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Grupo brasileiro prepara indicação de Havelange ao Nobel da Paz e vê obstáculo em Blatter

Havelange recebe título de doutor honoris causa da Academia Brasileira de Filosofia - Academia Brasileira de Filosofia/Divulgação
Havelange recebe título de doutor honoris causa da Academia Brasileira de Filosofia Imagem: Academia Brasileira de Filosofia/Divulgação

Bruno Freitas

Do UOL, em São Paulo

10/01/2012 06h00

Paralelamente à implicação como suposto protagonista do caso ISL, em que altos dirigentes da Fifa receberam propina da empresa de marketing esportivo em questão, o veterano João Havelange será indicado ao prêmio Nobel da Paz deste ano, em iniciativa da Academia Brasileira de Filosofia (ABF).

FICHA TÉCNICA

NOME: Jean-Marie Faustin Goedefroid de Havelange
 

NASCIMENTO: 8 de maio de 1916, no Rio de Janeiro
 

FEITOS POLÍTICOS:
- De 1956 a 1974 presidiu a CBD (Confederação Brasileira de Desportos), que congregava, na época, 24 esportes e não somente o futebol
- Dirigiu a Fifa de 1974 a 1998. Organizou seis Copas do Mundo, visitou 186 países e trouxe a China, desligada por mais de 25 anos por motivos políticos, de volta à entidade
- Atuou nos bastidores políticos do COI no lobby pelos Jogos de 2016 no Rio de Janeiro

Credenciada oficialmente pela Fundação Nobel para sugerir nomes do país na disputa de literatura, a ABF prepara a indicação de Havelange [exceção aceita pelo instituto], apoiada no argumento de que o dirigente que completa 96 anos em 2012 promoveu a paz através da difusão do futebol como negócio gerador de empregos e justiça social.

No entanto, os mentores da ideia veem o trâmite do escândalo ISL na Suíça e a recente renúncia do brasileiro como membro do Comitê Olímpico Internacional (antecipando-se a uma possível expulsão) como um jogo político ligado à sucessão de Joseph Blatter na Fifa em 2014 e um consequente obstáculo na candidatura.    

Presidente da academia abrigada no Rio de Janeiro, João Ricardo Moderno já preparou a carta oficial destinada ao braço norueguês da Fundação Nobel, responsável por organizar o prêmio da Paz. A indicação brasileira será encaminhada já nos próximos dias, antes do prazo limite para inscrições, que expira em 1º de fevereiro.

"A ABF vai encaminhar o dossiê até o final da semana. Somos credenciados para indicar nomes do país para o Nobel de literatura, vamos indicar o Carlos Nejar [poeta gaúcho, membro da Academia Brasileira de Letras]. Mas também podemos apresentar indicações para outros prêmios", afirma Moderno.

"O João Havelange fez muito mais pela paz mundial do que outros ex-laureados. Fez mais do que Obama e Yasser Arafat [líder palestino morto em 2004], por exemplo. Parou a guerra Irã-Iraque [nos anos 80] para a realização de jogos. Não deixou que questões raciais, ideológicas e militares influenciassem no esporte e ainda acabou com o racismo no futebol, integrando África, Ásia e o mundo árabe à Fifa, unindo o mundo", argumenta o presidente da Academia Brasileira de Filosofia.

Na carta endereçada ao comitê norueguês da Fundação Nobel, João Ricardo Moderno discorre sobre o legado Havelange na presidência da Fifa, entre 1974 e 1998, em argumento que a administração do brasileiro gerou mais de 250 milhões de empregos diretos no universo do futebol, em várias esferas. "Renda é paz social, emprego é paz social", destaca. Se não for aprovada para 2012, a indicação fica na fila para os anos seguintes.

A ideia da indicação ao Nobel da Paz surgiu em 2010, quando João Havelange foi nomeado doutor honoris causa da Academia Brasileira de Filosofia.

ACUSAÇÕES CONTRA DIRIGENTE REPRESENTAM OBSTÁCULO

A iniciativa brasileira de brigar por um Nobel da Paz para João Havelange encara a posição atual do dirigente no cenário político do esporte como uma adversidade à causa.

  • Luciano Mellace/Reuters

    Havelange em encontro com o Papa João Paulo II: status de chefe de estado no comando da Fifa

  • Arquivo/Folha Imagem

    Amadurecimento do futebol profissional na África é uma façanha geralmente creditada a Havelange

Em dezembro passado, Havelange renunciou como membro do COI dias antes de a entidade anunciar decisão sobre casos de corrupção ocorridos nos últimos anos. Integrante da entidade desde 1963, o brasileiro estava sob investigação por supostamente receber um pagamento de US$ 1 milhão (cerca de R$ 1,7 milhão) da ISL.

Dois outros integrantes do Comitê Olímpico envolvidos no caso, Lamine Diack e Issa Hayatou, receberam advertências brandas.

"Querem atingir o Brasil, o jogo político é pesado. Quando ele esteve aqui na homenagem da academia, falou das acusações. Dizem que o Blatter quer atingi-lo, mas o alvo é o [Ricardo] Teixeira. O Havelange foi muito claro, jogam pesado para tirar o Brasil da reta. Não querem o Brasil na sucessão da Fifa. O Blatter não quer isso", diz João Ricardo Moderno.  

"Ele é um homem acima de qualquer suspeita, só fez bem à humanidade. Brasileiro tem mania de transformar bandidos em homens honrados e homens honrados em bandidos. Ele foi convocado para a reunião da comissão ética [do COI], mas disse que não iria, disse que não fez nada, não pegou dinheiro de ninguém", acrescenta o mentor da candidatura brasileira ao Nobel da Paz.

JUSTIÇA SUÍÇA PRESSIONA FIFA A DIVULGAR NOMES DE ESCÂNDALO 

Em 27 de dezembro passado, a Suprema Corte do estado de Zug, na Suíça, determinou que a Fifa revelasse os documentos sobre o caso da ISL, empresa de marketing esportivo do país que faliu e tinha diversos negócios com a entidade, entre eles os direitos de televisão da Copa do Mundo.

A Fifa tem 30 dias para recorrer da decisão da Suprema Corte da Suíça, em prazo que começou exatamente na data mencionada.

O órgão máximo do futebol planejava divulgar a informação na reunião do comitê executivo em 17 de dezembro, mas uma ação legal de uma parte envolvida no escândalo forçou a decisão a ser adiada por tempo indeterminado.

Publicamente, o que se sabe é que dois dirigentes da entidade que tiveram o suborno comprovado fizeram um acordo com a Justiça suíça em nome de sigilo, devolvendo o valor financeiro embolsado nas negociações com a ISL. De acordo com documentário da BBC inglesa, os cartolas em questão são Ricardo Teixeira e João Havelange.

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