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Eliminações e projetos interrompidos marcam SP "em formação" há nove anos

Rogério Ceni em ação; técnico terá de mostrar evolução para tirar SP do status de 9 anos - Marcello Zambrana/AGIF
Rogério Ceni em ação; técnico terá de mostrar evolução para tirar SP do status de 9 anos Imagem: Marcello Zambrana/AGIF

José Eduardo Martins e Pedro Lopes

Do UOL, em São Paulo

26/04/2017 04h00

Quando o São Paulo terminou 2008 com uma sequência de três títulos brasileiros (2006, 2007, 2008), Libertadores e Mundial (2005), os sinais eram de uma dinastia tricolor no futebol brasileiro. Nos anos que se seguiram, entretanto, o que ocorreu foi o contrário: desde então, o clube do Morumbi conquistou só um título, acumula eliminações traumáticas e contrata e dispensa jogadores e treinadores aos montes. Diante das decepções contra Cruzeiro e Corinthians, na última semana, comissão técnica e diretoria têm a missão de evitar que o time atual seja só mais um capítulo nesta história. 

Com algumas exceções pontuais, o São Paulo de 2009 a 2016 é um time constantemente em formação, com treinadores sendo substituídos por outros com estilos completamente diferentes e jogadores descartados no Morumbi tendo sucesso em outros clubes.

“Quando a gente avaliava com muito critério os atletas, com medo de errar, acertava mais. Depois que fomos tricampeão mundial, acabou surgindo um modelo com ideia de que o importante era a direção, era a estrutura do clube, e não mais o jogador. Para que o Juvenal (Juvêncio, que presidiu o clube entre 2006 e 2014) não perdesse a liderança política, os erros não foram admitidos, levando a isso”, opina Marco Aurélio Cunha, que trabalhou no departamento de futebol do clube entre 2002 e 2011.

Ressaca das vitórias deu início ao período sem títulos

O São Paulo entrou em 2009 com uma base sólida do tricampeonato brasileiro: de quebra, trouxe o centroavante Washington, seu carrasco na Libertadores do ano anterior, jogando pelo Fluminense. Apesar do excelente trabalho nos três anos anteriores, Muricy não passou de junho: eliminado nas quartas de final da Libertadores, foi demitido por Juvenal Juvêncio. Ricardo Gomes assumiu e levou o elenco à terceira colocação no Brasileiro.

Muricy Ramalho cabisbaixo no jogo do São Paulo contra o Linense pela 13ª rodada do Paulista - Danilo Verpa/Folhapress - Danilo Verpa/Folhapress
Muricy comandou o time tricampeão brasileiro, mas acabou demitido em 2009
Imagem: Danilo Verpa/Folhapress

“O São Paulo contratava jogadores não tão importantes, que viravam importantes, como Danilo, Josué, esse time encaixou. Jogadores eram diferenciados como cidadãos, é o conjunto, reuniam uma serie de valores que não é facil reunir. O Juvenal, de forma errônea, começou a imaginar que qualquer jogador que viesse para o São Paulo ia corresponder, porque a estrutura era extraordinária”, completa Cunha.

De estilo calmo e conciliador, diferente de Muricy, Gomes teve bom aproveitamento (62%), mas não contou com paciência. Em agosto de 2010, um dia após cair nas semifinais da Libertadores, o treinador estava de saída. Juvenal tentou apostar em Sérgio Baresi, da base, mas Paulo César Carpegiani foi quem terminou o ano, na nona colocação do Brasileiro e sem vaga na Libertadores. Nas duas temporadas, foram contratados 23 jogadores – outros 23 saíram. Dentre as saídas, vários jogadores importantes na fase vitoriosa, como Hernanes, Richarlyson, Borges, Hugo e André Dias.

Um ano para esquecer e a conquista solitária

Em 2011 a falta de continuidade no comando se agravou: passaram pelo clube Carpegiani, Adilson Batista e Emerson Leão, além de Milton Cruz, que comandou o time interinamente em algumas partidas. Na Copa do Brasil, eliminação diante do Avaí nas quartas-de-final. Foram 11 chegadas e 16 saídas, que incluíram o zagueiro Miranda, Jorge Wagner e o lateral Junior César, completando o processo de dissolução do elenco vitorioso entre 2006 e 2008.

“Quando voltei ao São Paulo, peguei presidente diferente achando que sabia mais do que todo mundo. Achava que sabia mais do que jogador e treinador. Eu quebrei um galho, mas foi um desastre. Sai por causa disso, ele tirou jogador do time no dia do jogo [Juvenal afastou o zagueiro Paulo Miranda, mas depois permitiu sua volta]. Disse que esse jogador nunca mais jogaria comigo. Depois, ele ficou mais dois anos no clube, foi vendido e rendeu dinheiro”, diz Leão, demitido em 2012 com 36 partidas e aproveitamento de 68,5% na temporada.

