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"Jogávamos mais bonito do que o Palmeiras", lamenta meia do Guarani de 94

Fabio Augusto fez parte do Guarani que chegou perto da final do Brasileiro em 94 - Arquivo pessoal/Fabio Augusto
Fabio Augusto fez parte do Guarani que chegou perto da final do Brasileiro em 94 Imagem: Arquivo pessoal/Fabio Augusto

Marcello De Vico e Vanderlei Lima

Do UOL, em Santos e São Paulo

05/04/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Fabio Augusto ficou perto de ganhar o Brasileiro de 1994 pelo Guarani
  • Time campineiro contava com Djalminha, Amoroso e Luizão, entre outros
  • Na visão de Fabio, Guarani jogava o futebol mais bonito do Brasil na época
  • "A gente chegou num estágio que praticamente não fazia coletivo", lembra

Campeão brasileiro em 1978 e vice em 1986, o Guarani voltou a encantar o futebol brasileiro na década de 90 com um time pra lá de ofensivo, com um ataque formado por Amoroso e Luizão. Em 1994, o Bugre fez uma campanha memorável no Campeonato Brasileiro com direito a vitória nas quartas de final sobre o São Paulo de Telê, campeão mundial em 92 e 93 (veja mais abaixo a ficha técnica do segundo jogo); só foi parar na semifinal diante do poderoso Palmeiras de Luxemburgo - que se tornou bicampeão brasileiro.

Sem Amoroso, que acabou se machucando nas quartas, e Djalminha, que saiu no meio do campeonato para ir para o Japão, o Guarani não foi páreo para o Alviverde da capital e acabou derrotado por 3 a 1 (no Pacaembu) e 2 a 1 (no Brinco de Ouro). Apesar da derrota, o time ficou marcado na história, e há quem fale, inclusive, que aquele time do Bugre jogava até mais bonito que o Palmeiras de Luxa. Um deles é Fábio Augusto, ex-companheiro de Luizão e Amoroso.

"Para você ter uma ideia, a gente chegou num estágio que praticamente não fazia coletivo. A gente tinha um grupo muito bom, não eram só os 11. Se não era o melhor, era dos melhores, e se não me engano, nos dois jogos na semifinal contra o Palmeiras, foram falhas nossas individuais que permitiram a vitória, e isso acontece, em qualquer jogo de grande porte. A gente diz muito que futebol é coletivo, mas o futebol, em vários momentos, torna-se individual, porque você tem duelos individuais: eu contra fulano, fulano contra ciclano, e aquilo ali é que vai determinar quem ganha mais estes duelos", afirma em entrevista ao UOL Esporte.

Arquivo pessoal/Fabio Augusto
Imagem: Arquivo pessoal/Fabio Augusto

"Lembro que tomamos um gol bobo; depois empatei de pênalti e eles fizeram um gol no final porque a gente teve que se abrir todo. É uma pena. O Palmeiras também tinha um timaço, mas creio que, tecnicamente, o Guarani jogava o futebol mais bonito do Brasil naquela época, era um time que se conhecia muito bem. O Djalminha foi vendido um pouco antes, mas participou, e o Amoroso acabou se machucando depois, e eu acabei tendo que jogar um pouco mais à frente... Mas era um time que se conhecia muito, altamente ofensivo", recorda.

No sincero papo com a reportagem, Fábio Augusto ainda recorda o caso de doping que viveu no Corinthians e conta o porquê de considerar o clube culpado na história - apesar de não ver maldade no departamento médico da época. Joaquim Grava, médico do Timão na época, também dá a sua versão sobre o que aconteceu (veja mais abaixo).

Durante a entrevista, Fábio Augusto ainda aborda inúmeros outros temas, como o título que mais sente ter perdido na carreira, a quase ida para o Real Madrid e o arrependimento de ter deixado o Corinthians no começo de 1998. Confira mais abaixo:

UOL Esporte: Como foi o seu início de carreira no futebol?

