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Entenda as razões e o impacto da final única na Copa Libertadores

31/08/2018 11h30

A Copa Libertadores terá uma mudança drástica em seu momento de decisão. Em conselho da Conmebol realizado no Uruguai em fevereiro, uma mudança na competição continental saiu do papel: a partir de 2019, a final passará a ocorrer em jogo único, e em campo "neutro". A tendência é que o modelo seja mantido até 2022, com final no mesmo país.

Em nota oficial divulgada pela entidade, o presidente Alejandro Domínguez garantiu que a mudança tem motivos que vão além das quatro linhas. Além de aumentar a renda para reinvestir no desenvolvimento esportivo, o dirigente identifica a final única como uma oportunidade para a América do Sul avançar em questões de infraestrutura esportiva, organização de grandes eventos, controle de segurança e promover a competição a fim de obter visibilidade mundial através da negociação dos direitos de transmissão da Liberta a partir de 2019.

Outro aspecto é levar o futebol para locais nos quais dificilmente ocorrem decisões, caso da capital do Chile, Santiago, que vai receber a final da competição no dia 22 de novembro de 2019. Apesar de ter sido a casa da seleção chilena no passado, ao sediar diversos jogos da Copa do Mundo de 1962, além de seis finais em campo neutro, o Estádio Nacional não recebe uma disputa importante desde a Copa América, disputada no país em 2015.

Haverá ganhos financeiros aos clubes. A Conmebol projeta que cada finalista receba cerca de R$ 6,5 milhões, mais 25% de bilheteria. A receita será somada à premiação atual, que é de R$ 19,2 milhões ao campeão e R$ 9,6 milhões para o vice.

- Mais que uma partida, será um grande evento esportivo, cultural e turístico, que trará grandes benefícios para o futebol sul-americano, seus clubes e torcedores. Este emocionante embate oferecerá um grande espetáculo esportivo de classe mundial e uma melhor experiência em casa e no estádio - afirmou o presidente da entidade, Alejandro Domínguez.

"A decisão surge após uma rigorosa análise de vários estudos técnicos elaborados por consultores especializados que estão sendo realizados com o objetivo de fortalecer os torneios de clubes da Conmebol. Entre as variáveis ??analisadas se destacam a justiça esportiva, a qualidade da competição, a emoção do espetáculo, a organização e a segurança do evento, a percepção dos torcedores, os ingressos dos clubes finalistas, os ingressos do torneio, o estado da infraestrutura esportiva do continente, o posicionamento mundial do futebol sul-americano e a comercialização dos direitos audiovisuais e o mercado esportivo correspondentes à Conmebol Libertadores", diz nota oficial divulgada pela Conmebol em fevereiro.

SANTIAGO INDICA OPÇÃO FINANCEIRA DA LIBERTA

O fato de Santiago (CHL) ser a primeira cidade-sede da final em jogo único da Copa Libertadores é visto como um indicador de movimentação turística e econômica. Segundo o especialista em marketing, João Henrique Areias, a cidade-sede pode lucrar muito no novo formato.

- A tendência é que haja um marketing forte. A ida dos jornalistas vai promover a cidade, porque o evento será transmitido para vários lugares. Outro fator é que vai aumentar a movimentação turística e comercial, gerando um impulso econômico para Santiago. Os clubes vão se beneficiar com o aumento de receita e tempo para planejamento. A mudança também reflete nos torcedores, que poderão se programar para conhecer a cidade ao invés de ir apenas para o jogo, daquela forma corrida como acontece quando a semifinal é em uma semana e a final é disputada poucos dias depois. Nesse formato, pode ser que meu time não chegue à final, mas é certo que o estádio vai estar cheio - disse, ao LANCE!.

A capital do Chile conta com o Estádio Nacional, que foi reformado recentemente para receber a Copa América 2015, tem capacidade para 48.665 torcedores e sediará a final única em 2019. A história grandiosa do local se dá não só pelo fato de ter servido como prisão no início do período ditatorial de Augusto Pinochet, mas também já por ter sido palco de diversas conquistas da Libertadores, sediando seis partidas neutras no campo, além de outras cinco envolvendo equipes locais.

Clubes como Independiente (1965), Peñarol (1966) e Racing (1967) se tornaram campeões continentais no Estádio Nacional e a história se estende até para o Brasil, com a conquista do primeiro título do Cruzeiro na Libertadores em 1976. Além do principal torneio de clubes profissionais da América do Sul, o local também foi sede da final da Copa do Mundo de 1962, conquistada pelo Brasil.

FINAL EM JOGO ÚNICO RENDE CONTROVÉRSIAS

A ideia gera controvérsias entre especialistas. Aos olhos de João Henrique Areias, a final em jogo único trará um progresso para a Libertadores:

- Os exemplos do Super Bowl e da Liga dos Campeões comprovam que a final em jogo único acaba contribuindo para os respectivos torneios. Sabendo antecipadamente do local da partida final, pode-se planejar tudo com bem mais antecedência do que em decisões com ida e volta. É a margem para tudo ser mais rentável, mais organizado. Isto contribuirá para muitos clubes concorrerem à decisão da Libertadores a partir de 2019 - disse, ao L!.

