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Filme sobre Baggio explora história de superação e relação distante com pai

Ator Andrea Arcangeli vive Roberto Baggio na produção da Netflix que estreia hoje (26) - Stefano C. Montesi/Netflix
Ator Andrea Arcangeli vive Roberto Baggio na produção da Netflix que estreia hoje (26) Imagem: Stefano C. Montesi/Netflix

Arthur Sandes

Do UOL, em São Paulo

26/05/2021 04h00

O pênalti perdido na final da Copa do Mundo de 1994 marcou a vida de Roberto Baggio e talvez o perturbe até hoje. Portanto é peça fundamental de qualquer biografia que se disponha a contar sua história. No entanto, em "Divino Baggio", filme de ficção que estreia hoje (26) na Netflix, a cobrança para fora é somente um recurso para explorar uma carreira de superação e de complexas relações familiares.

A diretora Letizia Lamartine usa as Copas do Mundo de 1994 e 2002 como pilares da história que quer contar. Há um cuidado evidente com os detalhes das cenas das jogadas em campo. Mas, de certa forma, "Divino Baggio" não é um filme sobre futebol. A essência está na frustração de um atleta pelas seguidas contusões e a sua relação distante com o pai.

No filme, o que amarra esses três universos é um diálogo que soa pouco original. Em 1970, quando o Brasil foi tricampeão mundial em cima da Itália, o pequeno Roberto Baggio teria feito uma promessa. "Eu estava lá desolado, você veio até mim e disse 'vou ganhar a Copa contra o Brasil por você, prometo'", diz Florindo, pai do jogador.

Tudo muito parecido à história mais repetida de Pelé: aos dez anos, ele viu o pai Dondinho chorar o Maracanazo em 1950, prometeu ganhar uma Copa e depois ganhou três. Em "Divino Baggio", é só uma revelação nos minutos finais que transforma a percepção sobre esta camada artificial do roteiro.

Ator Andrea Arcangeli vive Roberto Baggio na produção da Netflix "O Divino Baggio" - Stefano C. Montesi/Netflix - Stefano C. Montesi/Netflix
Filme é bastante cuidadoso com os detalhes ao reencenar lances da Copa do Mundo de 1994
Imagem: Stefano C. Montesi/Netflix

A produção da Netflix retrata Florindo Baggio (Andrea Pennacchi) como um pai embrutecido, que veste uma estampa sobre a outra, prefere ciclismo ao futebol e é pouco dado a sentimentalismos com os oito filhos. Roberto Baggio (Andrea Arcangeli, em ótima caracterização) passa a carreira tentando impressioná-lo, até que a obsessão de ganhar uma Copa do Mundo acaba convertida em outro sentimento, no final da carreira.

O enfoque do filme na relação familiar deixa o futebol em segundo plano. Os cortes temporais acabam por resumir toda a carreira de Baggio à Copa de 1994 e a três sérias lesões (uma ao sair do Vicenza, outra já na Fiorentina e a terceira no Brescia). É tanta insistência na história de superação, que os feitos em campo são ignorados.

É este o problema mais sério do filme, que não foi feito para conhecer o jogador. Quem nunca ouviu falar dele, sequer fica sabendo que Baggio jogou a Copa de 1990, na Itália mesmo, que foi bicampeão italiano por Juventus e Milan e até campeão europeu. Mesmo o prêmio de melhor jogador do mundo em 1993 é retratado de relance, só para constar.

Estas escolhas de roteiro tornam "Divino Baggio" um filme para iniciados, então talvez seja boa ideia relembrar o jogador em campo antes de vê-lo na Netflix. Ainda assim, o desenrolar da relação com Florindo e a mudança de percepção de Baggio quanto às conquistas tornam o filme interessante.

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