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10 histórias mostram que Bielsa não é chamado de "El Loco" à toa

Daniel Ochoa de Olza/AP
Imagem: Daniel Ochoa de Olza/AP

Do UOL, em São Paulo

26/08/2018 04h00

"O sucesso é deformante, relaxa, engana, torna-nos piores, faz com que nos apaixonemos excessivamente por nós mesmos; o fracasso é totalmente o contrário, é formativo, torna-nos sólidos, reforça as convicções, traz coerência". A famosa frase de Marcelo "El Loco" Bielsa resume muito bem a sua trajetória no futebol: poucos títulos e muito reconhecimento.

O técnico argentino nunca abriu mão do estilo de jogo ofensivo, baseado na pressão constante sobre o adversário. Seus times jogam bonito, mas nem sempre conseguem manter essa proposta até o fim. Três campeonatos argentinos e um ouro olímpico foi tudo o que Bielsa conquistou na carreira até agora. Mesmo assim, ele é a inspiração de Guardiola, Simeone, Pochettino e muitos outros treinadores da nova geração.

Nos últimos anos, Bielsa vinha se destacando mais pelo comportamento excêntrico do que pelos resultados em campo. Até que ele assumiu o desafio de treinar o Leeds United, um tricampeão inglês que não joga na elite há 14 anos. E o estilo do argentino casou perfeitamente com o da segunda divisão inglesa - pelo menos por enquanto. Mesmo com um elenco modesto, o clube teve um início meteórico, e Bielsa logo virou xodó da torcida. Resta saber até quando. A passagem dele pela Inglaterra já engrossou a lista de histórias que justificam sua fama de louco: 

  • Site oficial do Leeds United

    Mutirão de limpeza

    O principal causo de Bielsa no Leeds foi relatado pelo jornal The Guardian: o técnico teria perguntado aos dirigentes do clube qual era o tempo médio que um torcedor precisava trabalhar para comprar um ingresso. Após chegarem à conclusão de que a resposta era três horas, o técnico reuniu os jogadores e comandou uma atividade bem diferente. Nas próximas três horas, todo mundo recolheria lixo e faria a limpeza do CT. Assim, os atletas teriam uma ideia do esforço que a torcida faz pelo time.

  • AFP PHOTO / FRANCOIS LO PRESTI

    Quitinete no CT

    Antes de assumir o Leeds, Bielsa teve passagens conturbadas por dois clubes europeus. Na Lazio, pediu demissão 48 horas depois da apresentação. Em seguida, foi para o Lille, da França, onde maus resultados levaram à demissão do treinador, que reagiu processando o clube por danos morais. Logo na chegada ao Lille, antes mesmo da pré-temporada, ele dispensou 11 jogadores e gastou uma fortuna em novas contratações. Para os que ficaram, ele passou um questionário a fim de conhecê-los melhor, com perguntas sobre a pobreza mundial e os filmes favoritos dos atletas. E ainda fez questão de ter um quartinho no CT, onde podia dormir ou se dedicar à sua maior obsessão: analisar vídeos de jogos. O Lille então transformou um pequeno depósito de 30m² em uma quitinete para Bielsa.

  • Cafezinho

    Uma das manias de Bielsa é assistir aos jogos sentado sobre um cooler ou agachado na área técnica, geralmente tomando um café. Quando ele treinou o Athletic Bilbao, a imprensa espanhola reparou que ele sempre dava o mesmo número de passos antes de se sentar. E ele confirmou: "Sim, é verdade. O que você não percebeu é que o 12º passo é curto e o 13º é longo". Mas nem sempre ele calcula bem os seus passos. Em um jogo do Olympique de Marselha, o auxiliar deixou o copinho de café sobre o cooler. Bielsa sentou em cima e ficou furioso (veja no vídeo).

  • Caio Carrieri/Colaboração para o UOL

    Distância dos repórteres

    Bielsa se recusa a dar entrevistas individuais ou exclusivas. Ou seja: só fala em coletivas. Com seu estilo sincero e muitas frases de efeito, não é de deixar os jornalistas sem resposta, nem que para isso tenha que distribuir algumas patadas. Uma coisa é certa: Bielsa nunca vai responder olhando nos olhos do repórter. Ele tem o hábito de olhar para baixo durante as entrevistas coletivas, a fim de evitar qualquer tipo de contato visual com os profissionais da imprensa.

