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Tite perde status de "salvador", mas não joga para a torcida em pós-Copa

Marcus Alves

Colaboração para o UOL, de Milton Keynes (Inglaterra)

20/11/2018 04h00

A seleção brasileira faz o seu último teste de 2018 e fecha o primeiro ciclo de trabalho estabelecido após a Copa do Mundo contra Camarões, nesta terça-feira (20), às 17h30 (de Brasília). Com 40 jogadores convocados ao longo de seis amistosos, ela põe fim a um período de observações de novos jogadores que surgiram com destaque e vieram para ficar, casos de Arthur, do Barcelona, Richarlison, do Everton, e Lucas Paquetá, do Flamengo.

Com a Copa América de 2019 como principal objetivo, Tite se viu pela primeira vez desde que assumiu o comando da equipe sem o status de ‘supertécnico’ que o acompanhava.

Uma condição que o próprio treinador nunca exigiu e que ele mesmo, em entrevistas coletivas, sempre fez questão de relativizar, possivelmente com o receio de fortalecer ainda mais a imagem sedimentada no imaginário da torcida de ‘salvador da pátria’ após a campanha nas Eliminatórias.

Ela não existe mais. Foi derrubada com a derrota de 2 a 1 para a Bélgica e a frustração em ver o sonho do hexacampeonato mundial ficar novamente pelo caminho. Desde então, ele passou por um processo de ‘humanização’, em que viu a blindagem que pairava ao seu redor se esvair e se tornou mais suscetível a críticas.

Nessas circunstâncias, qualquer outro técnico possivelmente adotaria medidas mais populares. Não se pode ‘acusar’ Tite, no entanto, de recorrer a esse expediente. Sem medo de colocar a sua recente ‘mortalidade’ em jogo, o comandante da seleção tem ido na contramão do que os torcedores pedem e bancado as suas escolhas, mesmo que controversas para a maioria.

Em suma, não tem jogado para a torcida.

Quando todos pediam uma renovação mais forte na seleção, ele se manteve ao lado de sua espinha dorsal e, com exceção do amistoso com El Salvador, escalou sempre pelo menos oito nomes que estiveram na Rússia entre os titulares.

Não foi diferente ainda com Neymar, cuja postura foi criticada no Mundial pelo suposto excesso de dramatismo nas faltas sofridas. A sua primeira atitude foi repassar a braçadeira de capitão e mais uma responsabilidade ao craque.

Renato Augusto - Mike Hewitt/Getty Images - Mike Hewitt/Getty Images
Imagem: Mike Hewitt/Getty Images
O mesmo se repetiu também com Renato Augusto, Willian e Paulinho, que, a despeito das idades mais elevadas, seguem no grupo, ainda que sem o mesmo espaço de antes. A decisão de chamar o meia do Beijing Guoan, da China, para o lugar de Philippe Coutinho, cortado, virou um dos assuntos mais comentados nas redes sociais.

E, por fim, para mostrar que não existe, mesmo, espaço para caça às bruxas, já deixou claro que Fernandinho continua em seus planos e deverá retornar em breve para a seleção. O volante do Manchester City foi duramente criticado após a sua atuação na eliminação para a Bélgica na Copa do Mundo, ao marcar um gol contra.

“Sempre o próximo passo é o mais importante porque é uma construção, mas a gente colocou para vocês na retomada da Copa os objetivos para curto, médio e longo prazo. E existe uma responsabilidade do técnico porque eu sei que estou aqui porque determinado tempo. Existe uma finitude nisso”, explicou Tite.

“Quero deixar um trabalho e ideia de futebol desenvolvido. E nisso está a curto prazo, dividir essa base, temos convocado metade dos atletas que foram à Copa, nessa acho que foram menos, e mantendo uma estrutura de equipe porque, caso contrário, não é oportunidade, pega um time todo desmantelado e desorganizado e vai perder talento”, prosseguiu.

“Se não entra o Richarlison ou o Allan numa equipe que é estruturada, a gente perde o conceito. Daqui a pouco, descarta o atleta porque ele não foi bem num contexto todo que não o ajudou. Procuramos ler esse momento, sem abrir de desempenho e resultado porque sabe que gera confiança para mim, para os atletas numa retomada de credibilidade. Esses passos vão acontecendo para que o trabalho fique sólido”, completou.

O raciocínio passa pelo objetivo a curto prazo de conquistar a Copa América diante dessa mesma torcida que contesta as suas escolhas. Para ele, é o único resultado possível para garantir um projeto de mais quatro anos.

“(Temos que) Jogar muito e ganhar, ser campeão. No mínimo, chegar na final. Antes, ter um grande desempenho. E por que eu falo isso? Porque vivemos num país que, culturalmente, ele ferve futebol e eu não tenho nenhuma ilusão de que as coisas possam ter essa coerência, essa longevidade, que eu possa ser o precursor dela toda. Eu não me iludo com nada disso. Eu quero fazer o meu melhor trabalho no dia a dia e ser a melhor versão Tite possível”, encerrou.

Existe sempre margem para melhora, como o próprio treinador sugere, mas não falta à sua versão atual personalidade para assumir as escolhas feitas até aqui.

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