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Marcelinho Paraíba deixa os gramados aos 44 anos, após carreira polêmica, AVC e conversão à religão

Rodrigo Viana e Sandra Mezzalira Gomes Colaboração para o UOL, em Berlim (Alemanha) Daniel Lins /Fotoarena/Folhapress

Marcelinho Paraíba tem o futebol no sangue. E não é jeito de falar. O pai, Pedrinho Cangula, foi jogador. A bola foi passando de geração em geração e a alegria de jogar é tanta que o mais famoso deles demorou a dizer o difícil adeus. A carreira de Marcelinho chegou ao fim apenas no último dia 15 de março, aos 44 anos.

Nada parou o meia em quase 30 anos de carreira. Nada mesmo. Nem o maior susto para ele, um acidente vascular cerebral que poderia não só colocar um fim à carreira, como ter deixado sequelas graves. "15 dias depois eu voltei a jogar", contou ao UOL Esporte. "Minha saúde está excelente, poderia continuar jogando. Não tenho a mesma velocidade de quando eu jogava no Hertha, mas meu físico ainda é muito bom. Resolvi para agora não por saúde ou condicionamento físico e sim porque queria começar uma nova carreira como treinador", completou.

A longa carreira, com mais de 20 mudanças de clubes, foi cheia de títulos e polêmicas — que Marcelinho admite se arrepender. O agora ex-jogador mora na Paraíba e quer viver a vida como, muitas vezes, não conseguiu quando estava na ativa: tranquilamente. Em entrevista ao UOL, falou de religião, de arrependimentos e do sonho de virar treinador.

Daniel Lins /Fotoarena/Folhapress
Ramon Smith/Perilima

AVC: "15 dias depois eu já estava jogando"

Marcelinho Paraíba foi parar no hospital em 2018, quando era jogador do Treze de Campina Grande. Ele foi internado depois de ter dificuldades para falar e exames detectaram o problema: ele teve um princípio de AVC. Um caso assim em uma pessoa normal já geraria preocupação. Para o jogador, era o risco de nunca mais conseguir jogar bola.

O médico que atendeu Paraíba na época disse que o jogador teve sorte pelo pequeno AVC não ter atingido o tronco principal do sistema nervoso, o que geraria dificuldade para se movimentar. Marcelinho correu o risco de ficar numa cadeira de rodas para o resto da vida.

O desfecho foi diferente. Marcelinho voltou a jogar. E ficou nos campos por quase dois anos depois. O que poucos sabem é que o retorno de Marcelinho Paraíba foi contra a recomendação dos médicos. "Foi uma isquemia cerebral, um começo de AVC. Quinze dias depois do acontecido já voltei a jogar. Os médicos queriam que eu ficasse 30 dias sem atividade física, mas 15 dias depois já estava jogando. E agradeço a Deus por isso", explicou Marcelinho.

Alexander Hassenstein/Bongarts/Getty Images Alexander Hassenstein/Bongarts/Getty Images

Até o cabelo descolorido se converteu

O acidente vascular cerebral fez Marcelinho Paraíba se aproximar da religião. Evangélico, deixou para trás as festas que curtia no auge da carreira. Até mesmo sua marca registrada, o cabelo descolorido, "se converteu".

"O cabelo está da cor natural, parei de pintar. Até ano passado, ainda estava pintando, mas quando me converti, me transformei num cristão e parei de pintar. Acho que não dá mais certo. Quando aceitamos Jesus, somos uma nova criatura, tudo se faz novo", disse. "Depois de algumas coisas que aconteceram comigo, e através da palavra de Deus, de estar meditando na palavra de Deus, lendo bastante a Bíblia, fui numas Igrejas aqui e o Espírito Santo tocou meu coração".

Marcelinho Paraíba contou que se arrependeu da vida desregrada de quando vivia na Europa e tinha fama no futebol. Nessa época, se envolveu em grandes polêmicas, que envolveram até mesmo uma acusação de estupro.

