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Torcedor arranca até os dentes para mostrar fanatismo por seu time

Bacalhau, torcedor do Santa Cruz que tingiu os dentes com as cores do seu clube - Reprodução/ESPN Brasil
Bacalhau, torcedor do Santa Cruz que tingiu os dentes com as cores do seu clube Imagem: Reprodução/ESPN Brasil

Danilo Valentini

Do UOL, em São Paulo

31/05/2014 06h00

As formas insanas como a paixão por um time de futebol se manifestam não deveria mais chocar a quem é fanático. Os níveis de abnegação a que alguém pode se submeter por uma camisa, porém, podem ultrapassar qualquer aspecto racional quando se descobre gente que já arrancou os próprios dentes para tingi-los com as cores do seu time.

Pai de 11 filhos, Jairo Mariano da Silva não precisou fazer muita força para garantir a herança que adquiriu de seu pai, que o levava aos jogos do Santa Cruz até ser assassinado, na década de 50. Bacalhau, como é conhecido, se viu sozinho, dormindo na rua e ouvindo no rádio os gols do tricolor pernambucano. Fascinado pelo título do estadual de 1957, não se alistou no Exército e passou a viver em função de sua paixão.

“Minha história é tão compliciada, fui criado na rua e a única coisa que eu tenho é o Santa Cruz”, diz Bacalhau, que, ao sorrir, já expõe todo fanatismo que o envolve. Seus dentes são tricolores. Sim, são pintados de vermelho e preto, de maneira que forma uma sequência que lembra a bandeira do Santinha. Para isso, ele arrancou todos os dentes e ficou três dias banguela até que a tinta fosse injetada e os dentes reimplantados.

“Não tomei (anestesia) nada, foi tudo arrancado, fiquei inchado. Mas não senti dor porque essas coisas de rico é tudo moderno”, relembra, dando risada. Bacalhau teve os custos do tratamento bancado pelo próprio Santa Cruz, clube que o trata como seu torcedor-símbolo.

Ser tratado como um símbolo da equipe pernambucana é o mínimo que pode ser falado a respeito de Bacalhau, de 74 anos, que mora em Garanhuns (distante 228 km de Recife) e tem a casa toda decorada com o escudo e as cores do Santa Cruz. A casa toda mesmo: roupa de cama, mesa e banho, geladeira, quadros, cores da parede, almofadas e outras centenas de itens vermelho, preto e branco dominam o ambiente. Até o caixão, com o escudo do clube, já está num cantinho esperando o momento da morte do torcedor.

“Às vezes dou uma cochilada (no caixão), quando dá aquela vontade”, brinca Bacalhau, que já preparou todos os detalhes de seu futuro funeral. O jazigo já está comprado e os detalhes da cerimônia já estão definidos. “Já separei a fita (cassete) com o gol decisivo do tricampeonato de 1983”, conta o torcedor tricolor, citando o título contra o Náutico, no estádio do Arruda.

A fascinação por estar em um estádio empurrando seu time, aliás, é o que fez o corintiano Fernando Carvalho perder o seu emprego. Em 2012, decidido a seguir o Corinthians na campanha que, posteriormente, acabaria no título da Libertadores, o farmacêutico de 31 anos comprou uma passagem aérea para acompanhar o primeiro jogo da equipe na competição, contra o Deportivo Táchira, na Venezuela.

“Eu tinha pedido a folga em dezembro e o jogo era em abril. Estava tudo certo e eu já havia até trabalhado por uma semana das 6h à meia-noite para conseguir os três dias que eu teria de folga. Mas aí chegou na véspera da viagem e o gerente disse que havia esquecido o combinado e já havia dado férias para outra funcionária. Eu não poderia viajar. Mas não quis nem saber, fui na impressora, entreguei minha demissão em caráter irrevogável e fui viajar”, conta Carvalho, que além da Venezuela já seguiu o Corinthians em outros seis países da América do Sul: Argentina, Bolívia, Colômbia, Paraguai, Peru e Uruguai.

E para o Japão? “Não fui, ia ficar muito caro. Até concorri a uma promoção no CQC, mas quando vi que para ganhar eu teria que beijar um travesti preferi ser eliminado na primeira fase”, diz o corintiano, citando o programa humorístico da Band.

Mas se dinheiro é problema para alguns, para outros a falta dele é o que determina o quão histórica será uma viagem para ver um jogo de futebol. É o que aconteceu com Denílson Santos, que viajou de Belo Horizonte a Buenos Aires, em 2013, para acompanhar o primeiro jogo fora de casa do Atlético Mineiro na Libertadores, competição que seria vencida pela equipe.

Produtor de banners e engrossando o orçamento como ajudante de palco de uma banda de pagode, Denílson conseguiu juntar R$ 200 para ver o jogo contra o Arsenal de Sarandí. E depois de mais de 70 horas de viagem em uma van com mais 11 torcedores e uma bagagem com malas, bandeiras, faixas e instrumentos musicais, restava a volta. E eis que aí começaria uma saga que demoraria duas semanas.

“A van quebrou e ninguém tinha dinheiro para pagar o conserto”, conta Denílson, que acabou dormindo quatro dias dentro do veículo, que ficou estacionado em uma oficina de um mecânico que virou amigo, Hugo, que tentou arrumar, mas não conseguiu uma solução. Enquanto isso, tomavam banho na oficina e jogavam bola com os moradores de um condomínio próximo.

O jeito foi ir com a galera para um hostel (albergue), que fez um precinho camarada para seis atleticanos em um quarto só. “Foi muito macarrão com massa de tomate nesse tempo todo”, lembra Denílson, que não tem a menor dúvida de que toda aventura valeu à pena. “Uma porque o Galo foi campeão, e outra porque vou ter uma história para contar a vida toda”.

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