Já para o especialista em análise financeira, Amir Somoggi, a final em jogo único e campo neutro não são suficientes para "maquiar" antigos erros da Conmebol:

- A Conmebol procura mudar coisas que menos importam, como formato, dar pagamento maior após clubes ameaçarem criar uma liga paralela... A iniciativa da entidade de uma final em jogo único até é boa, por valorizar uma cidade. Mas, na prática, o que veremos é policiamento protegendo quem cobra escanteio, torcidas violentas não sendo punidas, o campeonato seguindo muito desvalorizado. Não há uma campanha global para fortalecer a competição.

FINAL EM CAMPO NEUTRO? JÁ EXISTIU NA LIBERTADORES...

Embora uma final nunca tenha ocorrido em jogo único na história da Copa Libertadores, o campo "neutro" não seria algo inédito na história da competição. Entre 1960 e 1987, o regulamento previa que, caso duas equipes terminassem em igualdade de condições nas decisões (dois empates ou com uma vitória para cada lado), ocorreria um terceiro jogo longe dos domínios de ambos. Em caso de novo empate no campo "neutro", estava prevista uma disputa de pênaltis.

Assim, o Santos faturou sua primeira Libertadores, com um 3 a 0 sobre o Peñarol (URU), no Monumental de Nuñez, em Buenos Aires, na Argentina. Dentre os brasileiros, depois, o Cruzeiro venceria o River Plate (ARG) no Estádio Nacional, em Santiago (CHI) em 1976 e o Flamengo superaria o Cobreloa no Estádio Centenário (URU), em 1981.

Não teriam a mesma sorte o São Paulo (em 1974, contra o Independiente-ARG, no Estádio Nacional, no Chile) e o Cruzeiro (perdeu nos pênaltis em 1977 contra o Boca Juniors-ARG, no Estádio Centenário). O Palmeiras, em 1968, foi vice-campeão também num jogo desempate contra o Estudiantes (ARG), disputado em Montevidéu.

Graças a este antigo regulamento, a cidade de Lima já assistiu a um jogo-desempate em 1971: o Nacional-URU superou o Estudiantes-ARG e deu a volta olímpica.

O regulamento da Libertadores mudou a partir de 1988. As finais passaram a ser em dois jogos, com desempate nos pênaltis.

LIGA DOS CAMPEÕES ESTÁ BEM À FRENTE

Ambos os especialistas reconhecem que a competição sul-americana está ainda alguns passos atrás em relação à Liga dos Campeões (que também tem formato em jogo único e com campo inicialmente neutro). Amir Somoggi apontou que as partidas da Libertadores deixam evidentes a diferença:

- Não adianta mudança da estrutura, se os campos são horrorosos, a estrutura é péssima, o pagamento é baixo e há riscos de violência e gás de pimenta. Fazer mudança de verniz não é suficiente. A Conmebol precisa mudar muito até tornar a Libertadores no nível da Liga dos Campeões.

Areias vê o combate à violência como um dos pontos altos da Liga dos Campeões:

- Lá é um sistema organizado, não permite violência, dá segurança e conforto. Souberam transformar os jogos em eventos. Por mais que jogos decisivos na América do Sul lotem estádios, são 20 ou 30 anos atrás.

CHAMPIONS SOBE DE VALOR COM O PASSAR DAS DÉCADAS

Iniciada em 1955/1956, a Taça dos Clubes Campeões só deixou de ter formato com final em uma partida em campo previamente marcado uma vez. Após Bayern de Munique e Atlético de Madrid empatarem em 1 a 1 na final de 1973/1974, em Heysel, um segundo jogo deu o título aos bávaros, por 4 a 0.

Depois, o desempate passou a ser na prorrogação ou, em caso de igualdade, nos pênaltis. A tradição do jogo único em campo neutro persistiu em 1992/1993, quando a competição passou a ganhar o nome de Liga dos Campeões. A final, na qual o Olympique de Marselha venceu o Milan por 1 a 0 (mas perdeu o título, por acusações de corrupção ativa no Campeonato Francês), à época rendia 8 milhões de euros.

No entanto, à medida que a competição se valorizou, devido à sua organização e à chance de levar todos os jogadores com maior visibilidade no cenário mundial, os valores aumentaram. Os direitos comerciais da Liga dos Campeões 2016/2017 saltaram para 2,4 bilhões de euros (cerca de R$ 9,67 bilhões).

Os finalistas Real Madrid e Juventus levaram a bolada, à época, de R$ 60,3 bilhões pela participação na decisão. Já fontes do mercado diziam que valores de patrocínio aproximavam-se à época de R$ 50 milhões.

Amir Somoggi trouxe valores que contribuem para o jogo único ser um sucesso na Liga dos Campeões:

- Este conceito do jogo único veio do Super Bowl. As cidades dão as maiores ofertas para tentar sediar a partida final, e os valores são altos. A Liga dos Campeões seguiu o mesmo processo, que deu um impacto financeiro à competição. Além da visibilidade mundial, são 30 mil, 40 mil chegando na cidade, consumindo, e isto aumenta do ponto de vista econômico.

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