O ar que eu respiro

Torcedor conta como Tite, Cássio e o Corinthians o ajudaram no combate à doença sem cura

Jose Eduardo Faria Lima Em depoimento a Adriano Wilkson, do UOL Ju Kawayumi/UOL

O torcedor corintiano Eduardo Faria Lima é portador da fibrose cística, uma doença genética crônica também conhecida como "doença do beijo salgado". Estima-se que cerca de 5.200 pessoas convivem com ela no Brasil.

Eduardo, que agora tem 20 anos, relata como foi sua infância, que ele classifica como "quase normal", apesar das internações hospitalares, e como recebeu o diagnóstico da doença.

O jovem também fala da relação de amor, herdado do pai, com o time de coração e como esse sentimento o ajudou a superar as fases mais difíceis do tratamento.

Três meses depois de nascer eu fui pela primeira vez à UTI. Apesar disso, acho que tive uma infância normal — ou quase. Uma das coisas que lembro é de estar jogando futebol na aula de educação física e perceber que eu estava suando sal. Eu pegava na minha testa, e era como se eu tivesse caído num saco de sal de cozinha.

Eu tinha por volta de dez anos. Minha primeira reação foi tirar o sal da testa e colocar na boca porque eu achava que ele me daria energia. Tinha gosto de sal mesmo. Quem tem essa doença chamada fibrose cística, o motivo que me levou à UTI aos três meses de idade, costuma suar sal, muito sal. A pele e os pelos ficam brancos. Na época achava estranho. Hoje, acostumei.

Na escola, todo mundo sabia da minha doença, que tem tratamento difícil. Eu era autorizado a sair de sala quantas vezes quisesse para beber água. Eu tomava remédios, muitos remédios. Os meus pais conversavam com os pais dos meus amigos para explicar o que me fazia ser um pouco diferente.

A fibrose pode atacar os pulmões, causando dificuldade de respirar e, no meu caso, também o pâncreas, que para de produzir o suco gástrico. Desde muito criança, eu convivi com um tratamento que me obrigava a tomar antibióticos quase todo dia, além de outros remédios para ajudar na digestão. Aprendi cedo que a fibrose, uma doença sem cura, me acompanharia pelo resto da vida.

Mas essa não era a única coisa que eu tinha. Eu também tinha o Corinthians.

Amor herdado do pai

O amor por esse time eu herdei do meu pai, com quem sempre vi os jogos na nossa televisão em Miguelópolis, a cidade de 20 mil habitantes no interior de São Paulo, onde nasci. Em 2008, quando eu tinha oito anos, realizei um sonho infantil quando meu pai encarou a viagem de seis horas até a capital para me levar para ver o Corinthians ao vivo, no Pacaembu — um 0 a 0 contra o Criciúma pela Série B.

Crescendo, eu vi o Corinthians crescer também. Saímos da Série B e ganhamos tudo: Série A, Libertadores, Mundial. Nosso time, conduzido pelo Tite, tinha uma defesa forte. Mas dentro de mim, a doença começou a contra-atacar. Meus pulmões foram ficando cada vez mais fracos, e eu já não conseguia jogar futebol como antes: precisava sempre sair de campo para descansar e recuperar o fôlego.

As internações em um hospital de Ribeirão Preto foram ficando mais frequentes: primeiro dias, depois semanas, cada vez menos tempo em casa, entre uma internação em outra. Em maio de 2015, o Corinthians foi eliminado da Libertadores pelo Guaraní do Paraguai, uma derrota que nenhum corintiano esquece. Em julho, eu fui internado e transferido às pressas para a capital, onde ouvi dos médicos que a única solução para o meu caso seria um transplante dos pulmões.

"Não tem problema", eu disse aos meus pais, um engenheiro agrônomo e uma assistente social. "Aqui é Corinthians!"

Descobri que a fila de transplantes poderia ser longa, e a espera levar até um ano e meio. Até lá, precisaria respirar com a ajuda de um tambor de oxigênio e fazer várias sessões de fisioterapia para tentar melhorar minha capacidade respiratória. Todo meu tratamento foi financiado pelo SUS.

Um e-mail para o Corinthians

Eu, minha mãe e minha irmã precisamos nos mudar para São Paulo porque o transplante —se e quando acontecesse — seria realizado pelo hospital Albert Einstein e era preciso estar por perto caso um órgão ficasse disponível. Foi aí que São Paulo virou uma cidade completamente diferente para mim. Antes, eu vinha para passear, ir ao shopping ou ver o Corinthians jogar. Agora, eu não podia fazer nada disso porque o tambor de oxigênio que eu tinha não me dava muita autonomia fora de casa.