Fábio Augusto: Eu comecei no futebol de salão no Fluminense, e com 12 anos fui convidado para fazer um teste no mirim do Flamengo no mirim. Então fiz minha categoria de base inteira no Flamengo. Joguei ainda como juniores o Campeonato Carioca pelo Olaria, como profissional, mas ainda era do Flamengo, fui emprestado. Depois eu voltei ao Flamengo, fizemos uma pré-temporada e, quando cheguei a jogar uns dois, três jogos no Carioca, o Djalminha esteve lá no Flamengo e perguntou se eu queria ir para o Guarani, e eu falei: 'Eu vou, se os caras me liberarem'. O Djalminha estava lá, não é bobo, né? E, na minha cabeça, eu estava subindo, e naquela época não era como é hoje; eu ganhei essa Taça São Paulo (1990) com Djalminha, Luiz Antonio, Paulo Nunes e etc, mas não sou da geração deles, entendeu? Sou dois anos mais novo que eles, e o pessoal não sabe disso. Joguei sempre adiantado no Flamengo, então aquilo foi bom porque, na verdade, só eu, da minha geração, chegou ao profissional. Então, de repente, eu pensei: 'Será que ir para o Guarani será uma boa'? Mas o Flamengo estava com muita gente, Casagrande, Edu Lima, e eu pensei: 'De repente essa oportunidade é uma boa para eu deslanchar', e não me arrependo, não.

Arquivo pessoal/Fabio Augusto
Imagem: Arquivo pessoal/Fabio Augusto

UOL Esporte: Qual era a sua real posição no futebol quando jogou?

Essa questão de lateral no Flamengo surgiu exatamente numa pré-temporada. Como eu joguei o Carioca no Olaria, tiveram dois jogos que eu fui muito bem contra o Flamengo... O Junior estava jogando ainda e, quando voltei para o Flamengo, ele já era o treinador, e eu lembro que no primeiro coletivo do meio da semana o Junior veio e me deu a camisa de titular. Eu estava bem, treinado, e o Charles Guerreiro estava machucado; ele era lateral direito e titular absoluto. Aí um dia o Junior me chamou e falou: 'Cara, estou querendo botar você pra jogar e eu estou com o meio-campo um pouco congestionado, e eu não vejo condições de você jogar no meio, mas quero testar você de lateral direito'. E eu ia falar que não? Eu era moleque... Mas nunca gostei de jogar ali. E quando cheguei ao Guarani era pra jogar como segundo homem de meio-campo... Na verdade, a gente sabe que volante no Guarani sempre foi um só, nos times que eu joguei lá nunca tiveram dois volantes, mas depois eu passei a jogar de segundo volante, e quando o Djalminha foi vendido eu já estava jogando mais avançado, e dali pra frente nunca mais joguei de lateral no Guarani. No Corinthians eu joguei de ala, e não de lateral, é diferente, são funções bem distintas uma da outra.

UOL Esporte: Quando você foi para o Corinthians, o técnico era o Luxemburgo?

Fábio Augusto: Não, o Vanderlei foi depois, primeiro foi com o Nelsinho Baptista, fomos campeões paulistas com o pessoal do Excel, e depois chegou o Mário Sergio que era o coordenador. O Vanderlei chegou bem, me dando moral e coisa e tal, e eu tive lá - não vou dizer que foi um aborrecimento com ele, porque ele estava trazendo o Vampeta, e ele falou: 'Vou trazer o Vampeta, pro Vampeta jogar no meio e você jogar de ala', e eu falei: 'Pô, mas o Vampeta não joga de ala lá no PSV, Vanderlei? Deixa eu ficar na minha posição, no meio-campo', e o Vanderlei naquele jeito dele e tal, e aí surgiu a parada do Botafogo, logo assim que começou o Campeonato Paulista do ano seguinte, de 98, e eu até me arrependo um pouco disso, sabia?

UOL Esporte: Por que se arrependeu de ter saído do Corinthians?

Fábio Augusto: Eu já era um jogador com 24 para 25 anos, mais ou menos formado, e eu pensei: 'Agora vou voltar para o Rio de Janeiro, jogar no Botafogo, morar perto de casa e etc', mas eu ainda tinha dois anos de contrato com o Corinthians, então, se eu pudesse voltar atrás talvez eu não viria para o Botafogo, mas também não posso descartar que eu fui para um clube bacana, estaria perto de casa, mas profissionalmente dizendo, assim, o Botafogo foi o único time que eu joguei e não ganhei título. Cheguei em duas finais com o Botafogo. uma do Rio-São Paulo e uma da Copa do Brasil, contra o Juventude pela Copa do Brasil. Foi horrível.

