal com 16 anos, mas eu não tinha qualquer ponto de referência", lembra.

A força de seguir outros jogadores e jogos de "todos os níveis", Poirot pôde aperfeiçoar "uma técnica de classificação". "Afiei o olho", diz ele.

- Técnica 'TIPS' -No Brasil, Luiz Rangel, coordenador de análise de desempenho e captação do Vasco, considera que "quase todo mundo acredita entender de futebol", ao ponto de que "muita gente vê garotos cm talento e traz eles aqui para que sejam testados".

Na busca por jovens talentos, Poirot utiliza uma técnica patenteada pelo clube holandês Ajax e batizada de 'TIPS': iniciais das palavras Técnica, Inteligência, Personalidade e Velocidade (Speed em inglês).

"Em seguida, observamos seu crescimento para saber se fisicamente ainda vai se desenvolver ou se está avançado para sua idade, e é preciso detectar seu potencial, sua capacidade para continuar o desenvolvimento em todos os níveis", completou.

Sem esquecer sua mentalidade. "Falamos com seus pais e seus professores para saber como se comporta no dia a dia", explica à AFP outro olheiro do Vasco, Gilberto Figueiredo.

Outra técnica utilizada é assistir no anonimato aos treinos, para observar a atitude dos garotos quando não estão sob os holofotes.

Poirot, único olheiro do Watford e da Udinese na França, precisa organizar detalhadamente cada fim de semana.

"É necessário optimizar o tempo tentando encontrar jogos coerentes por zonas geográficas", afirma. Num fim de semana, é possível que assista a sete jogos.

"Começo na sexta-feira com um jogo da Ligue 2 (2ª divisão francesa), no sábado assisto a uma partida do sub-14 ou sub15, da CFA (4ª divisão), e depois da Ligue 1. E pelo menos dois jogos no domingo, do sub-17 e sub-19", relata.

- Vinícius Júnior e o Real Madrid -A competição entre olheiros é feroz, mas Gilberto Figueiredo destaca que é "uma rivalidade sadia".

"O importante é ser reativo, mais rápido que a concorrência. Para isso, o essencial é ter uma boa rede, se infiltrar nas competições, saber quem são os organizadores, os dirigentes dos pequenos clubes, os pais...", admite.

"A ideia é privar a concorrência da estrela de amanhã", explica à AFP Loic Ravanel, investigador do Centro Internacional do Estudo do Esporte (CIES). Um bom exemplo é o caso do brasileiro Vinícius Júnior, de 17 anos, atacante do Flamengo que vinha sendo cobiçado pelo Barcelona e por quem o Real Madrid aceitou pagar 45 milhões de euros para garantir a contratação.

Antes de se tornar o segundo jogador mais caro da história, o francês Kylian Mbappé (18 anos) esteve próximo de assinar com o modesto Caen. Laurent Glaize, ex-responsável pelas contratações do clube, revelou ao jornal Ouest France que organizou uma grande operação para tentar atrair o fenômeno.

"Fomos visitá-lo pelo menos duas vezes por mês em Bondy (subúrbio de Paris). Nos aproximamos aos poucos de seus pais, tínhamos uma boa relação. Tínhamos que usar esse truque, porque o clube estava na 2ª divisão e precisávamos apertar o cinto (financeiramente)", admite Glaize. No fim, Mbappé acabou optando pelo Monaco. Dois anos mais tarde, foi vendido por 180 milhões de euros ao Paris Saint-Germain.

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