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Acidente faz Lais redescobrir tempo, família e cogitar até Paraolimpíada

Paula Almeida

Do UOL, em São Paulo

11/08/2015 17h17

É um novo tempo para Lais Souza. A menina “sapeca”, que gostava de dar mortais nos tablados ou na neve, hoje tem um novo cotidiano motivado pelo grave acidente sofrido em janeiro de 2014, quando ela esteve entre a vida e a morte e perdeu quase todos os movimentos do corpo. A rotina de treinos deu lugar à rotina de reabilitação física, e, à força, a ex-atleta de 26 anos descobriu que, sim, o tempo é relativo.

“Hoje, meu tempo do dia a dia mudou. Antes, eu acordava 20 minutos antes de ir pro treino. Agora, preciso acordar três horas antes de ir para a fisioterapia, para dar tempo de tomar banho”, explicou Lais, com a mesma voz tranquila de antes, só agora pausada entre uma frase e outra para tomar mais fôlego. O diafragma sofre até hoje os prejuízos do acidente.

Durante participação em um debate promovido pela Editora Abril nesta terça-feira (11) em São Paulo, o 2º Abril no Rio, Lais voltou a mostrar a esperança que tem comovido a todos por onde passa. Fala do acidente e da perda dos movimentos sem aparentar mágoa, insere frases de auto-ajuda em seus discursos sem parecer clichê e relata as mudanças que vem enfrentando. O verbete mais usado? Hoje.

“Hoje, preciso ter muita atenção com o meu corpo. Tenho sensibilidade diferente, um pouco de dormência, tenho necessidade de mexer a todo momento. A fisioterapia hoje me traz isso, me traz qualidade de vida. Porque quanto mais mensagem eu passo para o meu corpo, mais eu sinto que estou viva. Eu preciso acreditar que vou voltar a mexer, nem que seja só o dedinho. E as pessoas que estão comigo me fazem acreditar nisso”, disse a ex-ginasta e saltadora.

“São três horas de fisioterapia [por dia]. Eu fico mexendo, faço eletromotivação, fico em pé, faço alongamento, alguns exercícios para tentar mexer os músculos. Porque por mais que eu não consiga me mexer, eu preciso mandar recados para o meu corpo, tenho que estimular o tempo todo”.

Na briga particular para recuperar mínimos movimentos, Lais Souza aproveita para conhecer o mundo de uma nova maneira. Sem o tato, aproveita outros sentidos aguçados para ver o que está na cara de todos, mas poucos percebem.

“Como eu não mexo a mão, eu me pego olhando para o céu e vejo que todo mundo ao redor está olhando para o celular. E eu só olhando, meio boiando. Sinto falta de estar num restaurante e ver um casal conversando, e não no celular. Hoje percebo que a atenção das pessoas é diferente, não tem mais conversa, olho no olho. A sensação que tenho é que a pessoa não queria estar ali. A gente tem que olhar mais para o lado, para o que está acontecendo em volta. O mundo está muito louco. Essa loucura de trabalho, trabalho, trabalho tem que ser repensada”, analisou Lais. Curiosamente, não poder segurar o celular foi um de seus primeiros choques após o acidente.

“Depois que falaram que eu poderia não me mexer mais nem comer sozinha, me deu todo aquele desespero. Foi o momento em que eu senti que estava à beira da morte. Aquela dor eu nunca tive como atleta. Eu estava em Salt Lake, fiz cirurgia lá mesmo. (...) Depois chegou minha mãe, e aí eu fui entendendo a queda e o que estava acontecendo. Mas não acreditava. Pedi pra minha mãe colocar o celular na minha mão, porque eu não acreditava que não ia conseguir mexer. Mexer no celular era o mínimo que eu poderia fazer”, lembrou. Hoje, ela acessa telefone e tablet por meio de uma caneca touch que ela move com a boca.

As novidades no cotidiano passam até por relações familiares. Lais Souza morou longe da família por quase 15 anos, entre alojamentos com outras atletas e vida particular. Mas teve que voltar a residir com os parentes em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. Sua mãe foi sua principal cuidadora no ano passado e hoje ainda divide grande parte das funções com William, cuidador contratado por Lais há cerca de seis meses para acompanhá-la no dia a dia em casa ou em viagens.

“Como saí muito cedo de casa, e sempre tive essa independência toda, eu achei estranho ter alguém ao meu lado o tempo todo. E ainda acho. Mas me conforta saber que tenho minha mãe ao meu lado pra me ajudar, que tenho meu pai, meus irmãos. Está sendo gostoso voltar para casa, é uma forma de conhecer eles de novo. Até de eles me conhecerem também, eu, a Lais Souza. Tudo isso é o que está me motivando. Estou conhecendo minha mãe de novo, a gente conversa mais, estou conhecendo os problemas dela”, detalhou.

No novo tempo de Lais Souza, pouco cabe pensar sobre projetos futuros. Por enquanto, seu único plano claro já tem data. “No meu dia a dia, eu percebi que tenho que ter mais paciência. Mas claro, eu sempre acredito que eu possa ter algum tipo de movimento. Eu coloquei uma data, falei que vou entrar andando na Olimpíada de 2016. Foi uma brincadeira, mas não foi. Se eu estiver mexendo pelo menos um dedinho, já está bom. Eu gostei de colocar essa data. Espero que daqui a alguns anos, todo mundo que esteja na cadeira [de rodas] levante e saia andando”.

Para além da Olimpíada, o futuro ainda lhe parece muito incerto. Lais tem uma ideia embrionária de, um dia, poder criar uma instituição que atenda pessoas afetadas por paralisia como ela. Quer continuar palestrando, como fazia antes mesmo do acidente, mas agora para falar sobre suas novas lições de vida. Lições que ainda renderão um livro, ela promete, mas que ainda aguarda um “momento principal, talvez um movimento” para ser publicado. E espera também continuar sempre ligada ao esporte, e aí mora um objetivo ainda incipiente, mas ambicioso: tornar-se uma atleta paraolímpica.

“Eu conheci a bocha adaptada. Para esse esporte, não precisa ter movimento. Tem uma equipe profissional no Rio e eu pretendo conhecer. Talvez eu seja uma atleta, uma 'paratleta' logo, quem sabe”, previu Lais. Para quem disputou duas Olimpíadas de verão e chegou a se classificar para uma de inverno, entrar em uma Paraolimpíada seria mais um grande feito.

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