Arquivo pessoal/Fabio Augusto
Imagem: Arquivo pessoal/Fabio Augusto

UOL Esporte: O interessante é que você saiu do Corinthians e, na sequência, o time foi bicampeão brasileiro em 99, em 2000 conquistou o Mundial de Clubes e, em 2001 campeão paulista, enquanto você [pelo Botafogo] foi duas vezes vice-campeão...

Fábio Augusto: Pois é. O Corinthians só ganhou títulos. E o Vanderlei chegou no Corinthians falando que eu era o jogador mais moderno que ele tinha lá, ele chegou bem lá comigo. Eu estava voltando daquela suspensão, que teve aquela confusão do doping, e eu fiquei suspenso. Aquilo lá foi a maior palhaçada, maior bobeira, e eu voltei bem, só que o Vanderlei queria porque queria me manter de ala... Depois de 98, alguns caras saíram, lembro que o Donizete saiu, foi para o Vasco da Gama, o Tulio também saiu, mas esse do Corinthians era um time sensacional, eu poderia ter conquistados esses títulos se ficasse, inclusive o Mundial de 2000. Eu estaria nesse grupo, mas também não posso ficar pensando nisso, é complicado.

UOL Esporte: Sobre o doping...

Fábio Augusto: Outro dia vi uma entrevista do Dr. Joaquim Grava, e as pessoas falam algumas coisas na imprensa que têm que tomar cuidado, ainda mais hoje em dia. Eu, quando jogava, sempre fui um cara meio calado... Te falo que eu perdi até contratos de imagem, de patrocínio, porque sempre fui um cara muito na minha. Nunca fui chegado a esse negócio de imprensa, mas hoje eu entendo que é diferente... Não que o cara tem que ficar exposto o tempo todo na mídia, mas, pela exposição que os atletas têm hoje, é necessário que você tenha alguém pra conduzir e etc... Bom, e sobre o doping, eu ganhei essa vitamina de um cara do grupo Skank, atleticano, que viajou para os EUA e me deu, e disse: 'Olha, os caras do futebol americano estão usando isso aqui pra jogar direto', era um composto vitamínico como se fosse um Centrum. Eu peguei aquilo, mostrei pro médico do Corinthians, o Dr. Paulo Faria, ele olhou e disse: 'Pode usar, não tem problema nenhum'. Gente finíssima o Dr. Paulo Faria. Eu joguei uma cacetada de jogos tomando essa vitamina, e aí chega o jogo pelo Campeonato Brasileiro, contra o Athletico Paranaense [1997]. Assim que acabou o jogo eu caí no doping. Se eu tivesse com alguma coisa... Ninguém faz isso: eu já cheguei no vestiário mijando, minha urina estava toda concentrada. Voltamos e o supervisor do Corinthians me chamou no canto e falou: 'Ó, Fabio, deu problema com o teu exame', e aí eu pensei: 'Deve ter trocado meu exame com o polonês que está lá, não é possível que tenha dado alguma coisa no meu exame', e aí eu pensei: 'Pô, será que foi aquela vitamina'? Mas eu estava tranquilo porque tinha mostrado para o Dr. Paulo Faria. Aí a gente veio para o Rio de Janeiro e eu acho que o Dr. Joaquim Grava pensou que os caras aqui do Rio não iam levar isso para frente, que isso não ia dar em nada; se eu falasse a verdade dava merda pra todo mundo. Aí fomos para a reunião e, no mesmo dia, a Globo já estava noticiando que eu tinha tomado um coquetel de não sei o quê e por isso que eu estava correndo mais que os outros... E há pouco tempo o Dr. Joaquim Grava falou que foi a minha irmã que me deu essa vitamina, porque minha irmã é nutricionista, e minha irmã nem sabia disso. Parece até que ele escreveu isso num livro, mas estou falando para você a verdade. Até minha mulher falou: 'Cara, fala a verdade, dá uma entrevista', só que eles acharam que, de repente, ia abafar o caso, e não foi assim. Eu sou jogador do Corinthians pego no doping, foi uma farpa para todo mundo aquilo ali. Parece que eu tinha usado cocaína, que eu era viciado, um troço assim, completamente desproporcional.

