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Luiz Gomes: 'Hora do fair play moral. Por duras punições para racistas'

22/07/2018 07h30

O mundo deixou a Rússia feliz e bem impressionado. A receptividade da população nas ruas, o carinho como gente de todo o planeta foi recebido em Moscou e nas outras dez cidades sedes simplesmente encantou. Não chega a ser uma surpresa para quem já conhecia o país. O russo tinha tudo para ser um povo amargo, introspectivo, fechado em si mesmo: um clima de frio cortante na maior parte do ano e na maior parte das regiões; uma língua pesada que só eles conseguem entender; séculos de ditadura sob os czares e os bolcheviques; décadas de isolamento do mundo ocidental em tempos de guerra fria. Mas, longe disso, é uma gente alegre, calorosa, como pode demonstrar nos 32 dias do Mundial.

Tudo isso é verdade. Mas há um outro lado dessa moeda que continua a marcar fortemente a sociedade russa: em poucos lugares, a discriminação e o preconceito se manifestam de forma tão ativa. Racismo, sexismo, homofobia, xenofobia são palavras e comportamentos arraigados na cultura e no dia a dia dos russos. Mesmo as gerações mais jovens, pós União Soviética, não conseguiram ainda se libertar desse mal.

Menos de uma semana depois da festa acabar, essa faceta perversa veio à tona. E da pior forma possível. Depois de anunciarem a contratação do zagueiro Erving Botaka-Yoboma, um russo de origem congolesa, dirigentes do Torpedo Moscou, clube tradicional da capital, desfizeram o negócio. Não por qualquer deficiência técnica ou clínica do jogador, não por desacerto financeiro - embora tenha sido esse o pretexto oficial. Mas, tão somente, pelo fato de o jogador ser negro.

O anúncio da contratação de Yoboma, que jogava no time B do Lokomotiv Moscou, provocou manifestações racistas de torcedores do Torpedo. Os ultras, ou Zapad-5 como são conhecidos, desfiaram todo o seu ódio racial. "Pode haver preto nas cores do clube (é alvinegro como o Santos ou o Botafogo), mas só há brancos entre os torcedores. Nosso clube, nossas regras", vociferaram em faixas e cartazes. O presidente Roman Avdeyev, até cantou de galo, disse que o racismo não tem o direito de existir e que a cor da pele nunca foi e nunca seria critério para contratações. Mas, surpreendentemente, cedeu e desfez o negócio.

Em plena Copa, a Fifa comemorou na Rússia o Dia Mundial de Combate à Discriminação no Futebol. Jogadores fizeram apelos, posaram diante de placas com slogans de campanha. Elogiável. Mas muito pouco. Ações concretas têm de ser tomadas. E já. Algo mais forte do que apenas aplicar multas aos clubes por manifestações racistas ou homofóbicas de seus torcedores, como já vem acontecendo. Uma posição como a dos dirigentes do Torpedo, legitimando um ato hediondo de seus fãs, precisa ser punida com a perda de pontos, o rebaixamento, a suspensão ou exclusão de torneios oficiais, o banimento do esporte. Ao fair play moral, se é que se pode chamar assim, tem de ser dada a mesma importância do fair play financeiro ou do fair play em campo.

A tolerância com o preconceito fere o esporte em um de seus valores mais nobres. A proliferação impune dessas práticas é uma ameaça ao futebol. E isso nada tem a ver com o politicamente correto, por vezes irmão da hipocrisia. É uma questão de civilidade. Os ultras do Torpedo são reincidentes. São os mesmos que hostilizaram o atacante brasileiro Hulk, imitando gestos e sons de macacos num jogo do clube contra o Zenit. Fizeram outras vítimas e nunca foram punidos seja pela federação russa ou pela Uefa.

A história de Yoboma carrega uma ironia. Seu drama acontece no momento em que o mundo ainda aplaude uma França campeã não somente pelo futebol que mostrou em campo, mas pela miscigenação de raças e culturas, com um time formado por jogadores franceses sim, mas com origens nas mais variadas regiões do planeta. O presidente do sindicato dos atletas russos, Alexander Zotov, chamou os ultras de idiotas. "Muita coisa mudou depois da Copa mas parece que tem gente que não percebeu", afirmou ele. Não mudou, como se viu. E não é o discurso, mas as ações que podem fazer, na Rússia, aqui, ou onde for, este triste cenário mudar.

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