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Entenda as razões e o impacto da final única na Copa Libertadores

23/02/2018 08h00

A Copa Libertadores caminha para uma mudança drástica em seu momento de decisão. Nesta sexta-feira, em conselho da Conmebol realizado no Uruguai, uma mudança na competição continental pode, enfim, sair do papel: a partir de 2019, a final deve passar a ocorrer em jogo único, e em campo "neutro". A tendência é que o modelo seja mantido até 2022, com final no mesmo país.

Oficialmente, a entidade não se manifesta sobre o assunto. Em contato com o LANCE!, um dirigente da Conmebol evitou adiantar novos passos dos cartolas. Porém, disse que vê com bons olhos a nova maneira de conhecer o campeão do torneio continental. "O conselho talvez aborde este tema, e sairá alguma informação. Embora não tenha nada oficial, minha opinião pessoal é que parece muito boa esta ideia de final única", comentou o diretor.

De acordo com informações divulgadas pelo "Esporte Interativo", um dirigente da entidade indicou que a mudança tem motivos que vão além das quatro linhas. Embora desagrade na parte técnica, o objetivo é vender a final como um evento na negociação dos direitos de transmissão da Liberta a partir de 2019. Outro aspecto seria levar o futebol para locais nos quais dificilmente ocorreriam decisões (principalmente pela qualidade técnica das equipes - caso do Peru).

LIMA INDICA OPÇÃO FINANCEIRA DA LIBERTA

A possibilidade de Lima (PER) ser a primeira cidade-sede da final em jogo único da Copa Libertadores é vista como um indicador da opção pelo turismo. Segundo o especialista em marketing, João Henrique Areias, a cidade-sede poderia lucrar muito no novo formato.

- O lucro pode não ficar restrito apenas às vésperas da final da Copa Libertadores. Muitas emissoras tenderão a ir à cidade escolhida para fazer reportagens, aumentará a presença de turistas na rede hoteleira... Cidade cogitada, Lima é muito bonita, onde se come muito bem, e as qualidades vão ficar evidentes com esta visibilidade dada pela imprensa - disse, ao LANCE!.

A capital do Peru conta com o Estádio Nacional que, após sua reforma recente, tem capacidade para 50 mil torcedores. Mesmo com a história da Copa Libertadores contando com dois momentos em que equipes peruanas chegaram a finais, o local foi utilizado apenas em jogos de ida. Em 1972, o Universitario perdeu o título para o Independiente-ARG na decisão em Avellaneda, enquanto, em 1997, o Sporting Cristal definiu seu destino contra o Cruzeiro no Mineirão (onde saiu derrotado).

FINAL EM JOGO ÚNICO RENDE CONTROVÉRSIAS

A ideia gera controvérsias entre especialistas. Aos olhos de João Henrique Areias, a final em jogo único trará um progresso para a Libertadores:

- Os exemplos do Super Bowl e da Liga dos Campeões comprovam que a final em jogo único acaba contribuindo para os respectivos torneios. Sabendo antecipadamente do local da partida final, pode-se planejar tudo com bem mais antecedência do que em decisões com ida e volta. É a margem para tudo ser mais rentável, mais organizado. Isto contribuirá para muitos clubes concorrerem à decisão da Libertadores a partir de 2019 - disse, ao L!.

Já para o especialista em análise financeira, Amir Somoggi, a final em jogo único e campo neutro não são suficientes para "maquiar" antigos erros da Conmebol:

- A Conmebol procura mudar coisas que menos importam, como formato, dar pagamento maior após clubes ameaçarem criar uma liga paralela... A iniciativa da entidade de uma final em jogo único até é boa, por valorizar uma cidade. Mas, na prática, o que veremos é policiamento protegendo quem cobra escanteio, torcidas violentas não sendo punidas, o campeonato seguindo muito desvalorizado. Não há uma campanha global para fortalecer a competição.

FINAL EM CAMPO NEUTRO? JÁ EXISTIU NA LIBERTADORES...

Embora uma final nunca tenha ocorrido em jogo único na história da Copa Libertadores, o campo "neutro" não seria algo inédito na história da competição. Entre 1960 e 1987, o regulamento previa que, caso duas equipes terminassem em igualdade de condições nas decisões (dois empates ou com uma vitória para cada lado), ocorreria um terceiro jogo longe dos domínios de ambos. Em caso de novo empate no campo "neutro", estava prevista uma disputa de pênaltis.

Assim, o Santos faturou sua primeira Libertadores, com um 3 a 0 sobre o Peñarol (URU), no Monumental de Nuñez, em Buenos Aires, na Argentina. Dentre os brasileiros, depois, o Cruzeiro venceria o River Plate (ARG) no Estádio Nacional, em Santiago (CHI) em 1976 e o Flamengo superaria o Cobreloa no Estádio Centenário (URU), em 1981.

Não teriam a mesma sorte o São Paulo (em 1974, contra o Independiente-ARG, no Estádio Nacional, no Chile) e o Cruzeiro (perdeu nos pênaltis em 1977 contra o Boca Juniors-ARG, no Estádio Centenário). O Palmeiras, em 1968, foi vice-campeão também num jogo desempate contra o Estudiantes (ARG), disputado em Montevidéu.

Graças a este antigo regulamento, a cidade de Lima já assistiu a um jogo-desempate em 1971: o Nacional-URU superou o Estudiantes-ARG e deu a volta olímpica.