UOL Esporte: Então você poupou o Dr. Paulo Faria?

Fábio Augusto: Porque achei que nem fosse necessário falar, achei que não fosse dar em nada. Mostrei pra ele e o Dr. Paulo me disse 'não, pode usar tranquilo', só que no meio da fórmula tinha um composto que era proibido, só que estava com nome em inglês. Qual era a dele? 'Fábio, vou dar uma olhada aqui melhor, dá uma segurada aí que eu vou dar uma consultada'. Ele errou, mas não errou por maldade. Mas eu fiz a minha parte como atleta; 'não conheço isso aqui, tem uma substância que eu não conheço', então ele não falou isso pra mim, senão eu não tomaria. Então, quando você faz sem maldade, sabe... O cara jamais iria mijar.

UOL Esporte: Dessa forma que você está falando... Você já deu uma entrevista assim, abertamente?

Fábio Augusto: Olha só, o troço ficou tão enrolado... O Ronaldo Giovaneli foi me defender e tomou uma suspensão, o Antônio Carlos Zago foi me defender e também tomou uma lapada; e coitado do Joel Santana, cara... Ele chegou no Corinthians e estava uma confusão. Ele estava com uma máquina nas mãos sem poder usar. E quando a gente estava chegando próximo do meu julgamento, o Dr. Paulo Faria, junto com o Dr. Joaquim Grava, fez uma reunião e o Dr. Paulo resolveu assumir: 'Ó, realmente o Fabio Augusto me mostrou, eu desapercebi', ele assumiu. E sabe que os caras do Tribunal ficaram pensando? Que eles estavam fazendo aquilo para me livrar, para eu poder voltar a jogar logo. Estavam quase me absolvendo, mas teve um cara que votou, senão eu nem seria punido, mas deu a pena mínima, sei lá, acho que eu já tinha cumprido 30 dias, e aí eu fiquei suspenso por mais 30... O campeonato já estava entrando no final do ano, o Corinthians estava numa situação difícil e eu acabei emendando aquilo ali com as minhas férias. Continuei treinando normalmente, e depois consegui voltar bem...

Mas dessa maneira que eu estou falando assim, eu nunca contei, mas como eu já vi algumas conversas diferentes , eu até falei com a minha irmã, Renata você julga aí se vale a pena, porque eu acho que até citaram o nome da minha irmã no livro, está errado e estão citando o teu nome, a minha irmã é nutricionista do Flamengo e tem mais de 20 anos lá, ela não tinha nada a ver com a história, coitada da minha irmã.

UOL Esporte: Você é chateado com o Dr. Joaquim Grava?

Fábio Augusto: É assim: são coisas que acontecem. Creio que fiz a minha parte como atleta, puro, mostrei a vitamina para o Dr. Paulo, e ele é um cara sensacional... Lembro até uma vez que a mulher dele me ligou dizendo que ele estava muito mal, muito mal mesmo, eu sei que ele realmente não errou por maldade, foi uma desatenção. Os caras do Tribunal foram rígidos: 'A gente não está julgando o Fábio Augusto, a gente está julgando a urina, a urina dele estava contaminada, não está julgando o atleta'. O juiz que me deu a punição era um cara aqui de Niterói, ele me conhecia, o Luiz Zveiter, eu conheço desde pequeno, mas o tribunal não pode fugir à regra. Eu tinha cumprido um mês e depois cumpri mais um, mas se não me engano tinha uma venda encaminhada para o Napoli na época, que acabou não acontecendo. Mas contrato de patrocínio não perdi nenhum. Eu tinha contrato com a Adidas na época; você acha que a Adidas vai continuar o contrato com o jogador com a carreira manchada?

UOL Esporte: Você acredita que se não fosse o caso do doping você teria jogado fora do país?

