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OPINIÃO

Você tem certeza que as críticas a Neymar não são racistas e classistas?

Neymar, camisa 10 do Brasil, na estreia da seleção na Copa, contra a Sérvia - Francois Nel/Getty Images
Neymar, camisa 10 do Brasil, na estreia da seleção na Copa, contra a Sérvia Imagem: Francois Nel/Getty Images

Do UOL, em São Paulo

29/11/2022 04h00

Classificação e Jogos

Vamos começar com o personagem: Neymar é controverso. Já teve problemas em se reconhecer negro no passado e atitudes que merecem muitas críticas. Só que pouco importa o que Neymar pensa sobre sua negritude. Em uma sociedade racista e classista como a brasileira, ele vai ser visto e tratado como homem negro. Queira ou não.

Em um momento de lesão, há quem cobre Neymar para ser menos metido, menos celebridade, menos ostentação. Ele tem de "voltar para suas origens". É como se perguntassem: quem ele pensa que é para agir assim? Quem ele pensa que é para não ser o que achamos que ele deveria ser?

Nenhum atleta branco da seleção brasileira atual é ou foi questionado por ter joias, carros ou estar presente nas melhores festas ao redor do mundo, por posicionamentos políticos. Kaká, último jogador brasileiro eleito o melhor do mundo pela Fifa, não sofreu tantos questionamentos sobre o que fazia ou deixava de fazer fora de campo ou sobre seu ativismo social.

Como escreveu Pedro Lopes em análise no UOL Esporte, Neymar é inspiração para um grupo de garotos que saiu da pobreza e da exclusão. Meninos que nasceram em lugares onde a única mão do Estado presente é a violência policial. Há um motivo para Neymar ser tão querido por todos esses jogadores, ser o exemplo de que é possível sonhar com uma vida melhor. E isso parece ser ignorado. Não existe análise completa quando parte da sociedade não pode dizer o que pensa.

Neymar, milionário ou não, em Paris ou na periferia, vai carregar para sempre o imaginário que as pessoas têm sobre como um homem negro deveria ser e agir, independentemente do que ele acha que é bom para si mesmo. Ele nunca será visto como parte da elite pelos mesmos críticos que dizem que ele abandonou as raízes. Enquanto ele fica em um limbo, sem a percepção de pertencimento em nenhum dos lados, todo mundo parece saber o que é melhor para ele.

O tom das críticas que o atacante recebe, até mesmo na imprensa, em que poucos negros têm a oportunidade de opinar sobre futebol, mostra isso. As análises são feitas por homens brancos. É uma das faces do privilégio branco: falar sobre tudo e com propriedade única, sem contraponto.

Não seria interessante saber o que a população negra pensa sobre Neymar? O que o moleque que compra a camisa 10 do Brasil ou do PSG na periferia acha dele?

A lupa é maior para quem quebra o imaginário de que o negro só é humilde se for pobre ou viver de um jeito predefinido por quem sempre oprimiu. O problema é: quem define o que é ser humilde? Parte da população branca brasileira, dia a dia, exerce livremente seu direito de ostentar, de ser celebridade, de ter joias, de ir a festas, ser celebridade nos sites e TV's. Sem qualquer tipo de cobrança. O povo negro, que representa 56,2% da população brasileira, não. Os poucos que ousam furar essa bolha ganham a fama de marrentos.

Neymar pode e deve ser criticado por seus posicionamentos, por sua postura dentro de campo, por pouco envolvimento em causas sociais e antirracistas. Se você for um dos que questiona a mistura de vida pessoal com o campo ou se alegrou com sua lesão, responde: você tem certeza que as críticas a ele não têm um fundo racista ou classista? Por que Neymar, um jogador negro, te incomoda tanto? É puramente o que ele faz? Ou é o que ele desafia no seu privilégio?

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