Mesmo assim, resolvi fazer uma aposta alta. Eu estava perto do meu time do coração e queria que ele também estivesse perto de mim. Enviei um e-mail à ouvidoria do Corinthians, contando minha história e falando sobre o tratamento que estava fazendo em São Paulo. O clube respondeu! E me convidou para uma visita ao Centro de Treinamento para conhecer os jogadores!

Minha família começou uma grande operação para me permitir ir até lá. Meu pai alugou um tambor de oxigênio extra, me colocou no carro e me levou até o CT. Lá dentro, vi o cara pela primeira vez. Ele passou por mim, acenou, disse que já voltava e entrou nos vestiários. Era o Tite. Quando voltou, ouviu a minha história e disse que estaria sempre torcendo por mim. O Cássio falou a mesma coisa, e o Romero, e o Gil... Todo mundo foi incrível. Nunca vou esquecer.

Com meu sonho realizado, voltei para casa com a certeza de que teria pulmões novos em breve. Depois de passar a vida torcendo pelo Corinthians, agora era o Corinthians que torcia por mim.

Pulmões para gritar "É campeão"

Os anos passaram. Em 2016, perdemos o Tite e fomos eliminados de todos os torneios. Em 2017, fomos campeões paulistas com Fábio Carille, que gravou um vídeo para mim, desejando força no meu tratamento. Em 2018, ganhamos o Paulista de novo, mas perdemos o Carille.

Nesse mesmo ano, participei de uma campanha de incentivo à doação de órgãos. Contra o Flamengo pelo Brasileiro, entrei na Arena ao lado do Mateus Vital, carregando um tambor portátil de oxigênio na mochila.

Em abril de 2019, eu estava de novo internado no hospital, dessa vez no Sírio Libanês. De lá, vi o Corinthians vencer o Santos nos pênaltis pela semifinal do Paulista. Dois dias depois, no dia 10 de abril, recebi uma ligação no meio da madrugada: tinham um órgão para mim, ele era compatível e estava pronto pro transplante.

Corri para o Einstein e não tive medo de nada. Disse aos meus pais que estaria 100% para gritar "campeão" na final do Paulista. A cirurgia foi um sucesso. Hoje, eu tenho pulmões novos, que me permitem respirar normalmente. Para ser sincero, eu nunca respirei tão bem quanto eu respiro agora.

Planos para o futuro

Eu nunca vou saber quem era o dono deles antes de chegarem até mim. Acredito que a campanha para conscientizar sobre a importância da doação não ajudou só a mim, mas também muitas pessoas que dependem disso para sobreviver.

Os meses pós-transplante foram de muita fisioterapia e paciência. Aos poucos, consegui voltar a correr. Em novembro do ano passado, voltei a jogar bola. Esperava voltar à Arena, mas veio a pandemia e todos os nossos planos entraram em suspensão. Pelo menos voltei para o cursinho pré-vestibular. Antes eu tinha o sonho de ser jogador de futebol para jogar no Corinthians. Hoje, estou em dúvida entre o direito, a economia e o jornalismo.

Algumas coisas ficam para sempre. A fibrose cística é uma doença sem cura e, mesmo após o transplante, eu vou ter que aprender a conviver com ela pelo resto da vida. Eu continuo tomando remédios todo dia, continuo fazendo fisioterapia e continuo suando pedras de sal quando jogo bola.

Mas tem outra coisa que ficará comigo para sempre: o Corinthians, esse time que foi o combustível que me ajudou a superar meus momentos mais difíceis.

Arquivo pessoal

Campanha une atletas e celebridades para incentivar doação de órgãos

A campanha #JUNTOS, idealizada pelo músico e ativista Bruno Saike, une personalidades como o goleiro Cássio e ex-atacante Walter Casagrande, e instituições, como Corinthians, para incentivar a doação de órgãos. Para ser um doador de órgãos, basta informar a sua família.

+ Especiais

Eduardo Anizelli/LatinContent via Getty Images

"São Paulo deixou de evoluir", diz Miranda sobre fase sem títulos

Ler mais
Arquivo pessoal/Instagram

"Agente transformador": Raphael Rezende deixaria SporTV para dirigir clube

Ler mais
picture alliance/picture alliance via Getty Image

Filhos, droga, mulheres, herança: o que falta saber para entender Maradona

Ler mais
Zanone Fraissat/Folhapress

Fim para Andrés? "Não volto mais ao futebol", diz presidente do Corinthians

Ler mais
Topo