Fábio Augusto: Jogaria. Eu fui jogar fora do país, mas numa mão contrária, já com 28 para 29 anos. Quando eu fui para Rússia, foi uma experiência boa, mas eu, com 22 anos, no Guarani, já estava para ir para fora. Logo assim que o Guarani me comprou, eles tiveram uma proposta para me vender para o Atalanta, mas o Beto Zini [ex-presidente do Guarani] não quis. Não era como é hoje, você chega lá e tá bom, não tem esse negócio de passe. Eu tinha que ficar esperando os caras me receberem... A gente acertou com o presidente do Atalanta, salários, mas tem que falar com o presidente do Guarani, se ele vai querer vender, e o Beto Zini falou não, colocou as condições dele, e os caras não quiseram fazer e bolou o negócio.

UOL Esporte: Fale sobre a Copa do Brasil pelo Botafogo em 99, o título perdido para o Juventude...

Fábio Augusto: A gente tinha um time muito bom. Ganhamos do Juventude lá em Caxias no primeiro jogo, e aquilo foi uma roubalheira dos diabos. O que aquele cara [árbitro] fez com a gente, nem em campeonato de favela nêgo faz isso, mas mediante a essa situação a gente pensou assim: 'Pô, no Maracanã a gente ganha desses caras, eles lá não vão aguentar'. O Juventude tinha um time bom, tanto é que eles estavam na final, não era um time qualquer, não chegou na final por um acaso. E no meio de semana houve um coletivo, o time titular não estava bem, e o Gilson Nunes começou a modificar o time, fez umas mexidas lá. Lembro que alguém reclamou que a zaga estava exposta, e o cara me tirou do meio e me botou para a ala, e botou o César Prates, que era lateral direito, na esquerda; tirou o Válber do meio-campo, fez uma salada violenta, e a gente precisava ter um time mais ofensivo... E acho que se a gente jogasse com o Juventude até hoje não teria feito gol, foi aquele dia que parece que eles fizeram um ferrolho... Acho que foi a última vez que um clube botou mais de cem mil no Maracanã. O Botafogo tinha um time muito bom: Bebeto, Túlio, Donizete, Gonçalves, Jorge Luiz, Sérgio Manoel, Zé Carlos o centroavante, olha o time... A gente não entrava em campeonato para cair, era para conquistar títulos mesmo. Eu não queria isso para o Botafogo [ficar sem ganhar títulos].

UOL Esporte: Você sente então que a sua carreira foi manchada pelo doping?

Fábio Augusto: O que tinha no suplemento não era cocaína, não era maconha, era algo que se referia teoricamente para me dar a capacidade maior cardiorrespiratória, porque era uma substância que abria os seus brônquios. Só que eu já era o melhor preparo físico do Corinthians, sempre fui um dos melhores em todos testes, tanto em resistência como em velocidade, em explosão, então para aquilo fazer efeito eu tinha que tomar sei lá, uma quantidade enorme, que ia me fazer mal inclusive. Só que as manchetes que saíram na imprensa eram como se fosse algo uma droga. Quem me via nas ruas achava que eu era viciado, e eu não bebo, não fumo, nunca cheguei perto disso. E até isso ser desmistificado, leva muito tempo, tanto que nos primeiros jogos que a gente ia jogar no interior [pós-doping], os caras falavam: 'Seu viciado, seu não sei o quê', essas coisas [risos].

UOL Esporte: Essa questão do doping afetou o seu emocional ou algo parecido?

Fábio Augusto: Não, porque quando o cara é culpado, realmente... Se eu tivesse usado drogas, é logico que ia me atrapalhar, mas nós voltamos, fizemos uma pré-temporada, e eu continuei sendo um dos melhores nos testes físicos. Então só me atrapalhou nessa possível transferência na época, se não me engano era para o Napoli, da Itália, é o que eu me lembro... E era óbvio que eu parado não tinha como ser transferido.

UOL Esporte: Tem algo a mais que você quer falar?