O regulamento da Libertadores mudou a partir de 1988. As finais passaram a ser em dois jogos, com desempate nos pênaltis.

LIGA DOS CAMPEÕES ESTÁ BEM À FRENTE

Ambos os especialistas reconhecem que a competição sul-americana está ainda alguns passos atrás em relação à Liga dos Campeões (que também tem formato em jogo único e com campo inicialmente neutro). Amir Somoggi apontou que as partidas da Libertadores deixam evidentes a diferença:

- Não adianta mudança da estrutura, se os campos são horrorosos, a estrutura é péssima, o pagamento é baixo e há riscos de violência e gás de pimenta. Fazer mudança de verniz não é suficiente. A Conmebol precisa mudar muito até tornar a Libertadores no nível da Liga dos Campeões.

Areias vê o combate à violência como um dos pontos altos da Liga dos Campeões:

- Lá é um sistema organizado, não permite violência, dá segurança e conforto. Souberam transformar os jogos em eventos. Por mais que jogos decisivos na América do Sul lotem estádios, são 20 ou 30 anos atrás.

CHAMPIONS SOBE DE VALOR COM O PASSAR DAS DÉCADAS

Iniciada em 1955/1956, a Taça dos Clubes Campeões só deixou de ter formato com final em uma partida em campo previamente marcado uma vez. Após Bayern de Munique e Atlético de Madrid empatarem em 1 a 1 na final de 1973/1974, em Heysel, um segundo jogo deu o título aos bávaros, por 4 a 0.

Depois, o desempate passou a ser na prorrogação ou, em caso de igualdade, nos pênaltis. A tradição do jogo único em campo neutro persistiu em 1992/1993, quando a competição passou a ganhar o nome de Liga dos Campeões. A final, na qual o Olympique de Marselha venceu o Milan por 1 a 0 (mas perdeu o título, por acusações de corrupção ativa no Campeonato Francês), à época rendia 8 milhões de euros.

No entanto, à medida que a competição se valorizou, devido à sua organização e à chance de levar todos os jogadores com maior visibilidade no cenário mundial, os valores aumentaram. Os direitos comerciais da Liga dos Campeões 2016/2017 saltaram para 2,4 bilhões de euros (cerca de R$ 9,67 bilhões).

Os finalistas Real Madrid e Juventus levaram a bolada, à época, de R$ 60,3 bilhões pela participação na decisão. Já fontes do mercado diziam que valores de patrocínio aproximavam-se à época de R$ 50 milhões.

Amir Somoggi trouxe valores que contribuem para o jogo único ser um sucesso na Liga dos Campeões:

- Este conceito do jogo único veio do Super Bowl. As cidades dão as maiores ofertas para tentar sediar a partida final, e os valores são altos. A Liga dos Campeões seguiu o mesmo processo, que deu um impacto financeiro à competição. Além da visibilidade mundial, são 30 mil, 40 mil chegando na cidade, consumindo, e isto aumenta do ponto de vista econômico.

OPINIÃO DO EDITOR (por Thiago Salata)

"Imagine se tivessem tirado o seu direito, são-paulino, de ter vivido numa arquibancada a festa da conquista da Libertadores de 1992, há exatos 25 anos, num Morumbi com mais de 100 mil pagantes. Tire do cruzeirense e do atleticano o Mineirão entupido do bi 1997 e do inédito título alvinegro em 2013. Imagine se o corintiano tivesse sido obrigado a trocar o Pacaembu cheio por um estádio em Lima para a grande decisão da tão sonhada Copa em 2012. Pergunte a um palmeirense se ele se arrepende de ter madrugado na fila do velho Palestra Itália para viver na arquibancada a noite de 16 de junho de 1999. Que pena seria se o colorado não tivesse tido a chance de ver seu Inter ser campeão continental no Beira-Rio. Pergunte ao torcedor do Boca, do River, do Peñarol, do Nacional, do Atlético Nacional.

O presidente da "nova Conmebol" quer dar ar de Champions League à Libertadores com final única, em país escolhido previamente. Os dirigentes dos clubes parecem dizer amém. Uma aberração. Nem tudo que está na Europa é melhor e deve ser copiado. Ignoram-se questões geográficas e culturais com um vira-latismo que na prática só colocará embalagem bonita em uma competição que tem outros tantos aspectos a serem melhorados. O modelo de final atual não está na lista de problemas.

Que se copie a segurança dos estádios, a qualidade do gramado, a negociação dos direitos de televisão, a venda de patrocínios, os canais de comunicação da Champions. Final única, com torcida repleta de turistas, não cabe num continente de difícil deslocamento e com problemas econômicos. Querem afastar os clubes de suas casas, de sua gente. Torcedor sul-americano não está nem aí para turismo quando vê seu clube de coração em uma final de Copa Libertadores. Dane-se se o Rio tem o Cristo ou se Buenos Aires tem Puerto Madero. O que importa é ter o direito de fazer de sua casa, seja na ida ou na volta, um diferencial para a conquista. O desejo da "nova Conmebol" lembra quem pede megashow, ao estilo de Super Bowl, em decisão de futebol por aqui. Não! É ótimo e digno de aplausos a maneira como os Estados Unidos valorizam seus esportes. Perfeito, na cultura deles. Ninguém está preocupado com show em intervalo de final por essas bandas. Respeite-se cada esporte, cada competição, cada povo."

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