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Vi a morte de perto, diz lutador que apagou por 2 minutos até árbitro agir

Adriano Wilkson

Do UOL, em São Paulo

21/08/2018 04h00Atualizada em 22/08/2018 13h36

O desfecho de uma luta de MMA em Bauru (SP) no último sábado (20) causou indignação em torcedores e atletas. Na disputa do cinturão peso-leve do Demolidor Fight, o paraense Melquizael Costa, conhecido como Melk Cauthy, levou um triângulo de mão de Rafael “Coxinha” e ficou apagado por cerca de dois minutos sem que o árbitro central interrompesse a luta.

As imagens exibidas pela organização do evento mostram que o próprio Rafael informa ao árbitro Emerson Saez que Melk está apagado, mas Emerson deixa a luta seguir. Em uma luta de MMA, uma das principais funções do árbitro, é proteger a integridade física dos atletas. Em determinado momento, um dos árbitros laterais bate no octógono para mostrar que Melk não tem condições de lutar. Só aí Rafael solta o pescoço do paraense, dando fim ao combate.

O lutador derrotado só teve consciência de tudo o que aconteceu no dia seguinte, quando viu a gravação da luta. Melk não tem nenhuma memória do período em que ficou estrangulado. “Tenho plena convicção de que apaguei de olho aberto”, disse o atleta, que vive há quatro meses em Bauru, tem 21 anos e luta MMA profissionalmente desde os 17.

“Naquele momento eu estou me mexendo, mas é porque estou tendo convulsões. Olhando de fora parecia que eu estava na luta, mas só quem podia ver direito era o juiz. O meu oponente percebeu e falou pro juiz, mas a todo momento o juiz repetia: ‘Ele está na luta, continua’. Na verdade, não foi o juiz que parou a luta, foi meu oponente que percebeu e soltou. Se eu ficasse ali mais 30 segundos acho que teria morrido.”

Melk - Divulgação - Divulgação
Melk Cauthy tem vitiligo e após a luta foi incentivar um garoto portador da doença, que foi vê-lo lutar
Imagem: Divulgação

Quando voltou a si, Melk viu os médicos e membros de sua equipe falando com ele, mas não pôde responder. Sentiu uma forte dificuldade de respirar e não conseguia mexer o corpo: “Via as pessoas me chamando, mas não conseguia me mexer, só os olhos. Na hora pensei que ia morrer.” Em uma live no Facebook na qual relatou os momentos mais duros da noite, o lutador se mostrou chocado: “Nunca tinha tido essa experiência. Vi a morte perto de mim".

Entre a saída do octógono e a ambulância, Melk ainda teve tempo de falar com um garoto portador de vitiligo. O atleta também tem a doença e soube que o menino tinha ido lá só para vê-lo lutar. Depois desse momento, ele alternou entre minutos de lucidez e outros de inconsciência.

O lutador foi levado ao hospital, passou a noite internado e foi liberado na manhã de domingo. Ele ainda vai passar por exames de ressonância que possam detectar uma alteração em seu sistema neurológico: "Não sinto nenhuma sequela, além das dores normais pós-luta".

Melk faz parte da equipe Chute Boxe de Bauru. A Chute Boxe é uma equipe importante no MMA nacional. Adriano Vilela, empresário da Chute Boxe e que estava no ginásio no momento do estrangulamento, disse que do ângulo em que a equipe estava não era possível ver que Melk estava apagado. Por isso eles não teriam jogado a toalha, desistindo do combate.

"O árbitro dizia que ele estava na luta e nós ficamos orientando para ele sair do estrangulamento", disse o agente.

Promotor do Demolidor Fight admite erro do árbitro

Em entrevista ao UOL Esporte, empresário Jeferson Pavanelo, promotor do Demolidor Fight, admitiu erro do árbitro Emerson Saez no desfecho da luta. Ele afirmou, porém, que a responsabilidade pela escalação do juiz é da Confederação Nacional de MMA, de quem ele teria contratado a equipe de arbitragem.

"Só autorizei porque o presidente da confederação falou pra mim que ele era um árbitro federado", disse Pavanelo. "Ele só entrou no evento por causa disso, sou fechado com a confederação. Se eu soubesse antes, jamais eu teria colocado ele para arbitrar. Quando acontece um negócio daquele jeito qualquer um fica assustado, mas nós tínhamos médico, paramédico, enfermeiro, tudo, todos os equipamentos necessários. Graças a Deus não aconteceu nada".

O dono do evento, que organiza o Demolidor desde 2015, também se disse indignado com a repercussão do caso, que apareceu até em sites de notícias internacionais: “Na hora da alegria não aparece ninguém. Na hora da tristeza vem todo mundo. Eu estou sendo calmo com quem me pergunta sobre essa luta, mas a minha vontade é de esculachar todo mundo. Só nessas horas que aparece o pessoal pra me entrevistar. Eu sofro pra fazer o evento, sem ninguém pra me ajudar e consigo fazer o evento que eu posso fazer. Essa é a minha realidade".

Procurado, Marcelo "Drago" Lisboa, presidente da Confederação Nacional de MMA, assumiu a responsabilidade pela escalação do árbitro. "Ele arbitrou porque foi indicado por outra pessoa e eu assumi a bronca. Coloquei ele pra arbitrar achando que ele tinha condições, e ele não tinha condições de arbitrar. Eu assumo a bronca, o erro foi meu", disse ele.

Um dia depois, Drago entrou em contato para esclarecer a escalação de Emerson: "O árbitro não era árbitro meu, não era formado meu. É um árbitro de jiu-jitsu, apenas filiado à confederação. Se fosse um árbitro meu isso não teria acontecido. Mas o erro foi meu por ter escalado e confiando no histórico dele."

A reportagem tentou por, ao menos cinco ocasiões, falar por telefone com o árbitro Emerson Saez. Porém, ele não atendeu a ligações.

O lutador Melk Cauthy afirmou que, apesar do susto, vai continuar lutando. "Vou tentar não ser finalizado mais", disse ele.

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