Fábio Augusto: Essa questão do doping, foi a primeira vez que eu falo disso assim com essa clareza. Em outras vezes os caras já me perguntaram muito sobre isso, mas eu falava: 'Gente, o que vai adiantar eu explicar isso para vocês'? Hoje, como eu não estou mais jogando... Não tenho nada contra o Dr. Joaquim Grava, muito menos contra o Dr. Paulo Faria. De vez em quando vejo algumas informações desencontradas, mas a verdade é essa que eu falei para você.

UOL Esporte: Então o momento mais triste da sua carreira foi não ter conquistado a Copa do Brasil com a camisa do Botafogo?

Fábio Augusto: Com certeza, essa perda da Copa do Brasil pelo Botafogo. Eu fui campeão paulista com o Corinthians, com o Flamengo fui campeão da Copa dos Campeões em 2001, que colocou o time na Libertadores de 2002, e com o Atlético MG fui campeão mineiro. O único time, vamos dizer dos grandes do futebol que eu joguei, que não ganhei título foi o Botafogo.

UOL Esporte: E a fase no Guarani...

Fábio Augusto: É que você [jornalistas] não sabem, mas quase todo mês o Beto [Zini] me chamava. Teve uma vez que quase fui para o Real Madrid... Lembro que foi até engraçado porque o Djalminha estava sabendo disso e, no treino, ele me deu um lençol e falou: 'Pô, o cara que vai para o Real Madrid tomando lençol de mim'... O Djalma me sacaneou, né? O Beto Zini tinha muitos contatos com esses caras aí, e essa questão de eu jogar mais avançado no meio do jogo e daqui a pouco jogar mais atrás, era moderno, contava muito ao meu favor.

UOL Esporte: Juca Kfouri disse que ia cortar o braço no jogo entre Palmeiras x Atlético MG de 1996...

Fábio Augusto: O Palmeiras tinha aquele timaço, e eu tinha acabado de chegar, foi meu primeiro jogo no Atlético-MG. Eu fiz um golaço de bicicleta, aquele Palmeiras do Djalminha, do Rivaldo, Luizão, do Muller, e o Juca Kfouri tinha falado que ia cortar o braço se a gente ganhasse aquele jogo, e nós ganharíamos. E esse cara [Wilson de Souza Mendonça, árbitro] anulou o gol, porque deu pé alto meu.

UOL Esporte: O Guarani de 94, que perdeu Palmeiras na semi, era o melhor time do Brasil? O que faltou pra ganhar do Palmeiras?

Fábio Augusto: O Carlos Alberto Silva era o treinador... Para você ter uma ideia, a gente chegou num estágio que praticamente não fazia coletivo. A gente tinha um grupo muito bom, não eram só os 11. Se não era o melhor, era dos melhores, e se não me engano, nos dois jogos na semifinal contra o Palmeiras, foram falhas nossas individuais que permitiram a vitória, e isso acontece, em qualquer jogo de grande porte. A gente diz muito que futebol é coletivo, mas o futebol, em vários momentos, torna-se individual, porque você tem duelos individuais: eu contra fulano, fulano contra cicrano, e aquilo ali é que vai determinar quem ganha mais estes duelos, quem é o vencedor da partida. Eu lembro que a gente jogava pelo empate no jogo de volta [no Brinco de Ouro], ou o Palmeiras jogava pelo empate, e nós tomamos um gol bobo; depois eu empatei de pênalti e eles fizeram um gol no final porque a gente teve que se abrir todo. É uma pena. O Palmeiras também tinha um timaço, mas creio que, tecnicamente, o Guarani jogava o futebol mais bonito do Brasil naquela época, era um time que se conhecia muito bem. Djalminha, Amoroso... O Djalminha foi vendido um pouco antes, mas participou, e o Amoroso acabou se machucando depois, e eu acabei tendo que jogar um pouco mais à frente... Mas era um time que se conhecia muito, altamente ofensivo.

UOL Esporte: Podia ter jogado na Europa e seleção?