  • CBF

    Sobrou até para o Tite

    Convidado pela CBF para participar de um congresso sobre futebol ao lado de Tite e Fabio Capello em 2017, Bielsa roubou a cena ao questionar o trabalho do técnico da seleção brasileira. "Filipe Luis defende três vezes mais que Marcelo. E você escala o Marcelo", alfinetou o argentino, que emendou: "O Brasil tem usado sempre o mesmo esquema, muitas poucas mudanças. Vocês sabem que como argentino eu não quero que o Brasil ganhe, né?". Ao final do evento, a CBF presenteou os técnicos com camisas personalizadas da seleção brasileira. Mas Bielsa se recusou a receber a sua.

  • Reprodução

    Quase levou tiro da polícia

    O ex-goleiro argentino Pablo Cavallero, que trabalhou com Bielsa na Copa de 2002, contou ao blog Patadas y Gambetas que o técnico costumava passear de noite nos arredores da concentração, porque não conseguia dormir. A seleção estava hospedada perto do aeroporto internacional de Buenos Aires. "Ele fazia isso sempre com fones de ouvido, escutando palestras ou preleções de futebol. Mas a polícia, claro, estranhou ver alguém no meio das árvores de madrugada. Falavam com ele, e ele não escutava porque estava com os fones. Quando os policiais chegaram para atirar, jogando a luz na cara dele, Marcelo correu para trás de uma árvore, gritando 'por favor, sou o Bielsa, não disparem'. No dia seguinte, demos risada. Mas vendo hoje, por pouco não perdemos o técnico às vésperas de uma Copa do Mundo".

  • Reprodução

    Visita ao banheiro

    Logo após pedir demissão do Olympique de Marselha, em 2015, Bielsa foi tirar umas férias em Montevidéu. E apareceu de repente, sem avisar, nos estúdios da rádio Oceano FM, surpreendendo os funcionários. Logo ele, que não costuma dar entrevistas. Mas o motivo da visita foi ainda mais surpreendente: o treinador estava fazendo exercícios à beira-mar quando sentiu vontade de fazer necessidades, e foi até as dependências da rádio para ir ao banheiro. Os funcionários deixaram que ele se aliviasse e só pediram uma coisa em troca: uma entrevista. Nem assim conseguiram.

  • EFE/Misael Yerbatov

    Errando de propósito

    Estudioso ao extremo, Bielsa analisa profundamente seus adversários, geralmente assistindo aos vídeos das últimas partidas. Quando treinava o Newell's Old Boys no começo dos anos 1990, ele percebeu que o oponente costumava perder a bola depois dos arremessos laterais. E pediu ao goleiro Norberto Scoponi que batesse os tiros de meta para fora, a fim de recuperar a posse em uma situação mais interessante para o ataque. A tática deu certo, mas Scoponi foi impiedosamente vaiado. A torcida achava que ele estava com o pé descalibrado, sem saber que o goleiro apenas cumpria as instruções de Bielsa.

  • REUTERS/Ruben Sprich

    Peitando os astros da Argentina

    Bielsa teve em suas mãos uma das gerações mais fortes da história da Argentina quando treinou a seleção no início dos anos 2000. Pena que também foi uma das mais decepcionantes, caindo na fase de grupos em 2002 depois de uma campanha avassaladora nas eliminatórias. Logo no primeiro treino, ele fez uma votação para saber se os jogadores preferiam jogar com linha de quatro ou de três na defesa. A maioria dos atletas optou pela linha de quatro, e Bielsa respondeu: "Bom, isto demonstra qual é o esquema preferido de vocês. Quero anunciar, então, que vamos jogar com uma linha de três. Tchau!". Antes de assumir a Argentina, Bielsa viajou pelo mundo para visitar os jogadores nos países onde atuavam. Ao encontrar Fernando Redondo em Madri, disparou: "Em primeiro lugar, não gosto de você, mas tenho que ir ver todo mundo".

  • Reprodução/Olé

    A origem do apelido

    Marcelo Bielsa começou a ser chamado de "El Loco" em 1992, depois que o seu Newell's foi goleado por 6 a 0 na estreia da Libertadores contra o San Lorenzo. Um grupo de torcedores foi até a casa do treinador para protestar depois do vexame. Eles pediam que Bielsa aparecesse para dar explicações. O pedido foi atendido. Bielsa saiu de casa segurando uma granada. "Se não forem embora agora mesmo, tiro o pino e jogo em vocês", ameaçou o técnico. O motim foi desfeito, e o Newell's chegaria à final daquela Libertadores, perdendo apenas para o São Paulo nos pênaltis. Mas o apelido pegou para sempre.

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