05.out.2013 - Técnico Ney Franco cumprimenta o atacante Ademílson antes do jogo entre São Paulo e Vitória - Eduardo Anizelli/Folhapress - Eduardo Anizelli/Folhapress
Ney Franco comandou a única conquista de título do São Paulo desde 2009
Imagem: Eduardo Anizelli/Folhapress


Ney Franco assumiu no meio de 2012 e apostou em Lucas, Luis Fabiano e Jadson para conquistar a Sul-Americana, único título do São Paulo nos últimos nove anos. Lucas foi negociado, e, com pompa, Juvenal tirou do Santos Paulo Henrique Ganso – o meia tirou, gradualmente, o espaço de Jadson, um dos destaques da conquista. Com uma nova eliminação na Libertadores, em 2013, vieram mudanças na comissão técnica e na diretoria. Ney Franco acabou deixando o clube, assim como o diretor Adalberto Batista – ambos entraram em rota de colisão com Rogério Ceni, principal líder do elenco.

Muricy, rebaixamento e Carlos Miguel Aidar



Muricy Ramalho retornou ao São Paulo como heroi em 2013, depois de um curto trabalho de Paulo Autuori e com o time na zona de rebaixamento há 11 rodadas. Desta vez, a troca de um treinador com outro de estilo totalmente diferente deu certo, e a reação veio com um nono lugar no Brasileiro. O São Paulo, entretanto continuou sem conseguir formar um time desde o tricampeonato nacional: vieram 12 reforços, e nenhum se firmou. Três anos depois, apenas Renan Ribeiro segue no clube.

A chegada da desastrosa gestão de Carlos Miguel Aidar trouxe uma ilusão: em 2014 o São Paulo brigou pelo título brasileiro, e teve, pela primeira vez desde 2008, o mesmo treinador durante toda a temporada. O elenco, entretanto, continuou em constante mudança. Aidar formou um time de peso com contratações de Kardec, Michel Bastos, Pato e Kaká, além de boas apostas como o volane Souza e o uruguaio Alvaro Pereira.

Técnicos estrangeiros, desmanche, conversa com Bielsa e reconstrução

Aidar demitiu Muricy em abril, e trouxe em maio Juan Carlos Osorio. Com uma proposta ofensiva e metodologias diferentes, o colombiano começou a conquistar torcida e jogadores, mas o clima azedou quando o presidente negociou titulares importantes como Souza, Paulo Miranda, Toloi e Boschilia. Em outubro, Osorio foi para a seleção mexicana – dias depois, Aidar, envolvido em denúncias de corrupção, renunciou, e o atual presidente Carlos Augusto de Barros e Silva foi eleito.

“Tiveram mudanças grandes de filosofia neste período. Em 2013 e 2014, por exemplo, a ideia era qualificar o elenco e o trabalho foi conduzido neste sentido. Tanto que o clube trouxe jogadores de qualidade. Em 2015, o São Paulo passou por um turbilhão de mudanças políticas com o Carlos Miguel Aidar. O então presidente tinha uma volúpia por fazer negócios. Desta maneira, o time vendeu muitos jogadores, alguns até de mesma posição, como Souza e Denilson”, explica um funcionário do clube na época, que preferiu não ser identificado.

Após uma curta passagem de Doriva, o São Paulo começou 2016 à procura de treinador. Pensando em dar continuidade ao trabalho de Osorio, o vice-presidente Ataíde Gil Guerreiro procurou Marcelo Bielsa, que, como sempre, exigia uma série de contratações, algo distante da realidade são-paulina. Já com a vinda descartada, o argentino estudou o elenco do clube brasileiro e fez uma sugestão: Edgardo Bauza, capaz de montar uma defesa sólida e levar um time limitado pós-desmanche de Aidar longe na Libertadores – características diametralmente opostas às de Osório.

Como aconteceu com todos os treinadores que passaram pelo Morumbi nesses nove anos, com exceção de Muricy em 2014, Bauza não durou um ano, e saiu para assumir a seleção argentina em agosto. Ricardo Gomes, o substituto, durou três meses, saiu em dezembro. Pintado, o interino, terminou o ano sem títulos: cinco dos oito reforços contratados em 2016 não ficaram para 2017.

Mais um recomeço, desta vez com ídolo no comando

Rogério Ceni - EITAN ABRAMOVICH/AFP  - EITAN ABRAMOVICH/AFP
Rogério Ceni assumiu São Paulo com missão de retomar a briga por títulos
Imagem: EITAN ABRAMOVICH/AFP


Agora reeleito presidente e com Rogério Ceni no comando, Leco tem um São Paulo, mais uma vez, em formação. O mandatário manteve parte da base do ano passado, e o treinador trouxe “reforços” de Cotia, das categorias inferiores do time. Com chegadas de peso como Jucilei e Pratto, e sob a direção de um treinador jovem e que tenta implementar um estilo de jogo ofensivo, o tricolor começa a temporada em um estágio muito parecido com aquele que convive há anos: em preparação.

“O São Paulo mudou para pior. Não tem time definido, tem uma grande quantidade de estrangeiros contratados, técnicos que não deram certo em três meses e eles mandaram embora. O time só dá certo se mantém. Agora, em uma semana perdeu duas possibilidades de título, isso pesa muito. O Rogério já fala em enxugar elenco, isso significa que pode mexer mais em curto espaço”, opina Leão

Os próximos dias devem mostrar o tamanho das mudanças que as eliminações vão causar no São Paulo. Ao contrário do que ocorreu nos últimos anos, entretanto, Rogério Ceni e sua comissão técnica sobreviveram aos primeiros resultados negativos. Caberá ao ídolo são-paulino montar e preparar um elenco que tenha chances de quebrar o ciclo de demolições e remontagens e não seja mais um capítulo na história escrita durante os últimos nove anos no Morumbi.

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