Fábio Augusto: Desde que fui para o Guarani, desde cedo, sempre tive proposta da Europa, com coisa fechada e, em cima da hora, as coisas não vingaram. Às vezes a gente invertia: acertava lá primeiro para depois acertar com o presidente, e de repente teria que fazer o contrário, mas tive, sim, muitas propostas quando era mais novo, 21, 22 anos, e acabei saindo pra jogar quando fui para a Rússia, a primeira vez com quase 29 anos, e depois da Rússia pulei para a Suécia. Foram praticamente cinco anos jogando lá fora. Dois países em que o futebol não é o mesmo nível técnico, lógico, que Itália, Espanha, Inglaterra, mas são países de um futebol de muita força, de muita velocidade. Eu fiz o caminho inverso, fui jogar lá fora mais velho, mais cheio de vício, e tive que mudar isso de uma hora para outra rapidamente. A questão da seleção... Eu estive em duas pré-listas ou mais, 94, 95, e depois no Atlético-MG, em 96. Acho que se, talvez, tivesse me fixado mais como segundo volante poderia ter tido mais oportunidades, talvez uma sequência na seleção, principalmente no Guarani, quando despontei jogando mais solto... Mas depois passei a jogar um pouco mais avançado, principalmente quando o Djalminha foi vendido. Acabei ficando e jogando mais pra frente, de 10, como fui para o Atlético MG. Depois, no Corinthians, voltei a jogar um pouco mais recuado, mas acho que, se tivesse me firmado ali, talvez poderia ter tido uma sequência na seleção... Mas foi muito proveitoso tudo isso aí.

Dr. Joaquim Grava

UOL Esporte: O Fabio Augusto me disse que, se ele não estiver enganado, pegou essa vitamina que veio dos EUA por um integrante do grupo Skank. Foi isso mesmo? O Dr. sabe dizer se isso procede?

Joaquim Grava: Mas não na concentração do Corinthians. Não tem nada na concentração do Corinthians. Agora... Só se é outra história, porque o que sei é que, na época, o Corinthians foi isento de tudo isso, porque foi ele quem o prejudicou, não foi prescrito por ninguém pelo Corinthians.

UOL Esporte: O Fabio Augusto alega que mostrou a prescrição da vitamina para o Dr. Paulo Faria. Foi isso mesmo?

Joaquim Grava: Foi, isso é verdade, mas foi assim: os jogadores estavam subindo para o campo, antes do jogo, e ele falou: 'Doutor, eu estou tomando isso'. O Paulo viu e falou: 'Tudo bem, isso você pode tomar', só que não viu nas entrelinhas que havia uma droga, e era muito difícil, estavam entrando para jogar, pô, e o Paulo não viu. O Paulo confirma esta história.

UOL Esporte: Para o Fabio Augusto, o Dr. Paulo Faria errou porque não se atentou às informações da vitamina que continha a tal substância proibida. O Dr. Joaquim Grava concorda com o ex-jogador?

Joaquim Grava: Não, não errou em nada, aí eu discordo dele. Ele não errou em nada. Foi na hora em que estava subindo pro campo. Se fosse eu quem estivesse fazendo o jogo, seria eu. Se era o Dr. Osmar de Oliveira, seria ele, podia ser com o Dr. Runco... Ele mostrou na hora de entrar para o jogo, pô, muito em cima. Então não é que o Dr. Paulo errou, não é assim, inclusive não foi nem neste jogo que ele foi pego, ele foi pego depois, em outro jogo, porque ele continuava tomando essa vitamina. Neste jogo que ele mostrou rapidamente para o Paulo ele nem caiu no antidoping, ele caiu em outro, no jogo contra o Athletico Paranaense, em Limeira.

UOL Esporte: O Fabio Augusto disse que parece que, no seu livro, você colocou que foi a irmã dele, nutricionista, quem passou essa vitamina pra ele...

Joaquim Grava: Bom, talvez ele não quis contar essa história na época, porque estávamos eu e o Dr. Osmar de Oliveira lá, porque o Dr. Osmar foi como consultor do Corinthians, então pode até ser. Eu só sei de uma coisa: ou foi a irmã ou alguém do grupo Skank, seja quem for, mas não foi ninguém do Corinthians [que prescreveu a vitamina], e naquela época não existia ainda, no doping, livros que mostrassem as drogas, nada. Na época o doping não tinha toda essa regulamentação que tem agora, era diferente... Agora, se eu coloquei isso em algum livro meu, não me lembro.

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