"Tenho o coração muito generoso e gastei muito dinheiro com farra e com falsos amigos, que diziam que eram meus amigos, mas na verdade estavam do meu lado por causa do que eu poderia oferecer. Materialmente, depois que gastei, se afastaram de mim. Claro que temos amigos, mas amigos verdadeiros, que querem nosso bem, que não estão do nosso lado pra estar em farra, gastar com bebedeira. Estou feliz demais, estou com uma vida nova, sou uma nova criatura".

O problema que eu tive, quando estava no auge, ganhava muito dinheiro, quis gastar o dinheiro com coisas erradas, com farra, com mulherada, com bebidas, ajudei muita gente?. Disso aí (de ajudar muita gente) não me arrependo não. Mas acredito que, se fosse hoje, com a cabeça que tenho, hoje ia continuar ajudando de outra forma, diferente, com mais responsabilidade.

Marcelinho Paraíba, sobre farras e dinheiro

Eduardo Knapp/Folha Imagem

Apelido após preconceito: "nordestino era discriminado"

É difícil imaginar Marcelo dos Santos sem chamá-lo de Marcelinho Paraíba. Foi com esse nome artístico que jogou no São Paulo, no Grêmio, no Flamengo, no Hertha Berlim, na seleção brasileira e em outros clubes. Também com o apelido conquistou títulos como a Copa do Brasil, o Paulista, o Gauchão, a Copa da Liga Alemã. O apelido nasceu graças a uma homenagem do próprio jogador em sua primeira passagem pelo São Paulo.

Na partida entre São Paulo e Ponte Preta, pelo Campeonato Brasileiro de 1999, Marcelinho Paraíba fez um gol e comemorou com a camiseta "100% Paraíba". O motivo foi fazer a região Nordeste ser mais conhecida e respeitada no futebol, mas, além disso, rendeu o apelido que carrega até hoje.

"Naquela época, falava muito pouco do meu estado. Paraíba, estado do nordeste brasileiro. Em São Paulo, no Rio de janeiro, tinha muito preconceito. Nordestino era discriminado. Aí coloquei a camiseta '100% Paraíba' pra mostrar que tinha orgulho do meu estado e virei o Marcelinho Paraíba".

Boris Streubel/Getty Images Boris Streubel/Getty Images

Filho foi destaque da Copinha

Marcelinho Paraíba vive há dois anos e meio na Paraíba em busca de uma vida tranquila ao lado da família, sem esquecer do futebol. A mulher, Estela, passou os momentos mais turbulentos da carreira do meia ao lado dele.

"Sempre esteve do meu lado, uma mulher guerreira, que me ajudou bastante. Muitas no lugar dela poderiam ter me abandonado pelas coisas que eu fazia, mas ela sempre teve do meu lado, orando, e acreditando que um dia, Deus ia me mudar. E este dia chegou", comentou.

Marcelinho também torce pelo sucesso do filho Marcelo no futebol. Ele foi destaque da Copinha em 2019 pelo Desportivo Brasil. "Ele está jogando no profissional aqui, no Desportivo Brasil. Graças a Deus, as coisas deram certo pra mim. Assim como vai dar certo pro meu filho também, de uma geração pra outra geração, assim nossa família vai ficando no futebol".

Ramon Smith/Perilima

Sonho de ser técnico

Longe dos gramados, mas nem tanto, a ideia perfeita é atuar nos bastidores neste primeiro momento de pós-carreira, ajudando times a fazer o que ele fez por diversos clubes: marcar gols e conquistar títulos.

"Comecei a trabalhar na comissão técnica (do Perilima). Estou trabalhando já e pretendo assumir, se não o Perilima, um outro clube como treinador oficial. Vou fazer curso de treinador na CBF e depois pretendo ir pra Alemanha fazer estágio". Em Berlim, ele já deixou as portas abertas. "Tenho um carinho imenso pelo Hertha Berlim, pelos fãs do Hertha", explicou.

O clube em que se destacou de 2001 a 2006 e é ídolo deve ser o destino do ex-jogador para aprender como treinador. "Hoje, o presidente do Hertha é o Michael Preetz, meu companheiro de equipe durante cinco anos, por quem tenho o maior carinho. Ele já deixou bem claro que as portas estão abertas pra quando eu terminar meu curso. Agradeço muito a oportunidade que ele está dando de abrir a porta pra eu fazer este estágio", comentou.

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