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Como o homem que tentou eleger Marina Silva virou escudo de Del Nero na CBF

Guilherme Costa e Vinicius Konchinski

Do UOL, no Rio de Janeiro

29/05/2015 00h02

José Maria Marin, ex-presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), foi preso em Zurique (Suíça) na última quarta-feira (27). Marco Polo Del Nero, sucessor dele e atual mandatário da entidade, deixou o país europeu na quinta (28), desistiu de participar da eleição presidencial da Fifa e retornou ao Brasil, onde terá de lidar com a repercussão do escândalo que explodiu após ação liderada pelo FBI (polícia federal dos Estados Unidos). Enquanto isso, um senhor de olhos claros e voz mansa falava com jornalistas, circulava entre políticos e tentava articular a gestão de crise na instituição que comanda o futebol nacional. Menos de oito meses depois de ter tentado levar Marina Silva à presidência da República, Walter Feldman, 61, transformou-se em grande escudo da CBF.

Com a prisão do primeiro vice-presidente e o envolvimento do atual mandatário – Del Nero não foi indiciado ou citado nominalmente nas investigações, mas está entre os suspeitos de conspirações envolvendo Copa do Brasil e Copa América –, coube a Feldman a articulação da CBF em um dos momentos mais conturbados da história da entidade. Tudo isso para um dirigente que trabalha oficialmente na entidade há apenas um mês – convidado pelo novo presidente para ser secretário-geral da entidade, ele oficializou o acordo em dezembro de 2014, mas assumiu apenas no início do novo mandato, no dia 16 de abril.

“Conversei com parlamentares. Fui parlamentar. Sei como funcionam essas coisas”, explicou Feldman em conversa com o UOL Esporte.

Feldman é médico formado pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e começou na vida pública em 1983, quando foi eleito vereador em São Paulo. Em dois mandatos, seguiu na Câmara Municipal até 1992 (como membro do PMDB no primeiro, e depois inscrito no PSDB, além de ter passado pelo PCdoB).

No PSDB, Feldman foi eleito deputado federal e recebeu em 1998 uma indicação para ser líder da Casa Civil na gestão do governador Mário Covas. Ocupou entre 2000 a 2002 a presidência da Assembleia Legislativa.

Eleito deputado federal em 2002, Feldman assumiu em 2005 a coordenação de subprefeituras no governo de José Serra em São Paulo. Dois anos depois, tornou-se secretário de Esportes, Lazer e Recreação do Estado, cargo que ocupou até 2011.

Depois de sair da secretaria, Feldman foi convidado pelo então prefeito Gilberto Kassab a ocupar a Secretaria Especial de Articulação em Grandes Eventos, criada para acomodá-lo com um salário de R$ 12 mil e a missão de viajar ao exterior a fim de conhecer a estrutura montada para competições esportivas de grande porte.

A mudança para Londres aconteceu em maio de 2011 e coincidiu com uma alteração na rota política de Feldman. Ele deixou em abril o PSDB, mas dirigentes do partido o acusam, segundo reportagem da “Folha de S.Paulo” de ter iniciado três anos antes, ainda na legenda, um plano de articulação para criação do partido Rede Sustentabilidade em torno da imagem de Marina Silva.

No início, ainda de acordo com a “Folha de S.Paulo”, correligionários de Marina foram resistentes a Feldman. Mas ele tinha apoio da ex-senadora, e isso ficou ainda mais claro em outubro de 2013, quando a Rede não conseguiu registro. De forma taxativa, o ex-tucano prometeu acompanhá-la em qualquer lugar. Ganhou assim a confiança plena da posterior candidata à presidência da República pelo PSB.

Feldman foi coordenador de campanha de Marina e fez grande parte da articulação política em torno da candidatura dela. Com isso, acumulou capital a ponto de ter sido citado pelo jornal “O Globo” em fevereiro de 2014 como pré-candidato ao governo de São Paulo e por diversas publicações nos meses seguintes como o mais forte candidato a ocupar a Casa Civil em caso de vitória da ex-senadora.

Ainda em fevereiro, Feldman despediu-se da Câmara dos Deputados. Eleito quando ainda era do PSDB, ele decidiu pedir uma licença até o fim do mandato, em fevereiro de 2015, por considerar que seria “constrangedor” exercer o cargo como membro do PSB, partido com visão antagônica.

Esse é outro ponto que mostra o poder de articulação de Feldman. O atual secretário-geral da CBF passou por partidos como PCdoB, PMDB, PSDB e PSB, tentou estruturar a Rede e ainda flertou com o PSD.

Em meio a essa mudança, Feldman conseguiu se posicionar como crítico do PSDB, partido que ajudou a fundar. “O PSDB hoje é incapaz de se constituir como partido de oposição, de se renovar e de compreender a derrota eleitoral. O PSDB hoje está preso a um projeto de poder, precisa retomar seus rumos e refazer suas práticas orgânicas”, afirmou em 2011 em entrevista ao UOL. Meses depois, porém, na contramão dos defensores da dicotomia política das redes sociais, ele também disparou contra o PT: “Todo esse cinismo não é surpresa. O PT é o partido dos dois discursos, adota aquele que mais se adapta ao momento. Na oposição, era um. No governo, é outro”.

A ascensão de Feldman à secretaria-geral da CBF tem a ver com esse perfil. Trata-se de um profissional com excelente trânsito no meio político, algo que ficou claro nos últimos dias, e que consegue adaptar críticas e discursos a cada situação. “Queremos que haja investigação. É até bom para a CBF. Eu mesmo falei com o ministro da Justiça hoje [quinta-feira], em Brasília. Estamos à disposição para responder a qualquer pergunta”, discursou.

Também foi Feldman o interlocutor procurado por Del Nero para conversar quando o escândalo da Fifa explodiu. Em meio a um escândalo que tem colocado as principais lideranças do futebol nacional em xeque, o cartola maleável tem conseguido se adaptar mais uma vez.

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