PUBLICIDADE
Topo

Futebol

Luiz Gomes: 'O Flamengo prova o veneno da própria arrogância'

27/09/2020 08h00

"Reivindicar o adiamento do jogo deste domingo contra o Palmeiras era, sem dúvidas, um direito do Flamengo. Negar o pedido era o que tinha de fazer a CBF, seguindo o que foi estabelecido por ela e o protocolo que norteou a volta do Brasileirão, aprovado pelos clubes das quatro séries. O STJD apenas manteve o entendimento aplicado a maior parte dos casos anteriores e apenas cumpriu o seu papel.

Tudo isso pode parecer um absurdo sob o ponto de vista médico e sanitário. E de fato é. É absurdo deixar a saúde dos jogadores em segundo plano. Como absurdo é pensar em ter o público de volta aos estádios da forma como o assunto vem sendo tratado.

Mas, ora bolas, que se pensasse nisso tudo antes de tomar a decisão de que o futebol iria voltar. A infecção em massa de jogadores não era tão difícil assim de ser prevista. Alguns clubes, como o Corinthians e o Vasco já haviam tido surtos mesmo durante a paralisação.

É bom lembrar que quando os campeonatos voltaram o problema da contaminação em série ficou mais grave, já aconteceu algumas vezes. Oito jogos já foram adiados pela CBF em situações consideradas extremas, como o caso de São Paulo x Goiás, na primeira rodada da Série A, quando os exames saíram uma hora antes da partida, ou por falta de jogadores em número suficiente para entrar em campo, caso do Imperatriz (MA), nos jogos contra Treze (PB) e Jacuipense (BA) na Série C. O que não é o caso do Flamengo.

Ainda assim, alguns clubes tiveram pedidos de adiamento negados, como o CSA, que teve de estrear na Segundona contra o Guarani com 59% do elenco de quarentena (depois acabou tendo dois jogos suspensos), a Caldense (MG), e o Palmas (TO) que por conta da Covid-19 enfrentou o Villa Nova com apenas dois jogadores no banco e sem goleiro reserva.

Por que o Flamengo mereceria um tratamento diferenciado, então? Por razão alguma.

A semana conturbada do Rubro-Negro teve um lado positivo: podou as asas da arrogância da diretoria. Mostrou ao presidente Rodolfo Landim e ao primeiro-ministro, o vice de relações externas, Luiz Eduardo Baptista que o Flamengo de fato pode muito, pela força que tem, mas não pode tudo! Principalmente não pode querer impor suas vontades aos outros clubes, desrespeitando os interesses coletivos, o ponto de vista da maioria.

Nos últimos meses, Landim e sua corte aprontaram: começaram os treinos antes de ter autorização da prefeitura do Rio, forçaram a volta do Carioca antes de todos os outros campeonatos, romperam com a Globo de forma unilateral na transmissão do estadual, prejudicando principalmente os clubes pequenos, negociaram nos bastidores de Brasília a MP dos direitos de TV completamente à revelia dos outros clubes e até da CBF. Não foi pouca coisa, foi um verdadeiro festival de atropelos à ordem e ao espírito comum.

É difícil aceitar que depois de tudo o que tem feito e defendido durante a pandemia Landim esteja preocupado com o estado de saúde dos jogadores. Assim como é difícil acreditar que a ação que levou à suspensão do jogo na Justiça do Trabalho, movida pelo sindicato dos funcionários de clubes, por acaso dirigido por um segurança do Flamengo, não tenha tido, ao menos, o apoio indireto do clube.

O recado do presidente da CBF, Rogério Caboclo, na tensa reunião que discutiu o retorno do torcedor às arquibancadas, quinta-feira, foi duro. "A CBF não vai se tornar refém de um clube só", disse ele no áspero bate-boca com o presidente da federação do Rio, Rubens Lopes. Caboclo não citou o Flamengo, o principal defensor e beneficiado pela liberação do público, nem precisava fazê-lo, já que mais claro impossível qual era o alvo da alfinetada.

O que o Flamengo queria mesmo, a qualquer preço era evitar enfrentar o Palmeiras, um dos mais fortes adversários na briga pelo título, com um time desmantelado e num momento de instabilidade interna que a vitória sobre o Barcelona aliviou mas não resolveu. Simples assim!

O Flamengo está colhendo os frutos do que tem plantado. Experimentando o veneno da própria arrogância. As derrotas nas instâncias esportivas vão além dos fatos de que trataram, servem como um alerta: o princípio da equivalência, a isonomia entre os clubes e o respeito à maioria não podem ser ameaçados. Assim deve funcionar o jogo da democracia."

Futebol